Desigualdade de renda em Alagoas é a maior do Brasil, revela levantamento da FGV

Os dados expostos na mídia nacional têm um recorte a partir de 2015, primeiro ano de gestão do governador Renan Filho (MDB).

A desigualdade de renda em Alagoas, que é a maior do País, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi destaque na imprensa nacional nesta semana. O jornal O Estado de São Paulo contou, em reportagem especial, a história do alagoano de São Miguel dos Campos, Gilson Célio dos Santos, de 38 anos, que com um cartaz em punho diz nas ruas de Maceió: "Qualquer ajuda serve". No cartaz ele pede "um emprego, um pacote de leite ou de fraldas"
A realidade exposta pelo jornal paulista já tinha sido revelada em reportagem da Gazeta de Alagoas na edição do dia 31 de agosto deste ano. Um Levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domcílios (Pnad) Contínua revela que Alagoas tem a maior desigualdade de renda do País entre os trabalhadores de 15 a 59 anos de idade.
De acordo com a pesquisa - coordenada pelo professor Marcelo Neri -, o Índice de Gini de rendimento domiciliar per capita do trabalhador alagoano nessa faixa etária foi de 0,711 no segundo trimestre deste ano - o mais alto do País entre as 27 unidades da federação.
Os dados expostos ontem na mídia nacional, e em agosto na Gazeta, tem um recorte a partir de 2015, primeiro ano de gestão do governador Renan Filho (MDB). De lá pra cá os números da desigualdade só aumentaram. Em 2014, portanto antes da gestão de Calheiros, o índice em Alagoas era de 0,65, numa escala que varia de 0 a 1, e agora em 2019 é de 0,711, o maior e único do País nesse patamar. O posto ocupado atualmente por Alagoas era de Pernambuco em 2015.
Mas, nem sempre foi assim. Antes da gestão de Renan Filho o índice já chegou a cair, inclusive. A Gazeta noticiou, na edição de 6 de outubro de 2013, que o índice de Gini em Alagoas vinha caindo. Ele marcou 0,478 em 2011 e depois caiu para 0,462 em 2012.
Criado pelo matemático italiano Conrado Gini, o índice é um instrumento que mede o grau de concentração de renda em determinado grupo. Segundo o coordenador da pesquisa, significa que Alagoas ainda concentra muita renda entre os 20% mais ricos - o que revela um desequilíbrio entre os 20% mais pobres. De acordo com o levantamento da FGV, o Nordeste segue com os piores números de distribuição de renda entre ricos e pobres. Os sete piores índice de Gini do país estão na região, além de Alagoas, o Piauí (0,692), Paraíba (0,692), Ceará (0,686), Bahia (0,683), Maranhão (0,682), Pernambuco (0,679), Sergipe (0,674) e Rio Grande do Norte (0,670).
De acordo com a pesquisa da FGV, o desemprego foi o principal responsável pela queda do poder de compra das famílias alagoanas. "Desemprego é sinal de desajuste do mercado de trabalho e de frustração", aponta Neri. "A maioria dos ocupados passa a temer cair no desemprego, e por precaução reprime a sua demanda por bens e serviços. A crise fiscal crônica confere credibilidade à ideia de que o Estado não vai poder socorrer aos cidadãos em apuros, reforçando outros comportamentos precaucionais na demanda", explica.
A esperança no sinal fechado
O alagoano Gilson Célio dos Santos, 38 anos, chega à Avenida Doutor Antônio Gomes de Barros - uma das mais movimentadas artérias da capital alagoana - às seis horas da manhã e espera o semáforo ficar vermelho. Ao londo dos sessenta segundos em que o sinal de trânsito proíbe os carros de seguirem, ele abre um cartaz - feito de improviso num papelão - onde revela sua situação. "Estou desempregado, tenho três filhos. Um emprego, leite, fralda, alimento ou qualquer ajuda serve. Deus te guarde".
A maioria dos motoristas tem pressa e poucos sequer notam a sua presença no meio da avenida. O sinal fica verde, mas ele não perde a esperança. Repete o gesto por centena de vezes ao longo do dia, sempre no sinal fechado. Natural de São Miguel dos Campos - município a 60 km da capital alagoana - Gilson Célio viu sua situação financeira mudar depois que o pai, um agricultor familiar do interior alagoano morreu, no início de década. Ajudante do pai, ele continuou trabalhando na lavoura, mas o débito do arrendamento deixado pelo pai fez os proprietários tomarem as terras. 

Gilson Célio dos Santos tem 38 anos e está desempregado  - Foto: FOTO: Carlos Nealdo

Sem emprego, Gilson investiu R$ 1,3 mil - todo o dinheiro que tinha na época - na compra de uma bicicleta e materiais para vender lanches. Com a crise de 2015, ele viu o negócio minguar até que já não teve mais dinheiro para investir. Teve que vender a bicicleta para ter o que comer. "O desemprego na minha cidade é grande, ninguém tinha dinheiro, ninguém comprava", lamenta.
Pai de três meninas com idade que varia entre dois e sete anos, Gilson foi aconselhado por um amigo a tentar a sorte em Maceió. Há seis meses, ele sai duas vezes por semana de sua cidade para pedir ajudar nas ruas da capital. "Não tenho condições de vir todos os dias, porque falta dinheiro", explica. 
Durante os dias em que fica na cidade, dorme sob a marquise de uma farmácia e faz sua higiene pessoal num posto de combustível, ambos localizados próximos ao semáforo onde pede ajuda. Para se alimentar, conta com a ajuda de um restaurante que lhe fornece uma refeição por dia. É com ela que ele tenta encontrar energia para pedir até as 22h, quando finalmente volta para a farmácia para descansar e recomeçar todo novamente no outro dia. 
Com o segundo ano do ensino médio, Gilson Célio já tentou emprego em várias áreas. Diz que entende de eletricidade, já trabalhou como chapeiro de lanchonete e não se nega a desempenhar nenhuma função.  Atualmente, sua única fonte de renda são os R$ 171 que recebe do Bolsa Família. De vez em quando, a mulher ganha algum rendimento lavando roupa ou fazendo faxina para famílias de São Miguel dos Campos. "Mas não é sempre", lamenta. 
Durante os dias em que permanece em Maceió, mal consegue o dinheiro para a alimentação das filhas - o que mais o preocupa. "Eu e minha mulher se vira [sic] de qualquer jeito. As crianças, não", ressalta. Na segunda-feira 4, Gilson saiu de sua cidade com o pedido da filha mais velha martelando na cabeça. "Ela pediu para eu levá-la no circo que chegou na cidade", conta. "Mas não sei se vou conseguir". 
Ele conta que a filha do meio se alegraria com uma bicicleta, sonho que ele nem pensa em realizar tão cedo. "A mais nova quer um vestido novo", completa. Por ora, diz ele, ele só pensa em levar comida para casa. Sonho? "Não tenho muito sonho, não. Minha realidade hoje é apenas sustentar minha família. Se isso acontecer, já está bom", diz, enquanto olha para o sinal que acabara de ficar vermelho. "A esperança é a última que morre, não é?", questiona. E segue abrindo o cartaz entre carros de luxo.