Policia Federal chama Ronnie Mota de “principal artífice” interno das aplicações do Iprev
Representação atribui ao ex-presidente poder de veto e assinatura das operações com o Banco Master

A Polícia Federal atribui ao ex-presidente do Iprev Maceió Ronnie Reyner Teixeira Mota, conhecido como Ronnie Mota, papel central nas aplicações de R$ 97 milhões dos recursos previdenciários no Banco Master. Na representação encaminhada à Justiça, a PF o chama de “principal artífice da operação no âmbito interno” e pede buscas e bloqueio de bens contra ele.
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As informações vieram à tona neste sábado (12), depois que o candidato ao Governo de Alagoas Renan Filho (MDB) divulgou nas redes sociais trechos da documentação. O material tornou-se público após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo da investigação.
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Parte das medidas cautelares solicitadas pelos investigadores foi autorizada por André Mendonça. A operação foi realizada em 10 de agosto, quando agentes da PF estiveram na sede do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió.
O alcance completo das medidas autorizadas não foi detalhado oficialmente. Por isso, não é possível afirmar, com base nos documentos disponíveis, que todos os pedidos formulados contra Ronnie tenham sido concedidos ou executados.


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Poder de veto e assinatura
Ronnie comandava o Iprev quando foram realizadas as duas aplicações investigadas, durante a gestão de JHC (PSDB) na Prefeitura de Maceió. O primeiro aporte, de R$ 80 milhões, ocorreu em 6 de dezembro de 2023. A segunda operação, de R$ 17 milhões, foi efetivada em 13 de maio de 2024.
Segundo a representação, Ronnie assinou as Autorizações de Aplicação e Resgate (APRs) que formalizaram o envio dos recursos ao Banco Master. Para a PF, o então presidente era a autoridade máxima do instituto, tinha poder de veto e detinha o dever fiduciário final sobre as decisões de investimento.
“Como autoridade máxima do instituto e signatário direto das Autorizações de Aplicação e Resgate, Ronnie Mota figura como o principal artífice da operação no âmbito interno”, afirma a PF.
Os investigadores sustentam que a assinatura de Ronnie teria avalizado o descumprimento da Política Anual de Investimentos do Iprev e a contratação de taxas consideradas desvantajosas. Essas afirmações representam a tese da Polícia Federal e ainda não constituem uma conclusão judicial.
Credenciamento do Banco Master
A PF também questiona o termo de credenciamento do Banco Master assinado por Ronnie. Conforme a representação, o documento teria conteúdo idêntico ao de credenciamentos realizados por outros institutos municipais de previdência.
Para os investigadores, a padronização seria um indício de que o Iprev transferiu indevidamente à consultoria Crédito & Mercado uma atribuição que deveria ser exercida diretamente pelo instituto.
A representação sustenta que não houve uma análise técnica independente e específica sobre a solidez, a reputação e os riscos do Banco Master. A PF também afirma que Ronnie e integrantes de sua equipe teriam ignorado informações públicas e alertas sobre a situação da instituição financeira.
Segundo os investigadores, relatórios disponíveis à época mencionavam a complexidade operacional do banco, a volatilidade dos resultados e a presença de investimentos com baixa liquidez e pouca transparência.
Movimentações financeiras
A representação cita ainda um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). De acordo com a descrição feita pela PF, o relatório aponta movimentações consideradas atípicas e incompatíveis com a renda declarada de R$ 16.759 por Ronnie.
Entre as operações relacionadas aparecem depósitos em espécie de R$ 300 mil, em maio de 2023, e de R$ 170.165. Também são mencionadas movimentações fracionadas de R$ 169.180, R$ 95 mil e R$ 83.500 em intervalos considerados curtos.
A PF cita ainda a aquisição de um veículo por R$ 391.670, com R$ 160 mil supostamente pagos em dinheiro, e a compra de um apartamento por R$ 422.525, quitado integralmente à vista.
O relatório original do Coaf não aparece entre os documentos disponibilizados. Os valores e as movimentações constam na descrição apresentada pela Polícia Federal e permanecem sujeitos à investigação, ao contraditório e à apresentação de justificativas sobre a origem dos recursos.
O que a PF buscava
Ao pedir buscas contra Ronnie, a Polícia Federal afirmou que pretendia localizar possíveis comunicações dele com representantes do Banco Master, consultores, intermediários ou lobistas.
Os investigadores também buscavam documentos, agendas e arquivos que pudessem indicar reuniões ou negociações relacionadas ao aporte dos R$ 97 milhões. Outra finalidade apontada era verificar eventual evolução patrimonial incompatível ou recebimento de vantagens indevidas no período das aplicações.
A própria PF apresenta essas possibilidades como hipóteses investigativas. Os documentos não comprovam que Ronnie recebeu vantagens indevidas nem que tenha mantido algum acerto com representantes do banco.
A representação menciona ainda a busca por eventuais conversas entre Ronnie, integrantes da Crédito & Mercado e representantes do Banco Master. O objetivo declarado era verificar se existiu algum ajuste anterior destinado a contornar a política de investimentos do Iprev.
Bloqueio de bens
A Polícia Federal pediu o sequestro de bens móveis, imóveis e ativos financeiros de Ronnie e de outros cinco investigados. Segundo a representação, a medida teria como finalidade preservar patrimônio para uma eventual recomposição dos recursos do fundo previdenciário e da Fazenda Municipal.
Ronnie não aparece entre as sete pessoas para as quais a PF solicitou afastamento cautelar de função pública. O documento o apresenta como ex-diretor-presidente do Iprev.
Ao fundamentar o conjunto dos pedidos, a PF menciona suspeitas relacionadas a gestão fraudulenta, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Isso não significa, entretanto, que Ronnie tenha sido denunciado ou condenado por esses crimes.
Situação dos investimentos
As aplicações foram feitas em letras financeiras do Banco Master, títulos sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição financeira.
Com a liquidação, o Iprev passou a buscar a recuperação dos R$ 97 milhões como credor do banco. A Polícia Federal sustenta que os recursos estão submetidos a elevado risco de perda.
O Iprev nega irregularidades e afirma que os investimentos seguiram as normas e a política vigente. O instituto também sustenta que o valor não representa um prejuízo consolidado, mas um crédito habilitado no processo de liquidação do Banco Master.
