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Quando o poder faz do outro seu cúmplice

Reconhecer uma contradição não significa estar disposto a enfrentá-la


				Quando o poder faz do outro seu cúmplice
Luciana Gramacho.

Uma sociedade pode defender a liberdade e aceitar que ela seja retirada de parte de seus integrantes. Pode exigir respeito à lei e encontrar justificativas para sua violação. Pode condenar o abuso de poder e considerá-lo necessário quando praticado em nome de uma causa com a qual se identifica.

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O mais inquietante é que essas contradições nem sempre provocam constrangimento. Aquele que exige o cumprimento de uma regra pode ser o primeiro a defender sua suspensão, desde que a exceção lhe pareça conveniente. E continuará convencido de que seus princípios permanecem intactos. Quem se reconhece como defensor da liberdade dificilmente admite estar contribuindo para restringi-la. É mais fácil acreditar que algumas pessoas não deveriam desfrutar das mesmas garantias. A lei continua sendo importante. O problema é quando protege alguém que se gostaria de ver punido.

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Reconhecer uma contradição não significa estar disposto a enfrentá-la. O sujeito pode saber que uma escolha lhe trará prejuízos e, ainda assim, encontrar nela uma satisfação da qual não pretende abrir mão. Aquilo que deseja nem sempre coincide com o que lhe faz bem. Para a psicanálise, não basta perguntar o que alguém sabe sobre suas escolhas. Interessa também aquilo que o leva a sustentá-las, mesmo quando reconhece suas contradições. A ignorância e a manipulação, por si sós, não explicam todas as formas de adesão.

O exercício do poder pode encontrar no desejo do outro um instrumento particularmente eficaz. Não precisa inventar rivalidades, ressentimentos ou necessidades de pertencimento. Esses elementos já atravessam as relações humanas e podem ser mobilizados quando encontram uma justificativa capaz de transformar a hostilidade em virtude.

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Na perversão, a relação com a lei assume uma configuração particular. A proibição não é simplesmente desconhecida. O limite pode ser reconhecido, e a transgressão adquirir importância justamente porque há algo que não se pode fazer. A questão envolve a posição do sujeito diante da lei e a satisfação que encontra nessa relação. Não se trata de atribuir uma estrutura clínica a governantes ou eleitores, mas de examinar uma lógica de poder na qual a transgressão encontra justificativa na defesa da própria regra. O desejo do outro pode ser convocado a sustentar aquilo que o submete. Não é necessário obrigá-lo a colaborar. Ele pode desejar fazê-lo, convencido de que está defendendo algo importante.

Uma autoridade que pretende ampliar seu poder encontra condições favoráveis quando consegue fazer das diferenças uma ameaça permanente. Pessoas que dependem das mesmas instituições começam a disputar quem merece ser protegido por elas. A indignação encontra seus alvos entre cidadãos que compartilham dificuldades semelhantes, enquanto aqueles que exercem o poder permanecem menos expostos ao questionamento. A liberdade de expressão passa a ser contestada quando exercida por quem se considera adversário. O respeito às instituições se transforma em uma exigência dirigida apenas ao outro. Cada grupo continua se apresentando como defensor dos princípios que aceita relativizar.

Seria simples atribuir esse movimento à manipulação de alguém particularmente habilidoso. Mas essa explicação deixa de fora uma pergunta: por que certas pessoas continuam participando mesmo quando reconhecem as contradições daquilo que defendem? O pertencimento pode oferecer segurança, a fidelidade garantir reconhecimento e a derrota do adversário proporcionar uma satisfação que nenhuma promessa de melhoria concreta conseguiria substituir. As escolhas políticas não se reduzem a conflitos subjetivos, mas os argumentos apresentados nem sempre esgotam as razões pelas quais uma posição é sustentada.

Uma convicção pode se tornar parte da imagem que alguém construiu de si. Admitir um engano exigiria rever palavras, atitudes e relações estabelecidas em nome daquela certeza. Quanto mais se investiu em sua defesa, maior a dificuldade de reconsiderá-la. Novos fatos podem ser experimentados como ataques à própria identidade, exigindo respostas empenhadas em preservar uma escolha. O sujeito passa a defender também tudo aquilo que precisou justificar para continuar acreditando que estava certo.

Ser influenciado não significa estar isento de responsabilidade. A psicanálise interroga a participação do sujeito naquilo de que se queixa, inclusive quando ele próprio não reconhece inteiramente as razões de seus atos. O poder pode se beneficiar dessa participação sem que alguém precise planejar cada reação de uma sociedade. Basta que determinadas formas de hostilidade encontrem autorização para se manifestar. Alguém pode acreditar que está resistindo a uma imposição quando contribui para fortalecer as condições que a tornam possível.

A democracia depende não apenas da possibilidade de escolher governantes, mas da preservação das condições que permitem discordar deles, fiscalizá-los e substituí-los. Essas garantias existem para limitar o poder, inclusive quando esse limite contraria a vontade de uma maioria. Nenhuma instituição, porém, se sustenta apenas porque suas regras estão escritas. Sua continuidade depende também da disposição de respeitá-las quando deixam de ser convenientes.

Uma exceção pode parecer justificável diante de uma ameaça. Outra encontra amparo na gravidade das circunstâncias. Aos poucos, aquilo que exigia uma justificativa extraordinária passa a ser defendido como necessário. Quem participa desse processo nem sempre percebe que o limite ultrapassado para atingir alguém pode ser o mesmo de que precisará para se proteger.

O perverso não precisa lutar contra uma sociedade inteira quando consegue fazer com que ela lute contra si mesma. A ambição de governar sem obstáculos não constitui novidade na história. Mais difícil é reconhecer o que leva uma sociedade a oferecer sua colaboração, especialmente quando essa participação lhe permite acreditar que está do lado da lei, da liberdade e da justiça.

E quando uma sociedade, historicamente habituada a decidir para quem a lei deve valer, passa a admitir novas exceções, a questão já não é apenas quem está autorizado a estabelecê-las.

É quem ainda poderá exigir que elas terminem.

Luciana Gramacho

Psicóloga e psicanalista, com 25 anos de experiência clínica. CRP 06/66998.

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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