Beto de Meirus, o artista alagoano que se diz "Escravo do Amor"

Seleiro, artesão e poeta, ele preserva saberes seculares em Pão de Açúcar, no Sertão de Alagoas, e vem se destacando com suas peças autênticas

É numa ruazinha de paralelepípedos, com um charme típico do Sertão de Alagoas, com cadeiras nas calçadas, pessoas jogando conversa fora e uma montanha coberta por um verde desgastado ao fundo, que se localiza a oficina do Beto de Meirus. O artesão de Pão de Açúcar, ávido por contar histórias a quem interessar ouvir seus causos, é guardião de fazeres valiosos: é escultor, artesão do couro, seresteiro e improvisador. Entre um verso e um arreio, sonha com o amor, que o inspira a continuar trabalhando, mesmo aos 79 anos.

“Eu agora tô me identificando como ‘escravo do amor’. Eu sou o Beto, lá do Meirus. Fui vereador cinco vezes, presidente da Câmara três vezes, participei da Constituinte”, conta, orgulhoso.

Apesar da vida pública agitada, foi mesmo no artesanato que Beto de Meirus se fez. Fabricando suas peças em couro e fazendo versos no meio da tarde, ele diz que vive para descobrir poesias em todos os cantos: nos bancos artesanais, nos móveis, em figuras do imaginário popular e até na vestimenta completa do sertanejo, o gibão. “Beto de Meirus faz tudo isso. Guarda-peito, chapéu, sela, mesa, cadeira, banquinho, baú…”.

Artista produz peças autênticas em sua oficina, como bancos com detalhes em couro - Foto: Ailton Cruz

As peças são autênticas. Obras de arte valorizadas Brasil afora, inclusive por nomes destacados da arte e do design. Ele recebe encomendas audaciosas e diz que se regozija com os desafios, ri de si mesmo, ri da vida, gosta de trabalhar.

“Aprendi com meu pai. Meu pai era seleiro e também era seresteiro. Então eu herdei isso dele e o resto fui gostando de fazer. Eu faço esculturas feliz. Eu fiz, por desaforo, aquela estátua de eu mesmo. O Cristo do Mar Vermelho [cidade do interior de Alagoas] também quem fez fui eu”, revela animado.

“Eu me inspiro na vida. Eu me sinto bem. Eu tenho vontade de fazer. É a minha arte. Quando o povo traz assim uma coisa pra eu fazer, uma encomenda, uma coisa assim que não existe, aí é que eu gosto de fazer. Porque o que não me falta é vontade de trabalhar. E aí eu vou ter que parar?”, questiona.

Personalidade folclórica em Pão de Açúcar, artista diz que tem mais reconhecimento fora de Alagoas - Foto: Ailton Cruz

É que a vida do artista, apesar de colorida e verdejante em sua imaginação e criatividade, é difícil. Ele diz que sofre com a falta de valorização pública, reclama por ainda não ter sido selecionado como Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas — prêmio para o qual diz ter se inscrito ao menos 15 vezes — e ainda sofre com a diabetes, que tem tirado sua mobilidade.

“Eu vivo da minha arte, não tenho outra coisa. Como professor, eu ganho muito pouco, porque me aposentei em um regime que dá pouco dinheiro. E eu ajudo muita gente, minha família e o povo viciado da minha região, que eu ajudava quando era da política e que ainda me procura”, afirma.

Seleiro há 60 anos, o artista conta que parou de fazer selas porque estava levando calote dos vaqueiros, que não têm culpa dos tempos difíceis, mas acabavam abusando da bondade do Beto de Meirus.

“Vendi tudo ao Dedezinho. Porque eu tava me preocupando muito. Eu comprando fiado, aí o cheque chegava e eu ficava doido. Aí acabei a selaria e passei a vender só aos turistas.”

E vende bem. Pouco antes da chegada da reportagem, Beto de Meirus havia recebido uma encomenda para fazer uma série dos seus bancos extraordinários. “Cobrei R$ 2.800”, revela. “Não vendo um banco desse aqui, mas os turistas são em cima de mim direto. Eu tô fazendo peça para Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Caruaru, pra todo canto. Quando o tempo tá bom, eu me sinto um artesão importante”.

Quando o sapato aperta, no entanto, ele se vê magoado pela falta de reconhecimento local. “Eu tava ali lendo um livro com quinze poetas de Pão de Açúcar. E eu num tô. Rapaz, eu me senti triste. Agora, a gente olha as poesia deles e num presta. Alguns, não todos, tem alguns que dá pra aproveitar. Mas tem deles que não são poetas de jeito nenhum. Eu enfrentei violeiro fazendo poesia, eu ia com meu pai enfrentar os violeiro. Eu faço quadrão, faço mourão e faço na hora”, conta.

“E também tem esse prêmio [Patrimônio Vivo de Alagoas], que eu levo lá os projetos, mas perco pra uma mulher que faz labirinto. Eu faço tudo isso, até labirinto, mas não querem me ajudar. Eu preciso. Eu faço essas artes, ganho um dinheirinho, mas não tá dando. Eu sou diabético. Eu tô vendo a hora de passar necessidade. Nunca recebi uma ajuda, um benefício de nada. Já fiquei aperreado, já até pedi dinheiro emprestado aos amigos”, diz, indignado.

Perseguindo o amor

As dificuldades, no entanto, não abalam o Beto de Meirus. “Mesmo doente, com as pernas cansadas, a minha rotina é nessa loja, sem sair, trabalhando. Quando me aperreio, chamo meu filho pra me ajudar. E também gosto de ficar na porta, sentado na minha cadeira”, assume.

O artista deposita nos filhos a esperança de sua arte multifacetada ganhar o mundo e entrar para a história. “Só não compartilho com mais gente porque eles não querem. Parece que os jovens não tem inspiração de nada. Os pais também não mandam. Mas quando as escolas vêm, eu recebo”, conta Beto.

Autorretrato de Beto de Meirus, esculpido pelo artista sertanejo - Foto: Ailton Cruz

“Meu maior sonho eu não posso nem dizer. Mas eu vou dizer. O meu maior sonho é ter uma mulher comigo. Uma mulher carinhosa e boa. Eu sempre gostei de namorar, de fazer minhas serenatas. Vou falar a verdade, né?”, brinca.

“Eu sei que esse sonho eu não realizo. Eu quero ficar é sadio e recuperar minhas pernas. Melhorar minhas pernas e andar a pés, e até me inscrever num time de futebol por aí, mas sempre esperando e me inspirando no amor”.