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Desafios de comida podem afetar a percepção da quantidade normal no prato

O exagero, a surpresa e, principalmente, a expectativa são componentes que chamam tanto a atenção em desafios de comida


				Desafios de comida podem afetar a percepção da quantidade normal no prato
Facebook/Reprodução.

Ao navegar pela internet, é comum encontrar vídeos de influenciadores realizando desafios de comida. Nessas competições, o desafiante precisa comer grandes quantidades de um determinado alimento ou ingerir versões maiores de comida (como um pudim gigante, por exemplo) – em algumas delas, a pessoa tem um tempo específico para finalizar a refeição.

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Vídeos como esses costumam alcançar milhões de visualizações e abrem espaço para um questionamento: será que existe algum risco no consumo desse conteúdo ou na ingestão de grandes quantidades de alimentos sem necessidade?

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Segundo a psicóloga Flavia Marsola, elementos como exagero, surpresa e expectativa são os principais fatores que despertam o interesse do público nessas dinâmicas.

“Queremos saber até onde aquilo vai, se a pessoa vai conseguir, qual vai ser o desfecho. Isso já é um gatilho forte. Tem um componente social muito importante também. Nas redes, comportamento extremo chama atenção justamente porque é diferente do nosso dia a dia. Quanto mais absurdo parece o desafio, mais gera comentários e compartilhamentos, o que acaba empurrando mais conteúdo parecido para frente”, analisa a especialista do Hospital Brasília Águas Claras.

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Assistir a vídeos de desafios de comida não quer dizer que você irá começar a se alimentar na mesma quantidade. Na verdade, o problema ocorre quando o conteúdo chega a um público mais vulnerável a erros, como crianças, adolescentes ou pessoas com algum tipo de compulsão alimentar.

“Quando vemos repetidamente porções enormes associadas à diversão, competição e sucesso, isso pode ir distorcendo pouco a pouco a nossa percepção do que é uma quantidade normal de comida. O excesso vai parecendo cada vez menos excepcional”, explica a psicóloga.

No entanto, a especialista deixa claro que ver esse tipo de conteúdo não irá causar, por si só, um transtorno ou uma compulsão alimentar. “O comportamento alimentar envolve fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Já a compulsão alimentar tem critérios clínicos bem específicos, incluindo essa sensação de perda de controle. É importante não banalizar comparando com um desafio de internet”, afirma Flavia.

Como é a rotina de um competidor

O brasiliense Ricardo Corbucci, influenciador digital, youtuber e atleta de competições de comida, explica que, antes dos desafios, faz uma preparação que conta com pouca ingestão de calorias e longos períodos de jejum.

“Antes dos desafios faço um jejum de aproximadamente 15 a 18 horas, e normalmente após as disputas ele pode chegar até 24 horas”, diz o influencer em entrevista ao Metrópoles.

Corbucci acrescenta que, durante a semana que antecede a competição, ele segue uma dieta rigorosa e planejada, justamente para preparar o corpo para a grande quantidade de calorias que vai receber.

“Minha alimentação nos dias que antecedem o desafio é composta basicamente de proteína magra, vegetais, azeite, frutas diversas e alguma fonte de carboidrato, tipo arroz ou batata cozida”, relata.

O influencer mantém, paralelamente, uma rotina de musculação seis vezes por semana e cardio duas vezes por dia, e eventualmente faz dias de descanso para a recuperação do corpo.

Além de toda a rotina estruturada, ele também faz acompanhamento com médicos gastroenterologista e cardiologista, bem como exames de sangue e imagem periódicos.

“Todas essas medidas minimizam, porém, não isentam os riscos. Sempre recomendo que ninguém faça esse tipo de atividade, especialmente com frequência, sem acompanhamento médico”, alerta.

Os riscos de realizar desafios sem preparação

Geralmente, os influenciadores que se dedicam a fazer desafios de comida seguem uma rotina regrada antes e depois da atividade, pois ingerir uma grande quantidade de comida em pouco tempo pode causar prejuízos ao organismo, como distensão e desconforto abdominal, sensação de estômago excessivamente cheio, náuseas, refluxo e até vômitos.

“O estômago se expande para receber os alimentos, mas essa capacidade não deve ser interpretada como uma autorização para testar os limites do organismo. A intensidade dos sintomas depende do volume ingerido, da velocidade do consumo e das condições de saúde da pessoa”, alerta a nutricionista Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).

Em competições em que os postulantes precisam lidar com o tempo, o risco é ainda maior, podendo causar refluxo, engasgo, dificuldade para respirar e obstrução das vias aéreas. “Isso é uma situação que pode ameaçar a vida do indivíduo”, ressalta Manuela.

Para pessoas não preparadas para esse tipo de desafio, a recomendação é respeitar as necessidades individuais, reconhecer os sinais de fome e saciedade, além de comer com atenção. A nutricionista revela uma preocupação com a exposição desse tipo de conteúdo.

“Preocupa a possibilidade de esses vídeos tornarem comportamentos de risco mais aceitáveis ou atraentes para reprodução, sobretudo quando envolvem publicidade e personalidades admiradas pelo público jovem”, diz a presidente do CFN.

Acompanhe a matéria em Metrópoles.com

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