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Em Maceió, João Bosco fala de amizade e celebra 80 anos com show especial

Gênio da música brasileira se apresenta neste sábado (12) na capital, no Teatro Gustavo Leite, às 21h


				Em Maceió, João Bosco fala de amizade e celebra 80 anos com show especial
Ingressos para o show no Teatro Gustavo Leite variam de R$ 100 a R$ 280, com meia-entrada e ingresso solidário disponíveis. DIVULGAÇÃO

Aos 12 anos, em Ponte Nova, interior de Minas Gerais, uma das irmãs deu a João Bosco um violão verde. Os sons de bandolins, violinos e piano já ressoavam rotineiramente na casa da família, mas nas mãos de outros. Aquele instrumento foi o primeiro que ele chamou, carinhosamente, de seu. O dia seguinte foi uma perseguição, conta o gênio da música, desenhava as notas no violão, encantava-se com sons até então desconhecidos, concebia uma beleza que ele sequer podia imaginar existir. Décadas depois, aos 80 anos, ele admite as limitações da idade, mas garante que a curiosidade sobre esse sagrado instrumento é a mesma de quando era menino. “Pego o violão e tento descobrir alguma coisa que eu ainda não sei”, afirma.

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João Bosco se apresenta em Maceió neste sábado (12), no Teatro Gustavo Leite, às 21h. No repertório, canções como “O Bêbado e a Equilibrista”, “Papel Machê” e “Corsário”. Elas são produto dessa busca por sons, narrada por ele ao revisitar a memória da infância, e ajudaram a moldar o que reconhecemos hoje como MPB.

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Essa atenção ao acorde também tem uma origem que poucos ouvintes suspeitam. João Bosco formou-se engenheiro civil em 1972, em Ouro Preto, no mesmo ano em que gravou profissionalmente pela primeira vez, no projeto Disco de Bolso, do jornal O Pasquim.

A harmonia que sustenta seu repertório veio do ouvido, de quando ele escutava o que os outros tocavam e tentava reproduzir por conta própria, sem cursar teoria musical de forma sistemática. A formação como engenheiro, apesar de aleatória no contexto artístico, pode ter ajudado no método. Afinal, a genialidade de João Bosco está principalmente nas levadas sincopadas e harmonias complexas que ampliaram as possibilidades do violão de sete cordas, um vocabulário técnico, mas construído sem partitura.

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				Em Maceió, João Bosco fala de amizade e celebra 80 anos com show especial
Aos 80 anos, João Bosco diz não pensar mais em contar o tempo, e sim em estar dentro dele. DIVULGAÇÃO

Da engenharia ele saiu direto para o Rio de Janeiro, ainda jovem, e para uma parceria que redefiniria a canção brasileira antes de ele conhecer o parceiro pessoalmente. João Bosco e Aldir Blanc compuseram as primeiras canções por correspondência, trocando letras pelo correio durante muito tempo antes de se encontrarem.

Essa dinâmica quase que se repete no disco novo que celebra seus 80 anos de vida. Os parceiros mais jovens do trabalho atual chegaram até ele após a filha e produtora Júlia Bosco rastrear pela internet artistas com alguma afinidade real com a obra do pai. À distância, parcerias inéditas foram consolidadas.

“Amigos Novos e Antigos” tem 17 faixas divididas em duas partes. A primeira, com seis músicas, saiu em 31 de julho; a segunda chega em 25 de setembro. O título recupera uma canção antiga, composta com Aldir “no final da década de 1970”. O parceiro morreu em 2020, porém ainda ocupa lugar nessa conversa. “O Aldir está sempre comigo. Em cada palavra, cada gesto, cada canção. [...] Ouço a voz dele me dizendo amizade é quase amor”. No disco, Zeca Pagodinho reencontra “Siri Recheado e o Cacete”; Mart’nália divide “Kid Cavaquinho”; César Camargo Mariano toca piano em “Casa de Marimbondo”; Hamilton de Holanda, bandolim em “Nação”; e Tiago Iorc assina “Perfeição” com letra de Francisco Bosco.

João Bosco tem uma obra grande o bastante para render números que poucos compositores brasileiros acumulam. Segundo o Ecad, são 365 músicas e 749 gravações registradas desde os anos 1970. “O Bêbado e a Equilibrista”, parceria com Aldir eternizada por Elis Regina, já foi regravada 116 vezes, mais do que qualquer outra canção sua; a própria Elis gravou 66 músicas da dupla Bosco e Blanc.


				Em Maceió, João Bosco fala de amizade e celebra 80 anos com show especial
Aos 80 anos, cantor e compositor fala de novo projeto e da sua visão sobre o tempo e a música. DIVULGAÇÃO

Nessas idas e vindas do tempo, entre esses números extravagantes e os que indicam a passagem do tempo, encontramos o artista brasileiro para uma conversa sobre a estrada musical que ele desbrava desde que ganhou aquele violão verde que, convenhamos, mudaria tudo.

GAZETA DE ALAGOAS. “Amigos Novos e Antigos” é o nome de uma canção sua com Aldir Blanc, de quase 50 anos atrás. Por que voltar a esse título agora, pro disco de 80 anos?

JOÃO BOSCO. Porque esse título acabou traduzindo exatamente o espírito do disco. “Amigos Novos e Antigos” é uma canção que fiz com o Aldir há muitos anos, mas essa ideia da amizade atravessou a minha vida inteira e também a minha música. Aos 80 anos, percebo com muita clareza que uma trajetória não é construída sozinha. Ela é feita de encontros, de parceiros, de músicos, de intérpretes, de pessoas que chegaram lá atrás e permaneceram e de outras que chegaram agora trazendo novas possibilidades. Então recuperar esse título foi também recuperar uma ideia muito bonita do Aldir: a de que o tempo não separa necessariamente as pessoas. Às vezes ele aproxima.

