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Alagoas, 201 anos: População luta para sobreviver em meio à fome e desemprego

Pesquisa do IBGE mostra que mais de 200 mil alagoanos estão fora do mercado

Há mais de duas décadas, uma pernambucana sonhava com uma vida melhor. Queria deixar a roça e criar os dez filhos numa capital. Não pensava em seguir rumo ao Sudeste do País, como faz - ou fazia - a maioria dos nordestinos. Alimentava o desejo de conseguir um emprego em Alagoas. Saiu de Quipapá (PE) e veio para Maceió. Mãe de dez filhos, hoje vive às margens de um canal que exala mau cheiro, provoca doenças e atiça revolta. Como se enterrasse a esperança de uma vida mais digna.

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Como a Isabel, 60 anos, que abre essa reportagem, muitos dos que vivem hoje em Alagoas sofrem por não vislumbrarem mais um presente e um futuro melhor. Nos 201 anos de emancipação política de Alagoas - com seus 3,3 milhões de habitantes - vamos ainda cambaleando nos índices que avaliam nossa evolução na economia, educação, segurança pública e saúde. Todos seguem sentindo a gravidade de uma desigualdade social que leva para as ruas um exército de famintos.

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Alagoas acolhe mais de 200 mil pessoas fora do mercado de trabalho, que vivem nos 102 municípios, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. E como saúde pública e combate à pobreza têm relação direta, um desses índices de avaliação é o percentual de cobertura da rede coletora de esgoto que, em Alagoas, é de aproximadamente 20%. Isso considerando o universo dos 77 municípios operados pela Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), ou seja, esse dado não leva em conta os outros 25 municípios não operados pela Companhia.

Em Maceió, a cobertura da rede coletora de esgoto atende a cerca de 37% da população. Os dados também são da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal).

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				Alagoas, 201 anos: População luta para sobreviver em meio à fome e desemprego
FOTO: Dárcio Monteiro

Amargamos dados negativos também na educação, a taxa de analfabetismo é de quase 20% entre jovens. E a saúde? Sofremos muito com o desabastecimento das unidades públicas e não temos profissionais suficientes para dar conta da demanda crescente dos mais de 90% da população que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). E, na Segurança Pública, brigamos ali no topo das estatísticas como um dos estados mais violentos da nação.

Mercado de trabalho e coronelismo

Em relação ao mercado de trabalho em Alagoas, a situação é preocupante, na avaliação do economista Emanuel Lucas de Barros. "O estado lidera o ranking nacional como o que mais tem trabalhadores que já desistiram de procurar emprego. A taxa de desemprego em Alagoas está em 17,7%, muito acima da taxa nacional (12,9%), segundo a Pesquisa nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, ou seja, são 204 mil pessoas fora do mercado de trabalho", explica o economista.


				Alagoas, 201 anos: População luta para sobreviver em meio à fome e desemprego
FOTO: José Feitosa

"Alagoas está completando 201 anos de emancipação histórica, mas ainda não se libertou do seu mais grave problema: o coronelismo. Quando analisamos a nossa história, percebemos que as mesmas famílias controlam o nosso Estado. Há anos Alagoas é palco das disputas dos interesses econômicos dos usineiros, essa disputa se reproduz na política em todos os níveis. Além disso, a burguesia local, comparando ao restante do país, consegue ser ainda mais atrasada e tacanha", avalia Magno Francisco, professor de Filosofia Política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Isabel Lopes da Silva vive na Avenida Senador Rui Palmeira, na Levada, em Maceió, naquele trecho que não melhora. Pariu 15 filhos, dez estão vivos. "Só escuto promessa e nada. Tem noite que eu não consigo dormir por causa de tanta muriçoca. Quando resolvi vir para Alagoas pensava que teria uma vida mais tranquila, mas estou tão arrependida. Eu era agricultora em Pernambuco, a rotina era muito dura e adoeci. Vim para cá e aqui não dá para sobreviver. Vendo desinfetante, cloro e lanche, mas não tá dando. Não ter emprego é muito ruim", afirma Isabel.

"A mediocridade intelectual da elite local se expressa na maneira de lidar com o povo, por exemplo, durante toda a nossa história, nunca vimos qualquer movimentação para fortalecer a riqueza cultural de Alagoas, os nossos folguedos e melhores tradições foram sempre abandonados ou utilizados de maneira casuística e pontual. Além disso, a trajetória da burguesia alagoana é marcada pela perseguição e violência, tanto na disputa com outros coronéis. Basta lembrar as mortes ocorridas em Batalha, como no enfrentamento aos adversários políticos e a insatisfação popular", contextualiza Magno Francisco.


				Alagoas, 201 anos: População luta para sobreviver em meio à fome e desemprego
FOTO: GILBERTO FARIAS

Cid Olival, professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), reforça que Alagoas é um estado que tem grandes problemas estruturais que precisam ser enfrentados urgentemente.

"Desde a sua origem, a base produtiva está assentada na monocultura canavieira, impactando em diversos setores econômicos e sociais do estado. Essa estrutura monocultora e latifundiária impede a diversificação produtiva, que seria uma alternativa à geração de renda para a população das áreas rurais. Não havendo isto, há grande parcela da população que, não tendo acesso à terra para produzir, migra para as cidades (principalmente para Maceió) em busca de melhores condições de vida", relata o professor.

Na avaliação dele, na capital, por não terem qualificação formal, também não conseguem se inserir no mercado de trabalho, submetendo-se a subempregos ou atividades informais (quando conseguem), com baixa remuneração, permanecendo, assim, numa situação de pobreza.

