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Nem todo afastamento é ausência

Quando o silêncio também comunica


				Nem todo afastamento é ausência

Vivemos em um tempo em que quase tudo precisa ser respondido rapidamente. Mensagens, sentimentos, relações, decisões. Parece que a pausa perdeu o direito de existir. E, quando alguém silencia, logo tentamos encontrar um significado: será desinteresse? Frieza? Rejeição? Fim?

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Mas nem todo afastamento é ausência.

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Às vezes, o afastamento é uma forma de proteção. Uma tentativa, nem sempre consciente, de organizar o que ainda não encontrou palavra. Há pessoas que se calam não porque não sentem, mas porque sentem de uma forma que ainda não conseguem sustentar. Outras se afastam porque aprenderam, em algum momento da vida, que demonstrar fragilidade poderia ser perigoso.

Na clínica, escuto muitas histórias que mostram como o comportamento adulto, tantas vezes, carrega marcas antigas. Algumas defesas emocionais nasceram como tentativa de sobrevivência. Foram necessárias em determinado momento. O problema é que aquilo que um dia protegeu também pode, com o tempo, aprisionar.

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Há quem fuja quando começa a se vincular. Há quem se feche quando mais precisava falar. Há quem pareça indiferente, mas esteja apenas tentando não se sentir vulnerável. E há também quem interprete qualquer pausa como abandono, porque carrega dentro de si feridas que ainda não foram cuidadas.

Por isso, olhar para o comportamento humano exige delicadeza. Nem sempre quem se distancia deixou de se importar. Nem sempre quem demonstra muito está seguro. Nem sempre quem permanece está presente. E nem sempre quem vai embora queria, de fato, partir.

A Psicologia nos convida a olhar além da superfície. Ela nos ajuda a compreender os padrões que repetimos, os medos que escondemos e as formas que encontramos para nos proteger do que dói. Muitas vezes, aquilo que chamamos de 'jeito de ser' é também uma história que ainda continua sendo contada dentro de nós.

Mas compreender não significa justificar tudo.

Essa talvez seja uma das partes mais importantes. Entender a dor do outro não nos obriga a aceitar atitudes que nos ferem. Acolher uma história não significa abandonar os próprios limites. Relações saudáveis precisam de espaço, mas também precisam de clareza. Precisam de liberdade, mas também de cuidado. Precisam de silêncio em alguns momentos, mas não podem viver apenas de suposições.

Talvez amadurecer emocionalmente seja aprender a não transformar toda pausa em rejeição. Mas também seja reconhecer quando esperar pelo outro começa a nos afastar de nós mesmos.

No fim, a transformação começa quando temos coragem de olhar para dentro. Porque, quando compreendemos nossas defesas, deixamos de viver apenas reagindo às nossas feridas. E começamos, aos poucos, a escolher com mais consciência como queremos nos relacionar com o mundo, com o outro e conosco.

Por Claudia Zambrana, psicóloga | CRP 04/73927

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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