Luto pós-eleitoral existe? Psiquiatra explica quando a frustração vira problema de saúde
Especialista alerta que tristeza após a derrota de um candidato é uma reação natural, mas isolamento, sofrimento intenso e prejuízos à rotina exigem atenção.

O encerramento do período eleitoral pode gerar reações emocionais intensas em um grupo de pessoas. Diante da polarização política, o sentimento de perda e frustração gerado pelos resultados das urnas pode desencadear o chamado “luto pós-eleitoral”. Segundo o psiquiatra Dr. Carlos Cais, sócio-fundador e conselheiro sênior da Elibrè, instituto de saúde mental de alto padrão, sentir tristeza após um resultado adverso é uma reação humana natural, mas exige atenção clínica quando compromete a funcionalidade e o bem-estar do indivíduo.
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O especialista ressalta que a análise do fenômeno é estritamente clínica: o diagnóstico psiquiátrico ocorre sem qualquer juízo de valor moral ou partidarismo político.
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A resposta emocional ao pleito varia conforme o grau de identificação do indivíduo com as propostas disputadas. Pessoas desconectadas da política, ou que não se sentiram representadas por nenhuma das candidaturas principais, já processaram suas frustrações previamente. O luto pós-eleitoral recai, sobretudo, sobre quem enxerga em um projeto uma perspectiva de melhora ou uma opção de candidato claramente preferível.
Indivíduos com quadros prévios de transtorno mental, como ansiedade ou depressão, tendem a estar mais suscetíveis, Da mesma forma, quanto mais intenso ou fanático o engajamento, maior costuma ser a intensidade do luto subsequente. Para Carlos Cais, o fanatismo por qualquer causa já é indicativo de fragilidade psíquica e se diferencia de uma engajamento intenso.


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Quando a tristeza deixa de ser saudável
A diferença entre o luto normal e o patológico não é determinada pelo tempo de duração, mas pelo nível de disfuncionalidade e sofrimento psíquico. O quadro passa a requerer intervenção médica e/ou terapêutica quando causa prejuízos acentuados em uma ou mais das três esferas centrais (afetiva, laboral/acadêmica e social).
“O critério clínico fundamental para identificar o luto patológico é a disfuncionalidade e a intensidade do sofrimento. Se a pessoa perde a capacidade de trabalhar, isola-se de entes queridos, entra em conflitos destrutivos por divergências ou perde a esperança no futuro, ultrapassamos a fronteira da tristeza saudável e entramos no campo do sofrimento patológico”, explica o psiquiatra.
As fases do luto
O luto é um processo psíquico legítimo diante de qualquer perda significativa, como um rompimento de expectativa. Historicamente, a psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross mapeou suas etapas (como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação), como relatado no livro “Sobre a Morte e o Morrer”. A psiquiatria contemporânea, porém, entende que as fases do luto não seguem uma ordem cronológica estrita, como descreveu Kübler-Ross: podem se sobrepor, progredir ou regredir conforme o luto de cada pessoa.
“O luto normal faz parte da vida e precisa ser respeitado como um processo normal de assimilação da realidade”, afirma Cais.
Resiliência e quando buscar ajuda
A maturidade psíquica envolve aprender que o ser humano não detém o controle sobre os acontecimentos fundamentais da vida. O conceito de resiliência, emprestado da física, ilustra a capacidade do psiquismo de absorver pressões e/ou frustrações sem se romper. Quando a estrutura psíquica se mostra fragilizada, ou quando os sinais de sofrimento descritos acima persistem, o acompanhamento psiquiátrico e/ou a psicoterapia tornam-se aliados essenciais para a reorganização emocional.
“Construir um psiquismo saudável passa por encarar a nossa impotência diante de fatos que não podemos controlar. A vida exige resiliência para dobrar sem quebrar diante das frustrações da realidade”, conclui o psiquiatra.
