Basílica de Aparecida vira vitrine eleitoral na disputa pelo voto católico
Às vésperas do Dia de Nossa Senhora Aparecida, candidatos recorrem à força da Padroeira do Brasil para se aproximar dos fiéis

A fé católica e a disputa pelo poder voltaram a se cruzar no centro do debate eleitoral brasileiro. Em Aparecida, no interior de São Paulo, a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, maior santuário católico do país, consolidou-se não apenas como destino de milhões de romeiros, mas também como um espaço simbólico disputado por candidatos que buscam conquistar a confiança de eleitores religiosos.
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Na reta final do primeiro turno das eleições de 2026, a devoção à Padroeira do Brasil ganhou destaque após a circulação de publicações que associavam o senador Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou a informação, mas a controvérsia provocou reações de adversários políticos, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e repercussões na Justiça Eleitoral.
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O episódio evidenciou como símbolos religiosos podem assumir protagonismo em uma disputa política marcada pela polarização. Mais do que manifestações de fé, visitas a templos, participação em celebrações e referências a figuras religiosas podem funcionar como estratégias para estabelecer vínculos com diferentes segmentos do eleitorado.
A Basílica de Aparecida ocupa posição especialmente relevante nesse cenário. Além da importância espiritual para os católicos, o santuário reúne fiéis de diferentes regiões do país e concentra grande atenção pública, sobretudo durante as celebrações de 12 de outubro, data dedicada à Padroeira do Brasil.


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Religião ganha espaço na disputa eleitoral
A relação entre política e religião não é novidade no Brasil. Ao longo das últimas décadas, candidatos à Presidência e outras lideranças políticas passaram a incorporar referências religiosas em discursos, agendas públicas e atos de campanha, reconhecendo a influência da fé na identidade e nas escolhas de parte dos eleitores.
Para a antropóloga da religião Brenda Carranza, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora visitante da Faperj-UERJ, a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida revela o ambiente de polarização política vivido pelo país.
“A Nossa Senhora, reativada como polêmica, simplesmente traz um resquício e revela este ambiente polarizado mais profundo. Se fosse um ambiente normal dos anos 90, isto não teria tomado a proporção que tomou”, afirmou a especialista.
A análise aponta para uma disputa que ultrapassa a simples presença de candidatos em eventos religiosos. Nesse contexto, símbolos de fé também se tornam instrumentos de identificação política, capazes de mobilizar apoiadores e provocar reações entre adversários.
O cientista político e sociólogo José Maurício Cardoso, da Universidade de Taubaté (Unitau), também destaca a importância da religião na política brasileira. Para o pesquisador, a presença crescente de referências religiosas nas campanhas evidencia a dificuldade de separar as dimensões política e religiosa na sociedade.
Debates presidenciais e presença de candidatos em Aparecida
A atuação da Igreja Católica no período eleitoral também se manifesta na promoção de debates entre presidenciáveis. A CNBB participou da organização de encontros nas eleições de 2014 e 2018, realizados no centro de eventos da Basílica de Aparecida e transmitidos nacionalmente por emissoras católicas, incluindo a TV Aparecida e a TV Canção Nova.
Em 2022, um novo debate chegou a ser programado, mas acabou cancelado após as ausências de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), então candidatos à Presidência.
Na campanha de 2026, o então candidato Renan Santos, do partido Missão, esteve no santuário em 22 de setembro. Já Lula e Flávio Bolsonaro, que disputam o segundo turno, não haviam confirmado presença na Basílica para a celebração de 12 de outubro, segundo as informações divulgadas no material de origem. Nenhum dos dois havia cumprido agenda pública no local naquele ano.
Lula se declara católico. Flávio Bolsonaro, por sua vez, se identifica como evangélico. Apesar disso, o senador participou de um ato de campanha em São Paulo, em 28 de setembro, no qual ergueu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Outras lideranças políticas também mantêm relações frequentes com o santuário. Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente da República, e Gilberto Kassab, presidente do PSD, estão entre os nomes que costumam participar de cerimônias na Basílica.
Disputa por símbolos e identificação com os eleitores
A controvérsia sobre o título de Padroeira do Brasil chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após publicações sobre o assunto serem exploradas politicamente. A Justiça Eleitoral autorizou a circulação de conteúdos sobre o tema, desde que não atribuíssem falsamente a Flávio Bolsonaro um projeto para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
O episódio mostrou como informações relacionadas à religião podem ganhar dimensão nacional durante uma campanha, especialmente quando envolvem símbolos de grande importância cultural e espiritual.
Em um país onde o catolicismo continua sendo uma referência central para milhões de pessoas, a aproximação de candidatos com manifestações de fé pode representar uma tentativa de construir identificação com o eleitorado. Ao mesmo tempo, a instrumentalização de símbolos religiosos também pode gerar controvérsias e aprofundar divisões políticas.
