Planejamento é tudo! Inclusive na hora que o roubo de celular acontece
Veja como prevenir problemas e proteger suas contas digitais e sua identidade após o roubo ou a perda do celular

Imagine caminhar por uma rua movimentada, com o celular na mão, quando uma motocicleta se aproxima e o aparelho é arrancado em poucos segundos. Essa situação faz parte da realidade de muitas pessoas. Em alguns casos, os criminosos utilizam motocicletas ou bicicletas e podem adotar estratégias para se aproximar das vítimas sem levantar suspeitas, inclusive com aparência semelhante à de entregadores de aplicativos. Regiões com grande circulação de pessoas e concentração de aparelhos de maior valor também acabam se tornando alvos frequentes. Levantamentos recentes mostram, por exemplo, uma elevada incidência de roubos e furtos de celulares em áreas da zona oeste de São Paulo, maior capital do país, como Pinheiros e Jardins, e em vias movimentadas da capital. No primeiro bimestre de 2026, o 14º Distrito Policial, que atende Pinheiros, registrou 1.464 celulares roubados ou furtados, uma média de 24 aparelhos por dia.
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O problema também ganhou novas dimensões porque o celular deixou de ser apenas um telefone. Hoje, ele concentra acesso a bancos, cartões, Pix, e-mail, redes sociais, documentos, serviços públicos e muitas informações pessoais. O aparelho também funciona, em muitos casos, como uma das principais ferramentas de autenticação e recuperação de contas digitais. Por esse motivo, o roubo, o furto ou até mesmo a perda do aparelho representa também um possível incidente de segurança digital.
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A preparação antecipada reduz parte dos riscos. O conhecimento das medidas corretas também permite uma resposta mais rápida quando o problema acontece. O melhor momento para pensar na segurança do celular é antes que o pior aconteça.
O cadastro no Celular Seguro representa uma das primeiras medidas recomendáveis. O serviço permite comunicar roubo, furto ou perda do aparelho e acionar instituições participantes. O serviço também permite o cadastro de uma pessoa de confiança para auxiliar na emissão do alerta, conforme as regras estabelecidas.


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Os recursos oficiais de localização e proteção remota do Android, da Google, ou do iOS, da Apple, também merecem atenção. Esses recursos podem permitir a localização, o bloqueio ou a exclusão remota dos dados, dependendo do sistema utilizado.
Uma senha de bloqueio adequada aumenta a proteção do aparelho. A biometria também acrescenta uma camada adicional de segurança. Esses recursos, porém, não eliminam todos os riscos. Em algumas ocorrências, o criminoso pode ameaçar a vítima e exigir a senha do aparelho ou o desbloqueio por biometria. Essa situação transforma uma barreira técnica em uma situação de coerção física, na qual a segurança da vítima deve sempre prevalecer. Por esse motivo, a vítima nunca deve colocar sua integridade física em risco para proteger o aparelho ou os dados armazenados nele. A orientação mais importante durante um assalto continua sendo não reagir e seguir as instruções do criminoso. As medidas de proteção e recuperação das contas devem ser adotadas posteriormente, quando a vítima estiver em segurança.
A proteção, porém, não termina no dispositivo. Backups periódicos protegem fotos, contatos e documentos importantes contra perdas. O registro do número IMEI em um local seguro também facilita a identificação do aparelho em caso de ocorrência. Essa informação não deve ficar armazenada exclusivamente no próprio celular.
Os canais oficiais de atendimento dos bancos, da operadora e dos principais serviços digitais também devem estar disponíveis fora do aparelho. Uma pergunta simples ajuda a avaliar o nível de preparação: se o meu celular desaparecer hoje, eu sei como entrar em contato com meu banco, minha operadora e minhas principais contas? Uma resposta negativa indica que existe uma medida de segurança que ainda precisa ser adotada.
A conta gov.br ocupa uma posição diferente entre as contas digitais porque funciona como uma identidade digital para acesso a diversos serviços públicos. A conta pode concentrar informações pessoais e permitir acesso a serviços importantes. Por esse motivo, a conta gov.br não deve ser tratada apenas como mais um aplicativo instalado no celular. A preparação também deve considerar a perda do dispositivo usado para autenticar ou recuperar a conta. O usuário precisa conhecer previamente os mecanismos disponíveis para recuperação do acesso e manter alternativas de autenticação sempre que possível.
O Governo Federal também vem adotando mecanismos para facilitar a recuperação da conta em situações de perda ou roubo do celular. Essas iniciativas reforçam a importância de conhecer os procedimentos oficiais antes que um incidente aconteça. Senhas, códigos de autenticação e códigos recebidos por SMS nunca devem ser compartilhados com terceiros. Uma pessoa que afirma representar o governo também não deve receber essas informações.
O período posterior ao roubo pode criar oportunidades para golpes de engenharia social. Uma mensagem sobre a localização do aparelho, o bloqueio da conta ou a necessidade de confirmar dados pode parecer legítima e ainda assim representar uma tentativa de fraude.
Os canais oficiais devem ser sempre a primeira opção para acessar ou recuperar a conta. A conta gov.br representa uma identidade digital. A proteção desse acesso, portanto, faz parte da própria segurança do cidadão.
O que fazer depois do roubo? A segurança física vem antes de qualquer medida digital. A vítima não deve reagir ao roubo nem tentar recuperar o aparelho pessoalmente. Um computador ou outro celular confiável pode ser usado para iniciar os procedimentos depois que a pessoa estiver em segurança.
