Prometa-me o impossível
Talvez certas promessas políticas não sejam poderosas apesar de serem impossíveis

Todo mundo sabe que há políticos que prometem o que não podem cumprir. O mais curioso é que isso nem sempre atrapalha.
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Há promessas que continuam funcionando depois de fracassarem. Outras reaparecem eleição após eleição, apenas mudando de candidato. Algumas sobrevivem até à constatação de que eram impossíveis desde o início.
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Talvez porque nem toda promessa ofereça apenas aquilo que diz oferecer.
Um mundo sem violência. Um país sem corrupção. Prosperidade para todos. O retorno de uma ordem perdida. O fim definitivo da desigualdade. A recuperação de um passado no qual supostamente se vivia melhor.


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São promessas muito diferentes, mas guardam uma semelhança: retiram da cena alguma coisa bastante difícil de suportar.
O limite.
O limite do dinheiro, das instituições, do tempo, das diferenças, da convivência. O fato incômodo de que uma sociedade é feita de interesses contraditórios e nenhuma escolha será capaz de satisfazer a todos.
É justamente aí que certas lideranças políticas podem se tornar particularmente sedutoras. Não apenas quando oferecem uma solução, mas quando oferecem a possibilidade de que, com elas, determinado limite deixe de existir.
É fácil chamar isso de mentira. Mais difícil é explicar por que funciona.
Talvez porque esse tipo de liderança não precise inventar o desejo de quem a escuta. Ela o encontra. Uma promessa de ordem encontra alguém cansado do caos. A promessa de recuperar um passado encontra alguém para quem alguma coisa foi perdida. A promessa de eliminar um inimigo encontra alguém que ficaria aliviado se pudesse localizar fora de si a causa do que não satisfaz.
Uma liderança assim não precisa criar o desejo de quem a escuta. Precisa encontrar alguma coisa que já estava ali e dar a ela a forma de uma promessa.
Nesse ponto, a psicanálise introduz uma questão interessante: saber não é a mesma coisa que desejar.
Uma pessoa pode saber que um amor acabou e continuar esperando. Pode saber que determinada relação lhe faz mal e permanecer nela. Pode saber que não existe garantia e passar anos procurando alguém que a ofereça.
O conhecimento não encerra o desejo.
Por que seria diferente diante de uma urna?
O eleitor pode saber que nenhum presidente controla sozinho a economia, que nenhum governo eliminará a violência, que corrupção não desaparece por decreto. Pode inclusive desconfiar de quem promete.
E votar nele.
Não é que não saiba.
Sabe.
Mas saber que existe um limite não significa necessariamente aceitar suas consequências.
A psicanálise conhece bem essa contradição: eu sei, mas mesmo assim.
Não é preciso desconhecer o limite para desejar que alguém consiga suspendê-lo.
Eu sei que você não pode.
Mas prometa.
Talvez seja por isso que algumas promessas resistam tão bem aos fatos. Quando fracassam, é possível trocar a explicação sem necessariamente abandonar aquilo que foi prometido. Faltou tempo. O Congresso impediu. A oposição sabotou. O mercado reagiu. O governo anterior deixou uma situação pior do que se imaginava.
E qualquer uma dessas explicações pode ser verdadeira. Governar implica limites reais.
A política também precisa desejar o que ainda não existe. O problema começa quando, para chegar até lá, é preciso acreditar que os limites deixaram de existir.
Uma coisa é querer transformar os limites de uma sociedade. Outra é precisar acreditar que alguém possa governar sem eles.
Às vezes é mais fácil substituir quem deveria realizar uma promessa do que admitir que aquilo que se esperava jamais poderia ser entregue.
Muda o político. A promessa encontra outro endereço.
A religião conhece há muito tempo a força de uma promessa que não precisa se realizar diante de quem a recebeu. A salvação no reino dos céus não precisa ser entregue aqui para continuar sendo desejada. E talvez política e religião se aproximem justamente nesse ponto: ambas podem oferecer uma resposta para aquilo que a realidade insiste em deixar sem resposta.
A diferença é que a política tem um inconveniente.
Chega o dia seguinte.
O palanque é desmontado. O candidato vira governante. Aquilo que parecia ilimitado encontra orçamento, instituições, interesses contraditórios e consequências.
Encontra justamente aquilo que a promessa havia feito desaparecer.
O limite.
Por isso, talvez certas promessas políticas não sejam poderosas apesar de serem impossíveis. Talvez sejam poderosas justamente porque oferecem aquilo que nenhuma política, nenhum governante e, no fundo, ninguém pode oferecer: a promessa de que seria possível chegar a um lugar em que nada mais faltasse.
Para que alguém possa prometer isso de cima de um palanque, porém, é preciso que exista alguém diante dele ainda desejando escutar que esse lugar existe.
Luciana GramachoPsicóloga e Psicanalista, CRP 06/66998.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
