Por que Nossa Senhora Aparecida é padroeira do Brasil?
A devoção à santa começou no século XVIII e foi reconhecida pelo Vaticano e pelo Estado brasileiro na Era Vargas

No centro do debate político, a devoção à Nossa Senhora Aparecida tem mais de 300 anos no Brasil. A primeira imagem da santa foi encontrada por três pescadores em 1717 no Rio Paraíba do Sul e chamou a atenção de fiéis, da família real brasileira e, posteriormente, de políticos durante a República.
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Mas afinal, como uma devoção que começou no interior de São Paulo chegou ao título de padroeira do país com reconhecimento da Igreja e do Estado?
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Pesca milagrosa
Segundo o relato da Igreja, em meados de outubro de 1717, os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia encontraram a imagem de Nossa Senhora da Conceição durante uma pescaria. A pesca antes ruim tornou-se abundante após o achado, o que rendeu à imagem o título de “Aparecida”.


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Com o passar dos anos, outros milagres foram atribuídos à santa, o que promoveu um movimento de peregrinação na região do Vale do Paraíba.
“Deve-se aventar que, por ser uma região de passagem entre Minas e São Paulo e por ter tropeiros que passam pela região, relatos se multiplicaram pela região do sul mineiro e do Centro-Oeste e criaram, de algum modo, uma narrativa que potencializava a devoção à Virgem”, explica o padre Reuberson Rodrigues Ferreira, teólogo e professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).
A “Coroa” e a coroa
O primeiro reconhecimento de padroeiro do Brasil aconteceu a pedido do imperador Dom Pedro I, em 1826. São Pedro de Alcântara, um santo espanhol, foi alçado ao título após reconhecimento da Igreja. O santo e o imperador eram homônimos em um Estado que tinha o catolicismo como religião oficial.
Anos depois, a neta de Dom Pedro introduz a devoção à Aparecida na família real. Em 1868, a princesa Isabel, explica o padre Reuberson, fez uma visita à imagem e prometeu que daria à santa uma coroa similar à que ela receberia, caso se tornasse rainha, se conseguisse ser mãe.
Após a maternidade em 1888, Isabel deu a coroa que é vista na imagem até hoje. O teólogo avalia que houve uma relação entre a devoção à santa e a abolição da escravatura, assinada pela princesa Isabel. Isabel, porém, nunca se tornou rainha, pois a monarquia foi derrubada.
Vargas e a Virgem
Já no século XX e durante a República, o Estado brasileiro aderiu a um movimento da Igreja Católica.
Liderado pelo cardeal e arcebispo do Rio de Janeiro (então capital federal), Dom Sebastião Leme, em 1930, um grupo de sacerdotes pediu ao Papa Pio XI que Nossa Senhora Aparecida fosse elevada a padroeira do Brasil.
No ano seguinte, o pedido foi oficializado e, durante o ato de consagração da imagem como padroeira, o presidente Getúlio Vargas participou do momento.
O padre Reuberson explica que a opção foi de membros da Igreja. “Não é Vargas, é o Papa. É um ato religioso que tem participação de políticos”, comenta.
Assim, São Pedro de Alcântara passou a ser uma espécie de co-padroeiro, “embora a devoção hoje esteja restrita a pequenas comunidades”, explica o padre Reuberson.
A fé e o feriado
Em 1980, durante o regime militar, o presidente João Figueiredo instituiu que 12 de outubro seria um feriado nacional dedicado à santa, em anúncio feito durante a visita do Papa João Paulo II ao Brasil.
A devoção brasileira cresceu a ponto de tornar o Santuário de Nossa Senhora Aparecida o maior de devoção à santa do mundo. Atualmente, a capacidade do local é de até 45 mil fiéis.
