Qual foi o seu primeiro pensamento pela manhã?
A pergunta pode parecer ingênua ou até simples, mas poucas pessoas se atentam a esse diálogo interno ou sequer se lembram

Existe um provérbio japonês que diz: “Não fale mal de si mesmo. Pois o guerreiro que habita em você ouve suas palavras” eu completaria: “e por elas é enfraquecido”. Essa frase popular guarda uma provocação importante, que é bastante profunda.
Tudo em um só lugar.
Receba notícias da GazetaWeb no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo!

Nós temos uma mania aparentemente inofensiva de nos agredir quando cometemos pequenos erros. Você passa dez minutos procurando os óculos até perceber que eles estavam na sua cabeça e diz quase que automaticamente: “Como eu sou burro”, “eu sou muito idiota”, “como posso ser tão lerdo?”, parece brincadeira e muitas vezes faz em um tom irônico. Mas não é, pois existe um processo particularmente perverso nessa atitude: você pensa, verbaliza e, depois, escuta a própria voz dizendo aquilo sobre você.
Leia também
Você é autor, narrador e audiência da mesma mensagem. E aquilo que repetimos continuamente começa a participar da maneira como nos percebemos. É por isso que uma das partes fundamentais daquilo que chamo de narrativa interna está na linguagem que usamos para falar conosco.
Narrativa interna é a história que você sustenta sobre quem você é, do que é capaz, qual lugar acredita merecer ocupar e até onde acredita poder chegar. E essa história não fica confinada à sua cabeça, ela sempre transborda. Porque a maneira como você se percebe interfere na maneira como você interpreta o mundo, reage a ele, toma decisões, estabelece limites, enfrenta riscos e reconhece oportunidades.


Disputa na lateral-direita do CRB - 30/09/2026

Apresentações de capoeira, coco de roda e maculelê na capital

Policiais civis salvam homem de 54 anos após afogamento

Indecisos e desempenho nos grandes colégios podem definir a disputa ao governo
Talvez por isso uma das discussões mais interessantes do livro “Mais Esperto que o Diabo” de Napoleon Hill, esteja justamente na batalha que acontece dentro do indivíduo.
Eu sei que hoje o livro ganhou contornos de “livro de desenvolvimento pessoal da moda”, mas por trás disso, existe uma discussão muito mais interessante sobre medo, crenças, autodeterminação e aquilo que Hill chama de drifting: viver à deriva, permitindo que circunstâncias e influências externas determinem a direção da própria vida.
O livro foi escrito em 1938, no rastro da Grande Depressão, em um período de crise pessoal e profissional do próprio Hill. E ele constrói uma conversa imaginária com o Diabo, só que esse Diabo pode ser lido também como uma representação das forças que sequestram a autonomia do indivíduo: medo, dúvida, hábito, crenças e ausência de propósito.
Em determinado momento, surge uma ideia central: quem possui clareza sobre a própria identidade e sobre a direção que pretende seguir se torna muito mais difícil de controlar. Saber quem você é e saber para onde está indo é resultado da narrativa interna estruturada. E o mais curioso é que essa preocupação atravessa culturas e épocas.
Na película “Comer, Rezar e Amar” há uma passagem em que Richard provoca Liz a aprender a selecionar os próprios pensamentos com o mesmo cuidado com que escolhe as roupas todos os dias e deixar de ter a ilusão de que controla tudo quando nem os próprios pensamentos consegue.
Séculos antes, Marco Aurélio registrava em suas meditações uma das ideias fundamentais do estoicismo: os acontecimentos externos não estão inteiramente sob nosso domínio; nossos julgamentos sobre eles, porém, pertencem a outra esfera. Em uma passagem ele registrou que não tinha absolutamente nenhum controle sobre nada mas apenas sobre seus próprios pensamentos.
Obras diferentes, de culturas diferentes, épocas diferentes, linguagens diferentes, mas com a mesma questão: quem governa o que acontece dentro de você?
Certamente uma das habilidades que estejamos deixando de ensinar às novas gerações seja justamente a observação do próprio pensamento, pois em algum momento perdemos isso aplicado a nós mesmos.
Importante ressaltar que uma narrativa interna estruturada não tem a ver com acreditar que podemos impedir qualquer pensamento negativo de aparecer, isso seria apenas uma positividade tóxica. Significa perceber que nem todo pensamento merece ser transformado em verdade, repetido em voz alta e incorporado à própria identidade. Nem mesmo alimentado por alguns minutos pela nossa criatividade.
Então observe: o que você diz quando erra? Como você se descreve quando fracassa? O que repete para si quando alguma coisa dá errado? Que pensamentos você alimenta sobre o amanhã? E, principalmente: como você, enquanto pai, mãe, professor, tio, líder ou orientador, está ensinando a próxima geração a conversar consigo mesma?
Porque o guerreiro interno está ouvindo e a maneira como você o alimenta pode determinar se, diante da próxima batalha, ele se apresenta convencido de que é incapaz, ou lembrando exatamente de quem é.
Por Chris Kumakola
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
