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Primeira travesti do Brasil, Xica Manicongo deve virar nome de rua em SP

O projeto aguarda sanção ou veto do prefeito Ricardo Nunes

A Câmara Municipal de São Paulo aprovou no início de junho a nomeação de uma rua em homenagem à Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil. O projeto aguarda sanção ou veto do prefeito Ricardo Nunes (MDB) –ele tem até o início de julho para se manifestar sobre o tema.

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Se aprovado, a Rua Sem Nome, do bairro do Grajaú, na zona sul da capital paulista, será a primeira via da cidade a homenagear uma travesti.
"Xica Manicongo representa a luta das travestis brasileiras pelo seu direito à memória e reconhecimento e por isso é importante homenagear sua luta e existência", disse na justificativa do projeto a vereadora Erika Hilton (PSOL), autora da proposta.

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Sequestrada de onde hoje fica o Congo e escravizada no Brasil do século 16, Xica teve seu caso descoberto inicialmente pelo antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia. Ele encontrou nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, uma denúncia de sodomia feita em 1591 aos Tribunais do Santo Ofício (a Inquisição).


De acordo com os documentos, "Francisco", como Xica era conhecida, vivia em Salvador. Os documentos a classificam como "membro de uma quadrilha de feiticeiros sodomitas" que se vestia com um pano preso em um nó para frente e como alguém que tinha grande resistência em usar roupas masculinas. Mas, para sobreviver, teve que negar sua identidade e, até o fim do século 20, foi considerada um homem gay, inclusive na pesquisa de Mott.

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De acordo com um artigo de Jaqueline Gomes de Jesus, professora de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a primeira pessoa a definir Xica como travesti foi a ativista Majorie Marchi, então presidente da Astra-Rio (Associação de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro), já no começo do século 21.


Assim ela é considerada a primeira travesti com identidade confirmada da história do Brasil. Segundo a historiadora Giovanna Heliodoro, criadora do canal Trans Preta, para entender a importância da homenagem proposta por Hilton, primeiro, é preciso entender a importância da própria história.

"Assim, entendemos a relevância de fazer com que pessoas trans e travestis reescrevam a história por si mesmas." Hoje, Xica se faz presente nas letras de cantoras como Linn da Quebrada e na obra de artistas como Neon Cunha –em 2018, ela e o estilista Isaac Silva lançaram uma coleção de roupas em homenagem à primeira travesti negra brasileira. "Xica permeia a nossa existência, a nossa contemporaneidade", disse Cunha.


A ativista lembra que, além das vestes femininas, a própria figura de Xica confundia a cabeça dos colonizadores. Xica não era propriamente uma travesti, como conhecemos hoje, ela era uma "cudina", uma espécie de divindade do Congo.


"No Ocidente, existe a lógica binária de homem e mulher, mas, quando saímos dessa visão de mundo, encontramos sociedades que construíram identidades de gênero que estão muito além do binarismo", explica Heliodoro. "Os colonizadores não tinham conhecimento do que ela era, mas eles entendiam que ela fugia da norma, e foi sufocada pela pressão social."

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