Todo mundo tem TDAH agora? O que está por trás do aumento dos diagnósticos
Se identificar com sintomas de TDAH não significa necessariamente ter TDAH

“Hoje em dia todo mundo tem TDAH.”
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Essa é uma frase que tenho ouvido com bastante frequência. Basta abrir as redes sociais para encontrar vídeos falando sobre dificuldade de concentração, procrastinação, esquecimento, impulsividade, desorganização e uma série de outros comportamentos associados ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.
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Por um lado, existe algo muito positivo nisso. Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde mental e neurodivergência. Pessoas que passaram boa parte da vida acreditando que eram simplesmente desorganizadas, preguiçosas ou incapazes começaram a perceber que algumas de suas dificuldades poderiam ter outra explicação.
Principalmente entre os adultos, muitos diagnósticos que hoje parecem “novos” são, na verdade, diagnósticos tardios.


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Durante muitos anos, o TDAH foi associado principalmente à imagem da criança inquieta, que não para sentada e apresenta problemas na escola. Com isso, pessoas com manifestações menos evidentes do transtorno, especialmente aquelas em que predominavam dificuldades de atenção e organização, podiam passar despercebidas.
Mas existe um outro lado dessa história que também merece atenção.
Se identificar com sintomas de TDAH não significa necessariamente ter TDAH.
Quem nunca procrastinou uma tarefa importante? Quem nunca esqueceu onde colocou alguma coisa, perdeu a concentração durante uma conversa ou teve dificuldade para começar algo que precisava fazer?
Essas experiências fazem parte da vida de praticamente todas as pessoas.
A diferença está na frequência, na intensidade, na história desses sintomas e, principalmente, no prejuízo que eles provocam.
Além disso, dificuldades de atenção, memória, organização e produtividade não são exclusivas do TDAH. Ansiedade, depressão, estresse, privação de sono, sobrecarga emocional e outras condições também podem produzir sintomas muito semelhantes.
É justamente aí que mora um dos riscos do conteúdo rápido das redes sociais.
Um vídeo de poucos segundos pode ajudar alguém a perceber que existe uma dificuldade e procurar ajuda. Isso é extremamente válido. O problema começa quando ele passa a funcionar como diagnóstico.
Na prática clínica, uma pergunta importante não é apenas “você apresenta esse sintoma?”, mas também: desde quando isso acontece? Em quais situações? Com que frequência? Quanto isso interfere na sua vida? Existiam sinais semelhantes na infância? Há outras condições que poderiam explicar essas dificuldades?
O diagnóstico de TDAH não deve ser feito a partir de uma lista de características com as quais a pessoa se identificou.
Ele exige uma avaliação cuidadosa da história clínica e do funcionamento do indivíduo. A avaliação neuropsicológica pode contribuir para compreender aspectos como atenção, memória, funções executivas e outros processos cognitivos, além de auxiliar no diagnóstico diferencial.
Portanto, talvez a pergunta não seja simplesmente “por que agora todo mundo tem TDAH?”
Uma pergunta mais interessante seria:
Por que estamos falando tanto sobre TDAH agora?
Parte da resposta está no maior acesso à informação, na evolução do conhecimento sobre o transtorno e no reconhecimento de pessoas que anteriormente poderiam passar anos sem compreender suas dificuldades.
Ao mesmo tempo, quanto mais um diagnóstico ganha espaço nas redes sociais, maior precisa ser o cuidado para que informação não seja confundida com autodiagnóstico.
Falar sobre TDAH é importante.
Reconhecer sintomas também.
Mas compreender uma pessoa é muito mais complexo do que reconhecer comportamentos em um vídeo de alguns segundos.
Sintoma não é diagnóstico. É um ponto de partida para investigar o que está acontecendo.
Gabriela Marini
Psicóloga especialista em Neuropsicologia
CRP 06/79576
@psicogabrielamarini
12 99742-7149
www.psicogabrielamarini.com.br
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
