Após prisão, defesa diz que Milton Leite está 'absolutamente tranquilo'
Ex-vereador foi preso nesta sexta-feira (18)

A defesa de Milton Leite (União Brasil) afirmou que o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, preso hoje, está "absolutamente tranquilo" por saber que não tem nenhuma relação com a investigação sobre a suposta atuação do PCC no setor de transporte coletivo da capital paulista.
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O que aconteceu
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Defesa de Milton Leite declarou que a defesa entrou ontem com pedido no TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) para obter acesso integral aos autos do processo. Em entrevista à imprensa na delegacia, o advogado Aloísio Lacerda Medeiros alegou que os autos são "volumosos" e que ainda não teve acesso a nada do caso, por isso, se manifestará oportunamente.
A defesa também apontou que não entrou com pedido de habeas corpus em desfavor do cliente. Ainda acrescentou que o ex-vereador não se apresentou antes porque estava fora do estado de São Paulo. Desde a deflagração da operação, Leite disse que iria se entregar, e se declarou inocente.


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Leite chegou à Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes) de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, acompanhado de Medeiros. A prisão dele é temporária —válida por 30 dias com possibilidade de prorrogação por igual período. O homem presta depoimento e deve fazer exames no IML (Instituto Médico Legal) antes de ser levado à penitenciária.
Na manhã de hoje, a Polícia Civil chegou a procurá-lo em Sorocaba, no interior paulista, mas ele não foi encontrado. No endereço, ligado a um ex-assessor de Leite, os agentes encontraram R$ 280 mil e US$ 89 mil (R$ 458 mil na cotação atual) em espécie. O nome do assessor não foi divulgado.
O ex-presidente da Câmara de Vereadores de São Paulo teve sua prisão temporária decretada pela polícia por uma suposta ligação entre ele e o PCC. Além dele, outras 15 pessoas foram alvos de mandados de prisão pela Polícia Civil ontem na operação Vectura Corrupta.
Para a polícia, há fortes indícios de envolvimento direto do ex-vereador com o esquema de infiltração no transporte público do PCC. Ele seria responsável pelas operações de empresas de ônibus controladas pela facção.
O UOL já havia revelado, em 2024, relações entre Leite e a Transwolff. Uma empresa da família do então vereador alugava um terreno para a concessionária. Advogado e contador ligados ao político também prestaram serviços à companhia durante a licitação do transporte público.
Leite nega ser proprietário da Transwolff e qualquer envolvimento com o PCC. Ele afirmou que sua interlocução com a SPTrans ocorreu a pedido do então prefeito Bruno Covas, durante uma greve em 2019.
O que a investigação aponta sobre Milton Leite
Polícia chegou a Leite a partir de trocas de mensagens entre supostos integrantes do PCC. A investigação achou conversas de WhatsApp dos investigados com uma pessoa apontada como integrante do PCC, de acordo com o delegado Fabrício Intelizano, do Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes).
Em um dos diálogos, um homem apontado como integrante da organização menciona o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Ele diz para outro suposto membro da facção que havia falado para um advogado identificado como Milton Milreu que seria necessário "envolver o Milton Leite para resolver a questão".
Noutro trecho, o homem fala em extrema preocupação em dar ciência à Milton Leite dos fatos envolvendo a UpBus. Milton é apontado pelo MP-SP como o possível articulador político das decisões estratégicas sobre o setor de transporte público de São Paulo — inclusive as empresas investigadas. Para os investigadores, a conversa pode estar relacionada à substituição da UPBus por outra empresa.
A polícia também narrou que declarações de policiais militares corroboram que Leite seria dono da empresa Transwolff, que está no centro da investigação. A empresa em questão seria uma das 12 controladas pelo PCC em São Paulo.
"Com a análise desses dispositivos que foram aprendidos ao longo de 2024, 2025, hoje nós identificamos aí uma possível infiltração, se é que a gente pode dizer assim, do crime organizado em empresas de transporte público. Nós identificamos aí 12 empresas de transporte que teriam movimento direto com o primeiro comando da capital, que seriam controladas direta ou indiretamente por essa organização criminosa", disse o delegado Fabricio Intelizano.
Das cooperativas às empresas de ônibus
A ofensiva atual é resultado de uma investigação que remonta à transformação do transporte alternativo paulistano. Segundo o Ministério Público de São Paulo, a infiltração da facção no setor tem antecedentes no começo dos anos 2000. Em 2002, Antônio José Muller Júnior, o Granada, apontado pelo MP-SP como integrante da cúpula do PCC, teria usado documentos falsos para assumir a direção da Transmetro, cooperativa de transporte sediada em Diadema (SP). A defesa dele nega relação com os crimes atualmente investigados.
As cooperativas formadas por antigos perueiros foram regularizadas por meio de licitações no início dos anos 2000. Anos depois, parte dessas organizações foi transformada em sociedades empresariais. É nesse universo que surgiram algumas das companhias que hoje estão sob investigação.
A dimensão atribuída ao esquema pela investigação mudou de patamar. O MP-SP afirma que 12 das 22 empresas que operam o sistema de transporte coletivo paulistano estariam, em tese, sob controle do PCC por meio de representantes ou laranjas.
As sucessivas operações mostram também uma ampliação do foco das autoridades. Se inicialmente as apurações se concentravam na lavagem de dinheiro por meio das empresas, os investigadores agora tentam identificar quem exercia influência sobre as concessionárias, como contratos e decisões públicas eram afetados e se recursos provenientes desses esquemas chegaram ao financiamento eleitoral.