O bloqueio e a proteção do aparelho representam uma das primeiras medidas. Os recursos oficiais de localização e proteção remota podem ajudar nesse processo. O bloqueio do dispositivo e, quando necessário, a exclusão remota dos dados reduzem as possibilidades de acesso indevido às informações.
O Celular Seguro representa outra medida importante. O usuário pode comunicar o roubo, furto ou perda pelo serviço e acionar as instituições participantes. Uma pessoa de confiança previamente cadastrada também pode auxiliar no processo, conforme as regras do serviço. O número do protocolo gerado deve ser guardado.
A vida financeira exige resposta rápida. Os bancos e as instituições financeiras devem ser comunicados o quanto antes. Os canais oficiais de atendimento são sempre a opção mais segura. A comunicação permite que a instituição adote medidas de proteção para contas, cartões, aplicativos e operações financeiras. Uma transação Pix não reconhecida ou realizada em razão de fraude exige comunicação imediata à instituição financeira. O Mecanismo Especial de Devolução, conhecido como MED, pode ser solicitado quando a situação atender aos critérios aplicáveis. A vítima não deve esperar novas movimentações para procurar o banco. Uma resposta rápida aumenta a possibilidade de adoção de medidas de segurança.
A linha telefônica também precisa de proteção. A operadora deve ser comunicada para realizar o bloqueio da linha ou do chip. O número de telefone pode estar associado a diversas contas digitais e também pode ser utilizado em processos de autenticação ou recuperação de acesso. O bloqueio reduz o risco de utilização indevida da linha e de códigos recebidos por SMS. Essa medida complementa a proteção do aparelho e das demais contas digitais.
As principais contas digitais precisam ser revisadas. O e-mail principal merece prioridade porque muitas contas utilizam esse endereço para recuperação de senha. As contas Google ou Apple, os serviços de armazenamento em nuvem, as redes sociais, os aplicativos de mensagens, as contas profissionais e os gerenciadores de senhas também precisam ser revisados. As senhas prioritárias devem ser alteradas. As sessões abertas devem ser encerradas sempre que possível. O aparelho roubado também deve ser removido das contas que oferecem essa possibilidade. Os mecanismos de autenticação e recuperação merecem uma revisão adicional. Essa etapa reduz o número de portas digitais que poderiam ser utilizadas por alguém que esteja de posse do aparelho.
O registro da ocorrência também é importante. O Boletim de Ocorrência representa outra etapa importante da resposta. A possibilidade de registro pela internet depende das estruturas disponíveis em cada Estado. A Delegacia Digital da Polícia Civil e o Sinesp Delegacia Virtual são exemplos de canais que podem estar disponíveis para esse procedimento. Informações como data, horário e local da ocorrência, marca, modelo e IMEI do aparelho podem ser solicitadas durante o registro.
O documento e os protocolos relacionados ao incidente devem ser guardados. O registro pode ser necessário em procedimentos com seguradoras, instituições financeiras ou em outras situações de contestação e investigação. Os contatos também precisam ser avisados.
O roubo do celular pode afetar outras pessoas além da vítima. Criminosos podem utilizar o número ou as contas comprometidas para entrar em contato com familiares, amigos e colegas. Pedidos de dinheiro, mensagens falsas e tentativas de obter informações podem aparecer depois da ocorrência. Familiares, amigos e colegas próximos devem ser avisados sobre o roubo. Essa comunicação ajuda a reduzir o risco de golpes praticados em nome da vítima.
Mensagens que informam a localização do aparelho ou solicitam códigos, senhas e informações pessoais também exigem atenção. Nenhum código de autenticação deve ser fornecido a terceiros. Um pedido de dinheiro feito em nome de alguém conhecido deve ser confirmado por outro meio de comunicação antes de qualquer transferência.
A segurança continua depois do bloqueio, pois ele não encerra o incidente. As contas bancárias, os cartões, o e-mail, as redes sociais, os serviços digitais e a conta gov.br precisam continuar sob observação durante os dias seguintes. Notificações de login, redefinições de senha, movimentações financeiras e outras atividades desconhecidas merecem atenção. Uma atividade suspeita deve ser comunicada imediatamente à instituição responsável. Mensagens, notificações, protocolos e outros registros relacionados ao incidente também devem ser preservados. A segurança digital inclui o monitoramento depois do incidente. Essa etapa pode ajudar a identificar rapidamente uma tentativa de fraude ou de acesso indevido.
A prevenção não significa viver com medo de perder o celular. O objetivo é estar preparado para agir caso isso aconteça. Um aparelho pode ser substituído. A recuperação de uma conta comprometida, a interrupção de uma fraude ou a reparação dos prejuízos causados pelo uso indevido de dados pode ser muito mais difícil.
O celular concentra hoje uma parte significativa da vida digital. A proteção do aparelho é importante, mas a proteção das identidades, contas, informações e serviços associados a ele é ainda mais importante. A conta gov.br faz parte desse conjunto e merece atenção especial.
Alguns minutos de preparação podem fazer diferença em uma situação de emergência. A revisão das configurações de segurança, o conhecimento dos mecanismos de recuperação, os backups e a manutenção de canais de contato fora do celular são medidas simples que aumentam a capacidade de resposta.
A segurança digital não começa quando o incidente acontece. Ela começa antes.Planejamento é tudo! Inclusive na hora que o roubo de celular acontece.
Fiquem seguros e se planeje para quando o problema ocorrer.
*João Augusto Alexandria de Barros
Diretor de Inteligência do Instituto de Defesa Cibernética
Especialista em Políticas e Estratégias Cibernéticas
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
