A outra corrida espacial dos bilionários: SpaceX e Amazon miram internet via satélite

Empresas de Elon Musk e Jeff Bezos pretendem criar 'constelações' com milhares de pequenos satélites para levar conexão para áreas pouco atendidas. Críticos apontam problemas com lixo espacial e prejuízo para observação espacial

Além de concorrerem no turismo espacial, os bilionários Elon Musk e Jeff Bezos mantêm uma disputa no ramo de internet via satélite. Ambos trabalham nas chamadas "constelações de satélites", que têm o objetivo de levar conexão para áreas remotas em todo o planeta.

A SpaceX, de Elon Musk, está à frente na corrida e já lançou mais de 1.800 satélites. A empresa quer chegar a uma rede com 42.000 equipamentos em operação no espaço, mas precisa do sinal verde da Comissão Federal de Comunicações (FCC), equivalente americana da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Já a Amazon, de Jeff Bezos, trabalha no Project Kuiper. A companhia não tem satélites em operação, mas, em novembro de 2021, recebeu autorização da FCC para operar uma constelação com 3.236 unidades.

Mas por que Musk e Bezos investem na internet via satélite quando já existe fibra óptica? A resposta pode estar na própria fibra óptica: para oferecerem esse tipo de internet, as empresas precisam criar uma grande rede de cabos, o que não é viável financeiramente para qualquer local.

É comum que esse tipo de infraestrutura se concentre nas cidades onde os provedores entendem que terão um retorno considerável. Em regiões remotas, a oferta desses serviços é limitada e, em alguns casos, é preciso recorrer ao serviço de internet via satélite, que já é oferecido por várias empresas.

Satélites diferentes

A internet via satélite existe há anos, mas Musk, Bezos e outros investem em outro modelo do serviço. Hoje, a maioria dos provedores desse tipo de rede usa grandes satélites em órbita geoestacionária, isto é, que acompanham a rotação da Terra e permanecem sobre uma mesma região.

No caso do Starlink e do futuro serviço da Amazon, os satélites ficam na chamada órbita terrestre baixa, mais próxima da Terra. Eles estão próximos à Estação Espacial Internacional e ao telescópio Hubble.

Com uma distância menor, os novos satélites prometem diminuir a latência, que indica quanto tempo uma informação leva para sair de um ponto e chegar ao seu destino. Nos dois casos, porém, o foco está em regiões distantes de grandes centros.

Marcelo Zuffo, membro do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) e professor do Deparamento de Engenharia de Sistemas da Poli-USP, afirma que uma vantagem da internet via satélite está no fato de ela levar conexão onde não há outras opções disponíveis.

"Você pode oferecer infraestrutura onde não chega internet, como em um navio no meio do oceano, na Antártica ou na Amazônia", afirma. "Há várias oportunidades de negócio para regiões remotas".

É rápido?

Entre as duas empresas, apenas a SpaceX já está operando. A empresa conta com 145 mil clientes em 25 países, segundo dados divulgados no início de janeiro pela "CNBC".

A Starlink diz em seu site que os usuários podem contar com "latência de até 20 ms (milissegundos) na maioria dos locais", mas um levantamento da SpeedTest indicou que a média ficou em 44 ms nos Estados Unidos durante o terceiro trimestre de 2021.

A latência da Starlink é menor do que a registrada nos EUA pelas empresas de internet via satélite tradicional HughesNet e Viasat, que ficaram em 744 ms e 629 ms, respectivamente, no mesmo período. Por outro lado, a latência de provedores de banda larga fixa ficou em 15 ms.

A empresa de Elon Musk espera alcançar velocidade de 1 Gb/s (gigabit por segundo), mas admite que hoje ela fica entre 100 Mb/s e 200 Mb/s (megabits por segundo). O SpeedTest indica que, no terceiro trimestre de 2021, a velocidade média de download da provedora nos EUA foi de 87,25 Mb/s.

Nesse intervalo, a HughesNet e a ViaSat tiveram velocidade média de download de 19,30 Mb/s e 18,75 Mb/s, enquanto provedores de banda larga fixa ficaram em 119,84 Mb/s, na média.

