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Arapiraca, entre a poesia e a farpa

Significado do nome do município é tema controverso entre a população e especialistas


				Arapiraca, entre a poesia e a farpa
Reprodução

O município de Arapiraca chega ao seu primeiro centenário com uma controvérsia em relação ao significado etimológico da árvore que deu nome à cidade. De acordo com a tradição oral, disseminada desde a época de seu fundador – Manoel André Correia dos Santos –, a palavra tem origens indígenas e significaria “ramo que arara visita”.

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O termo foi amplamente semeado a partir da segunda metade dos anos 1950, quando o então presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Jurandyr Pires Ferreira, lançou a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – uma coleção formada por 36 livros que reúne a história de todos os municípios brasileiros.

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Em dezembro de 1959 seria lançado o volume reunindo a história dos municípios alagoanos. Nele, a palavra Arapiraca aparece com origem indígena: ara (periquito) – poya (visitar) - aca (ramo, galho que o periquito visita), “ou, ·segundo outros, ara (embira, árvore) - aca (cabeça, árvore redonda, árvore onde moram araras)”. O livro deixa claro, no entanto, que se trata de uma versão vinda da tradição popular.

Sacramentado por uma fonte oficial, o significado seria utilizado por outros estudiosos alagoanos, entre eles a museóloga Cármen Lúcia Dantas, autora do livro Origem dos Nomes dos Municípios Alagoanos”, lançado no ano passado pela Secretaria de Estado da Comunicação. Nele, a pesquisadora usa como fonte justamente o volume que trata dos municípios do estado lançado pelo IBGE.

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				Arapiraca, entre a poesia e a farpa
Reprodução

Antes dela, o historiador e artista plástico arapiraquense Zezito Guedes já havia utilizado o significado em seu livro “Arapiraca através do Tempo”, de 1999. “Ramo que arara visita” também se esparrama por sites de órgãos oficiais do município, como a Prefeitura e Câmara Municipal de Vereadores.

A versão, no entanto, é contestada por estudiosos como Eduardo de Almeida Navarro, autor do Dicionário de Tupi Antigo – A língua indígena clássica do Brasil. Prefaciada pelo escritor Ariano Suassuna, a obra é fruto de um trabalho de 14 anos de pesquisas, desenvolvidas com a ajuda de três especialistas – dois deles doutores – em biociências.

“[O tupi] Forneceu milhares de termos para a língua portuguesa do Brasil, milhares de topônimos, esteve presente na literatura colonial, no Romantismo, no Modernismo”, ressalta Suassuna, no prefácio. “O tupi foi a referência fundamental de todos os que quiseram afirmar a identidade cultural do nosso país”, continua.

De acordo com o dicionário de Eduardo Navarro, que é professor de tupi antigo na Universidade de São Paulo (USP) há 30 anos, a palavra Arapiraca tem origem em ‘arupare’aka’ e significa farpas, abrolhos, estrepes.

O catedrático diz que o termo já havia sido definido no “Vocabulário na Língua Brasílica”, obra de um jesuíta do século XVI publicada por Plínio Ayrosa em 1938. Segundo Eduardo Navarro, a palavra arupare’aka que daria nome ao município alagoano aparece na obra teatral – escrita em tupi – do padre José de Anchieta, o jesuíta português que chegou ao Brasil em 1553 e desempenhou papel fundamental na colonização do país.

“Assim, os missionários, os cronistas e os viajantes coloniais, cujas obras são as fontes para o conhecimento do tupi antigo, deram uma contribuição que supera de longe a que dão muitos linguistas contemporâneos para o conhecimento de línguas indígenas vivas”, ressalta Eduardo Navarro.

À reportagem, Cármen Lúcia Dantas – que utilizou o poético “ramo que arara visita” em seu livro – se mostra surpresa com o ressignificado da palavra Arapiraca. Curiosa e exímia pesquisadora, quer conferir pessoalmente o verbete. “Muito interessante”, diz, reticente, como se preferisse a poesia às farpas.

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