Como foi escolher quem canta com o senhor nesse disco?

Foi uma escolha muito afetiva. Eu não queria fazer um disco comemorativo no sentido convencional, reunindo pessoas apenas pela importância de seus nomes. Queria que cada encontro tivesse uma razão musical e, principalmente, uma verdade. Há amigos de muitos anos e há artistas de gerações mais novas com quem eu tinha vontade de dividir uma canção. E isso foi muito bonito porque, quando você canta com outra pessoa, a música deixa de ser exatamente aquela que você conhecia. Ela ganha uma nova escuta, outra respiração. Foi isso que procurei nesse disco: encontros capazes de renovar as canções.

O senhor compôs durante a ditadura, a redemocratização, e agora em outro tipo de país. Que Brasil o senhor vê hoje, comparado ao que via quando começou?

O Brasil mudou muito e, ao mesmo tempo, conserva questões que nos acompanham há tempo demais. Quando comecei, vivíamos uma ditadura, e havia uma violência muito explícita contra a liberdade, contra o pensamento, contra a própria possibilidade de expressão. Hoje vivemos uma democracia, e isso é uma diferença fundamental, que precisa ser valorizada e protegida. Mas continuamos sendo um país de desigualdades profundas, de intolerâncias e de muitas promessas ainda não cumpridas. Por outro lado, eu continuo vendo um Brasil de uma potência cultural extraordinária. Temos essa contradição permanente entre um país capaz de produzir tanta beleza e, ao mesmo tempo, tanta injustiça. A canção brasileira nasceu e continua existindo dentro dessa contradição.

Como tem sido cair na estrada, ensaiar, subir no palco aos 80? Muda algo?

Muda o corpo, naturalmente. Seria bobagem dizer que aos 80 anos tudo acontece como acontecia aos 30. Mas existe uma coisa curiosa: quando começa o concerto, a música estabelece outro tempo. Eu não fico pensando na idade enquanto estou tocando. Estou preocupado com aquela nota, com aquele acorde, com o músico ao meu lado, com a relação com o público. Talvez eu tenha hoje mais consciência dos meus limites, mas também tenho uma liberdade que não tinha quando era jovem. Depois de tantos anos, você aprende que não precisa provar muita coisa. Precisa estar inteiro naquele momento.

Já pensou em parar? O que sobrou desse pensamento?

Acho que todo mundo que passa tantos anos fazendo a mesma coisa em algum momento se pergunta até quando deseja continuar. Mas eu nunca consegui imaginar muito bem o que significaria “parar”. Parar de viajar é uma coisa. Parar de fazer tantos shows é outra. Agora, parar de tocar violão, de procurar uma harmonia, de ouvir uma frase musical e querer descobrir para onde ela vai… isso eu não sei fazer. A música não é exatamente uma profissão da qual eu possa me aposentar. Ela virou uma maneira de estar no mundo.


				Em Maceió, João Bosco fala de amizade e celebra 80 anos com show especial
DIVULGAÇÃO

Depois desse disco, tem alguma canção que o senhor sente que ainda precisa escrever?

Não sei se existe uma canção específica que eu “precise” escrever. Se eu soubesse qual é, provavelmente já teria escrito. [risos] A composição tem esse mistério. Você nunca sabe exatamente o que está procurando até encontrar. O que eu espero é continuar curioso. Enquanto houver curiosidade, enquanto eu pegar o violão e aparecer alguma coisa que me surpreenda, existe a possibilidade de uma nova canção. E essa possibilidade já é suficiente para mim.

O que é o tempo pro senhor hoje? Esse entendimento mudou ao longo da vida?

Mudou muito. Quando somos jovens, temos a impressão de que o tempo está à nossa frente, quase como uma coisa infinita. Aos 80 anos, evidentemente, você sabe que não é assim. Mas isso não precisa ser necessariamente triste. Pode tornar as coisas mais preciosas. Hoje eu talvez tenha menos interesse em contar o tempo e mais interesse em estar dentro dele. Estar com as pessoas que amo, tocar, ouvir, observar. E há uma coisa interessante na música: ela bagunça completamente essa ideia de passado e presente. Uma canção feita há cinquenta anos pode acontecer novamente hoje e ser inteiramente presente. Talvez por isso eu tenha uma relação tão boa com o tempo quando estou tocando.

E a música? O que esse caminho de artista significa para o senhor hoje?

A música me deu praticamente tudo. Me deu uma maneira de compreender o mundo, me deu amigos, parceiros, viagens, encontros e uma vida inteira de descobertas. Mas, depois de tantos anos, talvez eu perceba ainda mais claramente que ela não me pertence. As canções saem da gente e passam a fazer parte da vida das outras pessoas. Algumas atravessam décadas, encontram outras gerações, ganham outros significados. Isso é uma coisa muito bonita. Aos 80 anos, poder subir num palco e perceber que aquelas músicas continuam encontrando alguém é um privilégio imenso. No fundo, continuo fazendo o que fazia quando comecei: pego o violão e tento descobrir alguma coisa que eu ainda não sei.

SERVIÇO

  • O quê: Show da turnê João Bosco 80 Anos - Amigos Novos e Antigos
  • Quando: 12 de setembro, às 21h
  • Onde: Teatro Gustavo Leite — Centro de Convenções (Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá, Maceió)
  • Duração: 80 minutos | Classificação: livre
  • Ingressos: Plateia VIP R$ 280 (inteira) / Plateia B R$ 240 / Mezanino R$ 200
  • Vendas: ingressodigital.com, Viva Alagoas (Maceió Shopping), Barão 486 (Passeio Stella Maris)

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