'O palco é uma renovação por segundo', diz Simone antes de show em Maceió
Cantor se apresenta em Maceió nesta quinta, 5 de novembro, e fala sobre reinvenção, parcerias e do amor pela música
Na fábula que La Fontaine recolheu de Esopo, a cigarra gasta o verão cantando enquanto a formiga enche a despensa. Quando o frio chega, a cantora bate à porta da vizinha e ouve que, se cantou, agora dance. A moral, repetida há séculos, fica do lado da formiga, que vivia só para juntar, não para viver. Nem iluminar os dias frios.
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Em 1978, Simone pediu uma canção a Milton Nascimento. Recebeu, com letra de Ronaldo Bastos, uma música inspirada nessa história, que deu título ao disco daquele ano e grudou na intérprete baiana como apelido. Desde então ela é a Cigarra da música brasileira.
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Quase meio século depois, a Cigarra segue sem fazer muito estoque. Aos 76 anos, encerrada a celebração das cinco décadas de carreira, Simone entregou o próprio repertório a uma artista de 28 anos e a um diretor de arte que nunca tinha dirigido um espetáculo. O resultado tem nome de pergunta, Que mulher é essa?!, e chega ao Teatro Gustavo Leite, em Maceió, na quinta-feira, 5 de novembro, às 21h. Ainda há ingressos aqui.
Quem acompanhou a passagem anterior dela pela cidade já tinha sentido os ventos da mudança. A cantora conversou com a Gazeta e, perguntada sobre quem era a mulher que subia ao palco naquele momento, falou só do presente. “Eu vivo minha vida hoje, eu vivo minha vida agora. Eu não vivo nem de lembranças, nem de futuros. Minha vida é este momento. Não guardo nada para viver depois”.


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Sobre parar, foi ainda mais direta. “Quem me para é quem me botou. Parar? Não. A vida é pra frente”, afirma, categórica, a Cigarra.

Este repórter estava com sorte. No meio da entrevista por telefone, Simone parou de responder e começou a cantar. Era “Música, Música”, de Sueli Costa e Abel Silva. A artista cantarolou os primeiros versos, quis saber se o repórter conhecia e, diante do não, insistiu. “Essa música é linda. Ouve essa música hoje. Tem que ouvir”. E então a cantora, dona de uma das vozes mais bonitas da música brasileira de todos os tempos, recitou a letra quase inteira, pesando palavras e nuances.
“Que mulher é essa?!” nasceu dessa mesma ambição que aparece na ligação: para a baiana, é preciso compartilhar a beleza. “É preciso ter essa paixão pela vida. É preciso manter-se em movimento, redescobrir”. A direção musical do show é de Ana Frango Elétrico, cantora e compositora carioca da cena independente. A Cigarra queria um som diferente, se encontrar de outro jeito no palco. “Me tire do conforto, me provoque, me desconcerte. Eu quero isso”, pediu.
O resultado foi um espetáculo novo, que não abre mão dos sucessos que a plateia ama cantar junto, mas que põe a estrela em um caminho distinto, tanto musicalmente, com arranjos desafiadores, quanto esteticamente.
“É um show para cima, ele é feliz. Mas ele também é um show que cutuca. Ele não é um show morno. As estradas têm muitos buracos e, além de terem muitos buracos, têm bifurcações. Então é indagativo, divertido, forte”, resume Simone.
Para chegar à proposta atual, a cantora reuniu sua turma em casa, no Rio. Ela descreve o processo como o de “três chifrudos cabeçudos, três bodes”, com o estilista mineiro Ronaldo Fraga, que assina a direção artística e os figurinos, no papel de “bodão”. Na divisão das forças, a anfitriã se reservou a maior fatia, entre risos: “Vocês têm 30% cada um, eu tenho 40%, avisei logo”. Ana conta o lado dela. “A gente se mete pra caramba, não sei como ela aguenta”.

