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A nutrição começa antes da gravidez: por que cuidar da alimentação antes de engravidar pode fazer diferença para mãe e bebê

Um dos pontos que considero mais importantes é o estado nutricional antes da concepção


				A nutrição começa antes da gravidez: por que cuidar da alimentação antes de engravidar pode fazer diferença para mãe e bebê

Quando falamos em preparação para a gravidez, é muito comum que o cuidado comece apenas depois do teste positivo. Eu gosto de trazer uma perspectiva diferente: a preparação nutricional para a gestação deveria começar antes mesmo da concepção.

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Na minha prática como nutricionista materno-infantil, vejo que o período pré-concepcional é uma oportunidade muito importante de cuidado. Antes de pensar apenas no bebê que está por vir, precisamos olhar para a saúde da mulher, para seu estado nutricional, seus hábitos alimentares, composição corporal, exames e possíveis deficiências nutricionais.

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A ciência tem mostrado que a gestação não é um evento isolado. Existe uma continuidade entre o estado de saúde da mulher antes da gravidez, o ambiente intrauterino e os desfechos de saúde ao longo da vida.

Por isso, quando uma mulher me procura dizendo que deseja engravidar, eu não penso apenas em uma dieta para "engravidar melhor". Eu penso em preparar o organismo para uma gestação saudável.

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O cuidado começa antes do teste positivo

Um dos pontos que considero mais importantes é o estado nutricional antes da concepção.

O excesso de peso e alterações metabólicas maternas já presentes antes da gravidez estão associados a maior risco de complicações durante a gestação e também podem influenciar o ambiente intrauterino. A literatura científica sobre programação fetal mostra que condições metabólicas maternas podem participar da formação da trajetória metabólica do bebê.

Isso não significa dizer que o futuro de uma criança está determinado pela alimentação ou pelo peso da mãe. Eu faço questão de reforçar isso porque essa informação nunca deve ser usada para gerar culpa.

O que a ciência nos mostra é que existem fatores modificáveis e momentos em que podemos intervir.

E o período antes da gestação é um deles.

Por isso, considero importante que mulheres que estão planejando engravidar tenham a oportunidade de avaliar sua alimentação e seu estado nutricional com antecedência, e não apenas quando a gravidez já aconteceu.

Não é sobre fazer dieta para engravidar

Quando falo em preparação nutricional, não estou falando de restrição alimentar ou de buscar um determinado peso a qualquer custo.

Para mim, preparar-se nutricionalmente significa construir uma alimentação que forneça energia e nutrientes adequados, melhorar a qualidade da alimentação, corrigir possíveis deficiências e estabelecer hábitos que possam ser mantidos durante a gestação.

É um momento para olhar para a alimentação de forma global.

Eu avalio, por exemplo, a qualidade das fontes de proteínas, o consumo de frutas, verduras e legumes, a presença de fibras, gorduras de boa qualidade, a ingestão de micronutrientes e também o padrão alimentar como um todo.

Além disso, considero importante avaliar exames laboratoriais e individualizar a suplementação. Suplemento não deve ser encarado como algo universal ou simplesmente comprado por conta própria. A necessidade e a dose dependem da avaliação individual e da orientação do profissional que acompanha a mulher.

A gestação não é o momento de "comer por dois"

Depois que a gravidez acontece, outro ponto que considero fundamental é desconstruir a ideia de que a gestante precisa comer por dois.

Ela precisa, na verdade, nutrir dois organismos com necessidades diferentes, e isso não significa simplesmente dobrar a quantidade de comida.

Durante a gestação, as necessidades nutricionais mudam. O organismo passa por adaptações importantes e o bebê depende dos nutrientes disponíveis para seu crescimento e desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, existe uma preocupação importante com o ganho de peso gestacional.

Eu não gosto de tratar o ganho de peso como um número isolado ou como uma questão estética. Ele é um dos indicadores que acompanho durante o pré-natal nutricional porque tanto o ganho insuficiente quanto o ganho excessivo podem estar associados a desfechos gestacionais desfavoráveis.

Na minha abordagem, o objetivo é acompanhar a trajetória da mulher ao longo da gestação, respeitando seu estado nutricional inicial e as necessidades de cada fase.

O primeiro trimestre merece atenção

Um aspecto que considero especialmente interessante é que não devemos pensar apenas nos últimos meses da gravidez quando falamos de crescimento fetal e metabolismo.

O início da gestação é uma fase de grande importância biológica. A formação da placenta, as adaptações metabólicas maternas e o desenvolvimento inicial do feto acontecem muito cedo.

Por isso, quando a mulher já chega à gestação com uma alimentação inadequada, excesso de peso, alterações glicêmicas ou deficiências nutricionais, perdemos uma oportunidade importante de intervenção.

É justamente por isso que eu defendo tanto o acompanhamento pré-concepcional.

Diabetes gestacional também passa pela prevenção

Outro tema que merece atenção é o metabolismo da glicose.

A diabetes gestacional está relacionada a alterações metabólicas que podem repercutir tanto na saúde materna quanto no ambiente intrauterino. Na minha prática, eu procuro trabalhar não apenas depois que uma alteração aparece, mas também na construção de hábitos que favoreçam um melhor controle metabólico.

Isso envolve qualidade dos carboidratos, distribuição das refeições, consumo adequado de fibras, proteínas e gorduras, além de atividade física quando liberada pela equipe que acompanha a gestante.

E aqui faço uma ressalva importante: diabetes gestacional não é simplesmente consequência de "comer açúcar" durante a gravidez. É uma condição multifatorial, influenciada por características metabólicas, hormonais e pela própria fisiologia da gestação.

A alimentação é uma parte do cuidado, mas não é a única responsável.

O que eu gostaria que toda mulher soubesse antes de engravidar

Se eu pudesse resumir a principal mensagem para uma mulher que está planejando uma gestação, eu diria: não espere o teste positivo para começar a cuidar da sua alimentação.

Não é necessário transformar a vida inteira de uma hora para outra.

Eu prefiro trabalhar com mudanças possíveis e sustentáveis: melhorar a qualidade da alimentação, aumentar a variedade de alimentos, organizar a rotina, reduzir o excesso de produtos ultraprocessados, cuidar do consumo de fibras, proteínas e gorduras de boa qualidade e avaliar individualmente a necessidade de suplementação.

Também considero importante olhar para sono, atividade física, saúde metabólica e acompanhamento médico.

A ideia não é buscar uma gestação "perfeita". É chegar a ela com o melhor estado de saúde possível.

Prevenir não é tentar controlar o futuro. É reconhecer os momentos em que podemos cuidar melhor. E, para mim, um desses momentos começa antes mesmo de a gravidez acontecer.

Por: Fernanda Bordini

Nutricionista Materno Infantil - Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Especialização em Nutrição no Início da Vida - Universidade de Munique

Especialização em Nutrição do Prematuro - Universidade da Austrália

Residência Multiprofissional pela FAMERP

Especialização em Nutrição Hospitalar - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Graduação em Nutrição pela UNIRP

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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