Quando a balança não conta a história toda
Em um mundo que transformou números em sinônimo de sucesso, talvez estejamos esquecendo de medir aquilo que realmente importa

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Logo pela manhã, alguém sobe na balança esperando encontrar a confirmação de que todo o esforço da semana valeu a pena. Alguns segundos depois, o número aparece. E, muitas vezes, ele é capaz de definir o humor do dia inteiro.
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Se diminuiu, surge a satisfação.
Se aumentou ou permaneceu igual, vem a frustração.


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Como se a saúde pudesse ser resumida a um único dado.
Vivemos em uma sociedade que aprendeu a associar resultados aos números. Contamos calorias, contamos passos, contamos quilos. E, sem perceber, passamos a acreditar que a balança é a principal medida de sucesso quando o assunto é emagrecimento.
Mas será que ela realmente conta toda a história?
Embora o peso corporal seja uma ferramenta importante de acompanhamento, ele está longe de ser o único indicador de evolução. O corpo humano é dinâmico e sofre influência constante de fatores como qualidade do sono, nível de estresse, retenção de líquidos, prática de atividade física, alimentação e alterações hormonais.
Nas mulheres, por exemplo, as oscilações naturais do ciclo menstrual podem provocar variações no peso ao longo do mês sem que isso represente ganho de gordura corporal. Da mesma forma, uma pessoa que iniciou a prática de exercícios pode apresentar mudanças na composição corporal antes mesmo de observar diferenças significativas na balança.
Segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), o sucesso de um processo de emagrecimento não deve ser avaliado apenas pela redução do peso, mas também pela melhora da composição corporal, dos parâmetros metabólicos, da qualidade de vida e da manutenção dos hábitos saudáveis ao longo do tempo.
Na prática clínica, essa realidade aparece com frequência. Ao longo dos atendimentos, aprendi que muitas pessoas chegam buscando apenas perder peso, mas acabam descobrindo algo muito mais valioso: uma forma mais leve, consciente e sustentável de cuidar da própria saúde.
É comum encontrar pacientes que chegam ao consultório decepcionadas por acreditarem que não estão obtendo resultados. No entanto, durante a conversa, começam a perceber mudanças importantes que haviam passado despercebidas: estão dormindo melhor, sentindo mais disposição, consumindo mais água, organizando melhor as refeições e reduzindo episódios de compulsão alimentar.
Curiosamente, nenhuma dessas conquistas aparece na balança.
Talvez porque fomos ensinados a enxergar o emagrecimento apenas como uma meta numérica, quando, na verdade, ele é consequência de um conjunto de comportamentos construídos ao longo do tempo.
A busca por resultados rápidos também contribui para essa percepção distorcida. Somos constantemente expostos a promessas de transformações aceleradas, dietas extremamente restritivas e estratégias que prometem mudanças em poucos dias. Embora possam gerar resultados iniciais, muitas dessas abordagens são difíceis de sustentar e acabam alimentando ciclos repetidos de restrição, frustração e recomeço.
Por outro lado, as mudanças que realmente transformam a saúde costumam ser menos chamativas.
Elas acontecem quando alguém aprende a montar refeições mais equilibradas, encontra uma forma prazerosa de se movimentar, melhora a qualidade do sono, desenvolve uma relação mais tranquila com a comida e constrói hábitos compatíveis com a própria rotina.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que a promoção da saúde envolve múltiplos fatores, incluindo alimentação adequada, atividade física regular, saúde mental, qualidade do sono e bem-estar geral. Em outras palavras, saúde é muito mais ampla do que um número registrado em uma balança.
Talvez por isso uma das perguntas mais importantes durante um acompanhamento nutricional não seja "quantos quilos você perdeu?", mas sim:
"O que melhorou na sua vida desde que você começou a se cuidar?"
As respostas raramente se limitam ao peso.
Elas costumam falar sobre mais energia para enfrentar o dia, menos cansaço, exames laboratoriais melhores, mais confiança, menos culpa ao comer e uma sensação maior de controle sobre as próprias escolhas.
A balança continuará tendo seu espaço dentro da avaliação nutricional. O problema começa quando ela se torna a única forma de medir progresso.
Porque saúde não é apenas o peso que carregamos.
Saúde também está na disposição para viver, na qualidade do sono, nos hábitos que conseguimos manter, na relação que construímos com a comida e na capacidade de cuidar de nós mesmos de forma consistente.
Porque, no fim das contas, a balança pode medir peso. Mas ela jamais será capaz de medir tudo aquilo que realmente importa.
Bruna Silva
Nutricionista Clínica – CRN 15059
Especialista em Saúde da Mulher, Gestação e Pós-Parto.
Atua com acompanhamento nutricional voltado ao emagrecimento, saúde da mulher, equilíbrio hormonal, gestação e pós-parto.
Referências
ABESO – Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Diretrizes Brasileiras de Obesidade.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Obesity and overweight.
Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