A convivência com gente da idade dos netos já fazia parte da rotina dela. O pianista Chico Lira, o violonista e guitarrista Filipe Coimbra e o baterista Vitor Cabral estavam na turnê passada, e o baixista Giordano Bruno completa o quarteto atual. Sobre Lira, lembrou do primeiro encontro. “Quando ele veio trabalhar comigo, que chegou aqui em casa para a gente conversar um pouco, eu pensei: caramba, ele tem idade para ser meu neto. Aí tem o Filipe Coimbra, também para ser meu neto. Mas eu achei tudo muito bom”, afirma.
A relação, ela garante, rende para os dois lados. “A vivência que eles trazem, o frescor que eles trazem para mim. [...] O respeito sempre está permeando as nossas relações. Eles querendo me mostrar uma coisa e eu mostrando para eles outras coisas, a gente chega num denominador comum. São meninos super, hiper capazes. Eu tô muito feliz com eles, muito. Sempre que você convive com gente mais nova, que tenha estofo, isso te traz muita coisa boa. A visão do mundo, a música, tudo isso essa criançada me traz”.
Com piano, baixo, bateria, violão e guitarra, Ana Frango Elétrico apoiou os arranjos em groove, jazz e samba. “A limitação foi se tornando a identidade do show”, disse.
No palco, Simone veste-se do risco que pediu para este novo trabalho. Trocou o tradicional blazer de alfaiataria por peças ainda mais únicas. Fraga partiu dos cabelos brancos da cantora para desenhar a roupa principal. Para ele, o país “transformou os cabelos prateados dos homens em sinônimo de charme e sabedoria”. “A mulher é sacrificada nesse sentido”. O vestido foi feito à mão, em crochê de linha de pesca e fio de seda, com a designer têxtil Ana Vaz, num degradê do tom mais escuro ao mais claro que acompanha os fios da cabeça. “Queria desenhar uma cigarra que faz 77 anos e tem o mesmo vigor de quando começou”, afirma o designer. “A própria história dela me inspirou. Ela sempre foi moderna, sempre foi um farol. Quando nem se falava em misoginia e homofobia, já levantava bandeiras contra esses preconceitos”, completa.
A cigarra de 1978 está no figurino, numa capa com asas bordadas em tule por Stella Guimarães, e reaparece numa camisa que a cantora veste em um dos números da noite. O título do show também é de Fraga, que conta ter assistido a Simone com a mesma pergunta na cabeça. “O tempo inteiro eu me perguntava: que mulher é essa?”.
A pergunta guiou o resto do projeto visual, que tem como referência os cartazes de lambe-lambe colados nos muros e os retratos falados, rostos montados a partir da descrição de quem viu alguém e não soube explicar.
Simone faz o próprio retrato falado, em primeira pessoa. “Eu acho que todo mundo tem os seus pontos de vista, as suas vontades e os seus desejos. Eu falo pelos meus. Eu não escondo absolutamente nada de ninguém. Eu canto o que eu gosto, o que me move, o que eu já vivi ou o que eu gostaria de viver. A vontade que eu tenho como cidadã é ver um país melhor. E a vontade que eu explicito no palco é a de ser uma pessoa enamorada, apaixonada e feliz”.
O roteiro de 22 canções abre com “Se você pensa”, rock de 1968 de Roberto e Erasmo Carlos, e segue com “Petúnia resedá”, de Gonzaguinha, e “Velha roupa colorida”, de Belchior, sugestão de Fraga, que também levou o carimbó “Quando eu te conheci”, da paraense Dona Onete. “Eu quero falar de mulher!”, disse Simone antes da estreia no Rio, num percurso que ela definiu como uma viagem pelo mundo feminino “com libido, libidinagem e deboche”.
Em “Baby”, de Caetano Veloso, Simone canta só com voz e violão. A sequência leva a “Mulher homem bicho”, que Ana Frango Elétrico compôs com Ava Rocha, e a escolha foi da veterana, sem sugestão da diretora musical. O crítico Mauro Ferreira saiu da estreia no Rio dando cinco estrelas ao espetáculo e chamando-o de o melhor show solo da cantora neste século.
Outra canção no repertório de “Que mulher é essa?!” é “Iolanda”, que Simone diz acreditar que teve um reconhecimento tardio por parte do público. “Quando eu gravei Iolanda pela primeira vez, com o Chico, a música passou batida. Eu achei que não tinha tido a repercussão que ela merecia. Eu gravei com o Chico, gravei sozinha, gravei com o Pablo. Acho que gravei umas cinco ou seis vezes essa música. Hoje ela não pode faltar no show”.
Sueli Costa, morta em 2023, aparece duas vezes no roteiro, com “Face a face”, parceria com Cacaso, e “Jura secreta”, escrita com Abel Silva, que também assina a letra de “Música, Música”. O alcance que “Jura secreta” ganhou, desde os anos 1970, ainda surpreende a cantora. “Música você não pode chegar e dizer: ‘Ah, essa música vai estourar’. Você não sabe. Uma das primeiras músicas que aconteceram na minha vida foi Jura secreta. Quem é que ia imaginar que Jura secreta, uma música tocada meio que ad libitum, eu e o Gilson Peranzzetta, teria essa dimensão de popularidade, de ser uma música que, quando começo a cantar, as pessoas cantam junto?”.
O show inclui ainda um texto em homenagem às mulheres que Simone diz carregar no corpo e na cabeça: Maria da Penha, Rita Lee, Gal Costa, Elis Regina, Elza Soares, Marielle Franco e dona Letícia, a mãe da cantora. Rita volta adiante num medley de “Cor de rosa choque” e “Bem me quer”.
O que leva ao palco é o que a artista diz acreditar. Ao falar das músicas, lembra que a fórmula do show é a mesma que pode construir uma nação. “Um país se constrói no encontro entre o velho e o novo”. Foi isso também que a levou às ruas durante as eleições.
“O Brasil é um país continental, ele é enorme, é um país que tem tudo que o cidadão precisa. O povo tem que ser amado. As crianças têm que ser respeitadas. O velho e o novo são as portas para a vida e para o céu. Vamos cuidar das pessoas que necessitam, porque enquanto o país não cuidar das pessoas que necessitam, não caminha. É um país que precisa de humanidade, de democracia, de liberdade. É por esse país que eu saio na rua.”
O roteiro termina com “Maria Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, o mesmo Milton que lhe deu a alcunha de Cigarra em 1978, e com dois sambas-enredo, “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós”, da Imperatriz Leopoldinense, e “O amanhã”, da União da Ilha do Governador.
A pergunta que antecedeu a canção ao telefone indagava o que ela ainda desejava viver no palco. Simone respondeu em nome da categoria inteira. “Eu garanto para você que uma pessoa que lida com música não quer parar. Compositor quer compor, músico quer tocar, cantor quer cantar. O palco é uma renovação por segundo. É o ar que se respira, literalmente. Música. Música é a resposta”.
SERVIÇO
- O QUÊ: SIMONE – QUE MULHER É ESSA?!
- Quando: Quinta-feira, 5 de novembro, às 21h (abertura da casa às 20h)
- Onde: Teatro Gustavo Leite, Centro de Convenções (Jaraguá)
- Ingressos: De R$ 25 a R$ 250
- Vendas: Viva Alagoas (Maceió Shopping), Barão 486 (Passeio Stella Maris, Jatiúca) e ingressodigital.com
- Classificação: Livre
