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MPF diz que Braskem recebeu alertas sobre risco de afundamento desde os anos 1980

Denúncia aponta sucessão de estudos e relatórios que alertavam para subsidência e instabilidade das minas


				MPF diz que Braskem recebeu alertas sobre risco de afundamento desde os anos 1980
MPF diz que Braskem recebeu alertas sobre risco de afundamento desde os anos 1980. Divulgação

A denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a Braskem escancarou que a empresa e suas antecessoras receberam alertas sobre riscos de afundamento do solo e instabilidade das minas de sal-gema em Maceió, ao menos, desde a década de 1980.

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A acusação, aceita pela Justiça Federal na última sexta-feira (12), reúne estudos técnicos, pareceres de consultores, relatórios internos, documentos de licenciamento e mensagens eletrônicas obtidas durante a Operação Lágrimas de Sal, da Polícia Federal.

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Questionada sobre as acusações, a Braskem não se manifestou até o fechamento da reportagem.

A investigação apura responsabilidades pelo afundamento do solo em áreas de Maceió que levaram à desocupação de bairros como Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol. O fenômeno provocou a retirada de cerca de 60 mil moradores, o fechamento de estabelecimentos comerciais e a demolição de milhares de imóveis ao longo dos últimos anos. Mais de 14,5 mil imóveis tiveram de ser desocupados, dos quais a maioria já foi demolida.

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Segundo o MPF, um dos registros mais antigos identificados na investigação é um estudo elaborado em 1986 pela consultoria americana PB-KBB Inc. sobre a primeira década de exploração da jazida de sal-gema em Maceió. O documento apontava descumprimentos de especificações técnicas da lavra e recomendava medidas de controle relacionadas ao fenômeno da subsidência, termo usado para designar o afundamento gradual do terreno.

Dois anos depois, em 1988, estudos assinados pelo consultor Álvaro Maia da Costa alertaram para a existência de camadas geológicas instáveis no subsolo e para a possibilidade de afundamento da superfície. Em 1989, o mesmo consultor previu a formação de uma bacia de subsidência e registrou o risco de surgimento de crateras em caso de colapso das cavernas subterrâneas.

Ainda segundo a denúncia, a então Salgema ampliou sua operação naquele período, com a perfuração de novos poços para exploração de sal-gema.

Os alertas continuaram na década seguinte.

Relatórios produzidos em 1990 e 1991 apontaram risco de "colapso global do grupo de cavernas" e mencionaram a possibilidade de danos severos na superfície. Técnicos recomendaram a interrupção de atividades em poços considerados críticos para avaliação da estabilidade das cavidades.

O MPF afirma que as recomendações não foram implementadas. A acusação sustenta que os estudos produzidos nas décadas seguintes permaneceram conhecidos dentro da empresa.

E-mails citados na denúncia mostram dirigentes discutindo, em 2013, relatórios elaborados em 1986, 1990, 1998, 2005 e 2006 sobre estabilidade das minas e subsidência. Segundo o MPF, as mensagens demonstram que diferentes áreas da companhia tinham acesso ao histórico de estudos produzidos sobre a operação.

A denúncia afirma ainda que a própria Braskem reconheceu, em atualização do Plano de Aproveitamento Econômico apresentada em 2003, que a operação havia se desenvolvido de forma diferente daquela prevista originalmente no plano aprovado pelo órgão regulador. O documento também previa monitoramento periódico dos movimentos da superfície, mas, segundo o MPF, medições deixaram de ser realizadas na frequência prevista.

Ao denunciar a empresa, os procuradores afirmam que a mineração de sal-gema em Maceió foi conduzida durante décadas sem observância integral dos parâmetros de segurança previstos para a atividade.

Segundo a acusação, relatórios internos registravam problemas relacionados ao desenvolvimento das cavidades subterrâneas, à distância entre minas, à estabilidade estrutural e à necessidade de monitoramento permanente das áreas exploradas. Parte dessas informações, afirma o MPF, não aparecia nos documentos encaminhados aos órgãos de fiscalização e licenciamento.

A ação penal tem como réus a Braskem e 17 pessoas. Entre os denunciados estão os ex-diretores industriais Álvaro Cezar de Oliveira Almeida e Marco Aurélio Cabral Campelo; os ex-gerentes de produção Paulo Márcio Tibana e Galileu Moraes Henrique; o engenheiro Paulo Roberto Cabral de Melo, responsável técnico pela operação das minas durante décadas; Alex Cardoso Silva e Adolfo Pereira Sponquiado, ligados à área de mineração; além de Maria Isabel Costa Kenny Seyfried, Silvia Albuquerque Correa de Araújo, Linice de Vasconcelos Cavalcante, Antônio de Pádua Albuquerque de Freitas, Régia Cynthia de Melo Mendes e Paulo Raimundo Morais da Cruz.

Também foram denunciados os servidores públicos Gustavo Ressurreição Lopes, Leonardo Lopes Azeredo Vieira, Jean Paul Pereira de Melo e Pollyana Christina Gomes dos Santos.

Procurado pela reportagem, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) informou que respeita a atuação do Ministério Público Federal e as decisões do Poder Judiciário, mas afirmou que não cabe ao órgão se manifestar sobre as conclusões da denúncia enquanto o caso estiver em tramitação. Em nota, o instituto disse acompanhar o andamento do processo e permanecer à disposição dos órgãos de controle e da Justiça para prestar informações técnicas dentro de suas atribuições legais.

Sobre a denúncia contra o presidente do órgão, Gustavo Ressurreição Lopes, e os servidores ou ex-servidores Leonardo Lopes Azeredo Vieira, Jean Paul Pereira de Melo e Pollyana Christina Gomes dos Santos, o IMA afirmou que a ação trata da apuração de condutas individualizadas e que eventuais responsabilidades serão analisadas no âmbito do processo judicial, observadas as garantias legais dos envolvidos.

Na denúncia, o MPF afirma que a empresa possuía "diversos relatórios técnicos internos" que apontavam descumprimento de parâmetros de segurança e problemas operacionais, mas sustentou, perante a Justiça, que essas informações foram ocultadas do poder público e da sociedade.

Braskem

Álvaro Cezar de Oliveira Almeida — ex-diretor industrial

Marco Aurélio Cabral Campelo — ex-diretor industrial

Paulo Márcio Tibana — ex-gerente de produção

Galileu Moraes Henrique — ex-gerente de produção

Paulo Roberto Cabral de Melo — ex-responsável técnico da lavra

Alex Cardoso Silva — engenheiro e responsável técnico

Adolfo Pereira Sponquiado — engenheiro

Maria Isabel Costa Kenny Seyfried — executiva da companhia

Silvia Albuquerque Correa de Araújo — engenheira da área ambiental/SSMA

Linice de Vasconcelos Cavalcante

Régia Cynthia de Melo Mendes

Consultoria e prestadores

Antônio de Pádua Albuquerque de Freitas

Paulo Raimundo Morais da Cruz

Servidores públicos (IMA-AL)

Gustavo Ressurreição Lopes

Leonardo Lopes Azeredo Vieira

Jean Paul Pereira de Melo

Pollyana Christina Gomes dos Santos

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