"Vale lembrar que o estado tem grande volume de famílias que recebem até um salário-mínimo, renda que tem que garantir alimentação, moradia, transporte e vestuário, pelo menos. Essa população faz uso dos serviços públicos de educação e saúde que, como são alvo constante de redução de gastos ou de desvios de recursos, contribuem para a manutenção da pobreza, já que a formação/qualificação poderia ser um elemento capaz de romper esta condição", afirma Cid Olival.

Abandono nas praças


				Alagoas, 201 anos: População luta para sobreviver em meio à fome e desemprego
FOTO: Dárcio Monteiro

Na Praça Dom Pedro II, mais conhecida como Praça da Assembleia, no centro de Maceió, fica a sede onde se reúnem e despacham os deputados estaduais. Lá, moradores de rua lotearam o logradouro e vivem ao relento. O abandono é olhado de rabo de olho por quem passa e, por vezes, contido com violência. Ana Elisa tem 24 anos, dois filhos. Está grávida de novo, de quatro meses. Não tem para onde ir. Vive com Carlos Tavares, um adolescente de 16 anos, pai da criança que espera que não sabe ainda o sexo ou se está bem. Nunca foi a o médico.

Ana e Carlos se conheceram na rua e vivem nela. Tomam café da manhã e almoçam graças às refeições oferecidas na Casa de Ranquines. À noite, grupos passam pela praça e levam o jantar. Se não fosse a solidariedade de alguns, não teriam como comer. Um dia já trabalharam. Ela, num projeto desenvolvido por uma parlamentar e ele, no Mercado da Produção. Mas agora não têm mais renda.

"É muito ruim não ter o que comer e nem para onde ir, mas o pior é o medo. Teve um dia que um coronel que trabalha na Assembleia bateu no Carlos, fui socorrer e perdi um filho. Abortei. Isso tem menos de um ano", recorda Ana Elisa.

"Aqui (em Alagoas) é sempre exploração e repressão. A imposição do medo permanece sendo um instrumento de controle e reprodução da ordem social. O coronelismo é expressão, portanto, da profunda concentração de renda. Enquanto algumas famílias mantiveram o controle econômico e político, seguiremos vendo o nosso Estado com os piores índices sociais possíveis. Para oferecer vida digna para os trabalhadores da cidade e do campo, mudar a realidade social de Alagoas, para oferecer dignidade e futuro para a nossa juventude que tem sido exterminada pelas mãos do tráfico e da PM, é preciso romper com a concentração de renda e o poder das oligarquias", comenta o professor Magno Francisco.

O Centro concentra grande número de pedintes, sem-teto ou pessoas em "situação de rua", termo adotado pelo poder público e entidades, o politicamente correto para classificar essa massa que vive na miséria, sem ter para onde ir. Uma delas é Patrícia da Silva tem 40 anos. Perambula pelas ruas do bairro de Maceió em busca de comida. Não tem trabalho e é mãe de três filhos - Géssica, Fabrício e Gabriela - que nunca mais viu.

Foi parar na rua após furtar objetos de uma casa onde trabalhava como diarista, na Jatiúca. Reconheceu o erro, mas nunca mais conseguiu outro emprego. Já apanhou na rua de alguém que queria roubar o pouco dinheiro que tinha. "Passo o dia na rua, peço comida e durmo aqui. Não tenho para onde ir", conta.

Alagoas não dispõe de indústrias

O professor de Economia da Ufal, Cid Olival, reforça que - quando pensamos as atividades econômicas tipicamente urbanas, como indústria e serviços - percebemos que Alagoas não dispõe de atividades industriais capazes de absorver a população economicamente ativa.

"As nossas maiores empregadoras são indústrias básicas, como as produtoras de alimentos, como padarias e atividades açucareiras, cujas remunerações também são muito baixas", explica.

De acordo com ele, as indústrias mais complexas quase inexistem. Uma das exceções é a Braskem (indústria química) que, sozinha, é incapaz de gerar um processo de dinamismo econômico.

"Na última década, mas tem diminuído nos dois últimos anos, a construção civil teve um papel importante na geração de emprego e renda para a população estadual, em função da maior oferta de crédito por parte do governo federal. Apesar de ser grande absorvedor de mão de obra, este setor também apresenta baixa remuneração média, o que mantém a situação de pobreza", diz Cid Olival.

Já nos serviços, segundo o professor da Ufal, o estado não dispõe de atividades de alta complexidade, ficando refém de atividades básicas, como salões de beleza, ou muito vinculadas ao comércio (restaurantes, vestuário, móveis, etc.). Isso também contribui para um baixo nível de renda estadual. Segundo ele, para se ter ideia, os serviços que melhor remuneram são aqueles vinculados à administração pública, que requerem maiores qualificações, já que os servidores são submetidos a concurso público.

"Este quadro econômico (concentração fundiária, ausência de atividades industriais dinâmicas e serviços de baixa complexidade/remuneração) não produz condições para modificar a situação de pobreza pela qual se encontra parte da população. Vale lembrar que, principalmente no interior do estado, muitas famílias sobrevivem com a remuneração proveniente da aposentadoria de um dos membros, já que não existem opções de emprego e renda. Temos, assim, um 'círculo vicioso'; que precisaria ser rompido pelo setor público, com políticas de desconcentração produtiva e estímulo à diversificação das atividades agrícolas e formação de associações e cooperativas de produção. Assim, poderíamos pensar em reduzir os indicadores de pobreza, que seriam complementados por políticas públicas na área da educação e saúde", conclui o professor Cid Olival.


				Alagoas, 201 anos: População luta para sobreviver em meio à fome e desemprego
FOTO: Dárcio Monteiro

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