Teatro alagoano ainda se recupera dos efeitos da pandemia

Artistas se reinventaram no período de distanciamento, mas público ainda não retornou às casas de espetáculos

A pandemia apavorou os diversos setores da economia, principalmente aqueles que dependem totalmente do contato direto com o público. Impedidos de exercer a profissão em decorrência do distanciamento social, necessário para conter o avanço do novo coronavírus, artistas de teatro se encontraram em uma verdadeira rua sem saída. Casas de espetáculos fechadas, shows cancelados, público e artistas tentando se reinventar e sobreviver. Agora, quase dois anos depois, mais um desafio: convencer o público à retornar aos teatros.

O setor teatral alagoano também se adaptou ao mundo virtual e adentrou no universo não tão conhecido das lives. No entanto, essas novidades significaram dificuldades para alguns artistas, que até então nem tinham contato com o digital.

Para Arnaldo Ferjur, ator e contador de histórias, desenvolver trabalhos através das lives foi algo difícil, pois ele não tinha o domínio das plataformas. Para garantir a renda, Arnaldo utilizou da arte da costura e desenvolveu uma linha de máscaras.

De acordo com o ator, a união dos artistas durante a quarentena foi primordial. “Durante a pandemia foi bem complicado, as cestas básicas arrecadadas através de campanhas feitas pelos próprios artistas deram um alívio no peso das responsabilidades de contas a pagar”, contou Arnaldo.

“Os efeitos dessa crise causaram transtornos psiquiátricos em muitos artistas, outros morreram em decorrência do vírus, e muitos têm vivido por meio de doações em dinheiro, poucos cachês recebidos em pequenas apresentações em shoppings, na rua, nos ônibus, etc, e por meio de doações de cestas básicas”, disse o ator Jamerson Soares.

Convivendo com a inconstância e as dúvidas trazidas pelo vírus, retomar hábitos antigos não tem se mostrado fácil, principalmente para o público. Mesmo com o processo de vacinação da população avançando, parte da sociedade ainda não se sente confortável em voltar a frequentar ambientes que tempos atrás geravam aglomeração, como os teatros.

"Apesar de ir algumas vezes ao teatro antes da pandemia, ainda não tive o desejo de voltar depois que passou o confinamento. É complicado, é uma sala fechada e a gente também se habituou a ficar em casa, pelo menos os poucos que realmente seguiram a quarentena", afirma a alagoana Tatiana Vieira, de 27 anos.

O ator Jamerson Soares diz que, aos poucos, "a passos lentos ainda", a sociedade tem voltado a ter uma sensação de segurança. “Eu acho que é por essa sensação de segurança que o público tem se sentido mais vivo e mais com vontade de ver arte”, afirmou o integrante da companhia Teatro da Poesia.

Segundo Marcão Sampaio, no teatro do Centro Cultural Arte Pajuçara, após a reabertura em julho do ano passado, poucas peças foram apresentadas. “Nossa percepção é de que aos poucos os grupos voltam a se organizar para apresentação de seus espetáculos, o retorno do público tem sido gradual, à medida em que avança a vacinação”, explicou ele.

Ainda de acordo com o gestor, alguns artistas e grupos estão se organizando para realização de eventos a partir dos recursos e faz-se necessário retomar a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, como forma de acessarem recursos que mantenham as atividades artísticas em Alagoas e no Brasil.

Lei emergencial

A Lei Aldir Blanc de emergência cultural foi, para muitos artistas, uma luz no final do túnel, sendo ela a responsável por trazer movimentação para a renda do setor cultural, principalmente dos artistas que vivem exclusivamente da cultura.

Entre os editais e o auxílio emergencial destinado aos artistas, os recursos da lei fizeram a cultura alagoana reviver durante a pandemia. Segundo Marcão Sampaio, gestor do Centro Cultural Arte Pajuçara, a Lei Aldir Blanc foi fundamental para a sobrevivência de inúmeros artistas e grupos.

Com a ajuda do recurso disponibilizado pela lei e uma momentânea queda nos casos de covid-19, os artistas conseguiram voltar à cena com espetáculos presenciais, com o número de público reduzido, e online, contando com o suporte de equipes especializadas nas plataformas digitais.