É barato?

Para se tornar cliente do serviço da Starlink, é preciso primeiro comprar um kit com antena, roteador e cabos por US$ 499 (cerca de R$ 2.700, na cotação de 20 de janeiro). Depois, há uma mensalidade de US$ 99 (R$ 530) para desfrutar da internet.

Roberto Onody, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP, avalia que o custo poderá ser um entrave para a Starlink. "A desvantagem é o preço do equipamento e da assinatura, esse é um contra bastante importante", afirma.

Ele também aponta que a empresa de Elon Musk deverá ter dificuldades para conseguir clientes em cidades muito populosas.

"Ninguém quer trocar a fibra óptica pela Starlink no momento. Pode ser que daqui a 5 ou 6 anos isso venha a acontecer, mas no momento não compensa", avalia.

Para Zuffo, os preços podem cair no futuro. "Esses custos tendem a diminuir, mas hoje é um pouco inacessível para o cidadão comum. Mas, se você está em uma fazenda e não tem acesso à internet, pode valer a pena", afirma.

Concorrentes da Starlink

Segundo o presidente-executivo da Amazon, Andy Jassy, que assumiu o antigo cargo de Bezos em julho de 2021, o Project Kuiper é a grande aposta da empresa. O objetivo é levar banda larga para comunidades ao redor do mundo que tenham pouca ou nenhuma oferta de internet.

Os dois primeiros satélites da companhia, batizados de KuiperSat-1 e KuiperSat-2, serão lançados no quarto trimestre de 2022. "Eles nos permitem testar a tecnologia de comunicações e rede que será usada em nosso projeto final de satélite", disse a companhia em novembro de 2021.

Apesar de Bezos ser dono da empresa de foguetes Blue Origin, o lançamento dos primeiros satélites será feito com o foguete RS1, criado pela ABL Space Systems. Segundo a Amazon, os equipamentos de internet serão retirados de órbita após a missão para não criarem lixo espacial.

A disputa pela internet via satélite tem outros "corredores" além de SpaceX e Amazon. Uma delas é a britânica OneWeb, que também quer oferecer banda larga em todo o mundo. A companhia informou em dezembro de 2021 que chegou a 394 satélites em operação de um total de 648 planejados.

Cada satélite da OneWeb fica a aproximadamente 1.200 km de altitude e alcança área de cerca de 1.700 km². Segundo a empresa, seu serviço de internet terá latência entre 50 ms a 100 ms.

Críticas às 'constelações'

Enquanto trabalha para aumentar sua malha de satélites, a SpaceX é criticada por possíveis prejuízos que pode causar para outros setores. Em dezembro de 2021, a China disse que sua estação espacial teve dois incidentes com os equipamentos da empresa, quando foi obrigada a evitar uma colisão.

Em resposta, Elon Musk rejeitou a ideia de que sua companhia atrapalha outras operações no espaço. "O espaço é extremamente enorme e os satélites são muito pequenos", disse Musk em entrevista ao Financial Times.

"Alguns milhares de satélites não são nada. É como dizer, 'ei, aqui estão alguns milhares de carros na Terra'. Não é nada".

Adriano da Silva Leonês, astrônomo e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), afirma que, como os satélites da Starlink não são tão grandes, eles não comprometem totalmente a observação espacial. No entanto, eles podem atrapalhar em algumas situações, como nos momentos após serem lançados.

"O problema maior é no início da noite, quando os observatórios estão na fase de calibração dos instrumentos", afirma.

Segundo ele, esses instrumentos usam estrelas de referência para serem calibrados. "Se, nesse momento de calibração, passa um satélite, você tem uma interferência na calibragem e fica um pouco mais complicado".

Ele afirma que o registro de corpos celestes, como planetas, nebulosas e aglomerados estelares, também pode ser afetado. "Se passam os satélites ou se esses aparelhos estão em operação na mesma hora, também vai haver uma dificuldade na hora de observar", explica.