Por que as minhas pernas não mudavam? O caminho até descobrir o lipedema
Uma experiência pessoal sobre informação, autoestima e a busca por profissionais preparados para cuidar de uma condição ainda pouco reconhecida

Desde a adolescência, eu percebia que minhas pernas eram diferentes. Mesmo tendo um corpo magro, havia um acúmulo de gordura desproporcional
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principalmente nessa região. Na época, eu não tinha uma explicação para aquilo. Só sabia que meu corpo não parecia acompanhar o esforço que eu fazia para cuidar dele.
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Aos poucos, comecei a me sentir insegura. Deixei de usar shorts, passei a esconder minhas pernas e a acreditar que talvez estivesse fazendo alguma coisa errada. Treinava, tentava melhorar minha alimentação e buscava maneiras de mudar aquilo que tanto me incomodava. Cheguei, inclusive, a fazer procedimentos estéticos dolorosos, mas não encontrei neles a resposta que procurava.
Foi pela internet que ouvi falar em lipedema pela primeira vez, e a sensação foi de alívio. Pela primeira vez, encontrei uma possibilidade que ajudava a explicar por que minhas pernas pareciam não responder da mesma maneira aos esforços que eu fazia. O alívio não veio porque eu tinha encontrado uma solução imediata, mas porque finalmente percebi que talvez o problema não fosse falta de disciplina.


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O lipedema é uma condição crônica que afeta predominantemente mulheres e é caracterizada por uma distribuição desproporcional do tecido adiposo nas extremidades, podendo estar associada a dor ou desconforto. O diagnóstico é clínico e exige avaliação adequada, inclusive para diferenciar o lipedema de outras condições. Consensos recentes reforçam justamente a importância de uma avaliação individualizada e de uma abordagem multidisciplinar.
Depois de conhecer o tema, comecei a procurar profissionais que realmente entendessem o que eu estava vivendo. E essa busca me mostrou outro problema: ainda existe uma dificuldade importante de acesso a profissionais capacitados e informação de qualidade sobre lipedema. Essa falta de conhecimento pode contribuir para que muitas mulheres passem anos tentando tratar apenas o peso ou a aparência, sem compreender o que está por trás dos sintomas.
Foi nesse momento que tomei uma decisão que mudou o rumo da minha vida: entrar para a graduação em Nutrição. Eu não queria apenas entender o meu próprio corpo. Queria fazer parte da solução. Queria, no futuro, ajudar outras mulheres que passaram pela mesma sensação de frustração, culpa e falta de respostas que eu conheci.
Hoje, ainda sou estudante e tenho muito a aprender. Faço questão de deixar isso claro porque acredito que falar sobre saúde também significa reconhecer os próprios limites. Não sou nutricionista formada e não realizo atendimento profissional. O que faço neste momento é estudar, buscar informação baseada em evidências e compartilhar conhecimento de forma responsável, além de contar a minha experiência.
O interesse pelo assunto também me levou às redes sociais. Comecei a falar sobre lipedema porque percebi que muitas mulheres tinham dúvidas semelhantes às minhas, e principalmente, porque algumas delas também carregavam a culpa de acreditar que não estavam se esforçando o suficiente.
A ciência tem avançado no entendimento do lipedema. O Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em 2025, destaca a complexidade da condição, a importância da abordagem multidisciplinar e o papel do tratamento conservador, incluindo otimização do estilo de vida e da alimentação, compressão e exercício, de acordo com as necessidades individuais.
Um consenso internacional publicado em 2026 também reforça que o manejo deve ser individualizado e que ainda existem áreas que precisam de mais pesquisa. Isso é importante porque falar de lipedema não deveria significar vender uma solução milagrosa. Não existe uma única estratégia que funcione da mesma maneira para todas as pessoas. O cuidado precisa considerar os sintomas, a história de cada paciente e a atuação conjunta de diferentes profissionais quando necessário.
Para mim, a maior mudança aconteceu quando deixei de enxergar minhas pernas apenas como algo que precisava ser corrigido. Passei a enxergá-las como uma parte do meu corpo que precisava ser compreendida e cuidada. Parece uma mudança pequena, mas, para quem passou anos escondendo o próprio corpo, ela pode representar muito.
Ainda existem muitas mulheres que talvez estejam vivendo exatamente o que eu vivi: treinando, tentando melhorar a alimentação, fazendo procedimentos, se culpando e acreditando que o problema é falta de esforço. Algumas podem estar apenas precisando de informação e de uma avaliação adequada. Foi por isso que escolhi estudar Nutrição. Minha história começou com uma Pergunta: “por que minhas pernas não mudam? ” E acabou se transformando em um propósito. Se um dia eu puder ajudar outra mulher a chegar mais cedo às respostas que eu demorei tanto para encontrar, todo esse caminho já terá valido a pena.
Informação não substitui diagnóstico ou acompanhamento profissional. Mas pode ser o primeiro passo para que alguém perceba que sua experiência merece ser investigada. E, para muitas mulheres com lipedema, ser ouvida e compreendida pode ser o começo de uma relação completamente diferente com o próprio corpo.
Por Caroline Benevenuto
Estudante de Nutrição e criadora de conteúdo sobre Lipedema. Graduada em História.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
