Futebol dinâmico e histórias de superação: conheça o México que pode enfrentar o Brasil
Equipe de Javier Aguirre tem 100% de aproveitamento e ainda não sofreu gol

O México é uma das sensações desta Copa do Mundo: jogando diante da sua torcida, a equipe alcançou as oitavas de final com 100% de aproveitamento e nenhum gol sofrido. O próximo jogo, contra a Inglaterra, será o último em solo mexicano no torneio. Se "La Tri" levar a melhor, pode ser a adversária da Seleção Brasileira nas quartas de final.
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A qualidade dos donos da casa não surpreende Paulo Victor Gomes, novo treinador das seleções brasileiras sub-20 e sub-23. Entre 2023 e 2026, o profissional auxiliou André Jardine no trabalho multicampeão à frente do América do México. Consequentemente, acompanhou de perto a preparação da equipe nacional até o Mundial. Em entrevista ao Lance!, ele destacou que já nutria otimismo com o desempenho dos mexicanos, mesmo em ciclo marcado por troca no comando técnico — em julho de 2024, Javier Aguirre substituiu Jaime Lozano.
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— Eu tinha certeza de que o México teria uma grande seleção no Mundial. O torcedor e a imprensa no México são muito críticos, atrapalham a construção de um processo a longo prazo na seleção, principalmente quando causam trocas de treinadores. Mas eu ainda tinha essa certeza, porque a seleção tem muitos bons jogadores. Quando a seleção se reunia, a gente conversava e dizia que eram muitas boas peças, que formariam uma equipe competitiva associando os vários bons jogadores da liga mexicana com os que jogavam na Europa — contou.
O sufocante México de Aguirre


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O mexicano Javier Aguirre, de 67 anos, com carreira expressiva em clubes mexicanos e espanhóis, reassumiu a seleção do seu país a dois anos da Copa — antes, havia comandado La Tri na campanha até as oitavas de final do Mundial de 2010.
Classificado antecipadamente por ser um dos três países-sede, o México teve ciclo mais tranquilo, sem disputar as Eliminatórias. Ainda assim, a campanha discreta na Copa América de 2024 ocasionou a demissão de Lozano. Após a chegada do novo treinador, a equipe mexicana venceu dois torneios entre seleções das Américas Central e do Norte: Gold Cup e Concacaf Nations League.
Desde o início de 2026, os mexicanos mostravam indícios do futebol demonstrado no Mundial. Invictos no ano, venceram também os três jogos pré-Copa — no mais recente, goleando a Sérvia por 5 a 1. Antes do início da competição mais esperada, o time já somava expressivas 17 vitórias, oito empates e quatro derrotas sob comando de Aguirre.
Na Copa do Mundo, o destaque dos mexicanos vai muito além dos resultados. Especialmente nas duas partidas mais recentes, contra República Tcheca e Equador, impressionaram pela forma como sufocaram os adversários. O time treinado por Javier Aguirre é vertical, dinâmico e tem muita qualidade. Por mais que só tenha superado a posse de bola do rival no primeiro duelo, diante da África do Sul, teve mais finalizações ao gol em todos os quatro confrontos.
Armada no 4-3-3, a equipe mexicana imprime muita velocidade quando rouba a posse de bola. Sem egoísmo, os jogadores trocam passes e sempre buscam o companheiro mais livre. E é claro que o estilo de jogo é favorecido pela presença da sua torcida, que cria uma atmosfera completamente diferente nas partidas da seleção mexicana.
Agora, o México joga novamente no lendário Estádio Azteca pelas oitavas de final da Copa do Mundo. O confronto com a Inglaterra acontece no domingo (5), às 21h (de Brasília), e será a despedida da seleção de seu país. A partir da eventual quartas de final, possivelmente contra o Brasil, a equipe de Aguirre jogaria apenas nos Estados Unidos.
Quem são os craques mexicanos na Copa?
A seleção mexicana tem muitos destaques nesta Copa do Mundo, desde a defesa imbatível até o ataque letal. O capitão é o zagueiro Montes. A criatividade passa pelo "motorzinho" Alvarado, que já distribuiu três assistências na competição. Quem também chama atenção é o meia Gilberto Mora, de apenas 17 anos, o mais novo do torneio e da história do México em Mundiais. Em contraste, o elenco tem o lendário Guillermo Ochoa, que, aos 40 anos, disputa sua sexta edição.
Contudo, os maiores personagens desta equipe certamente são os atacantes Raúl Jiménez e Julián Quiñones, autores dos gols contra o Equador. No segundo, inclusive, combinaram lindamente em tabela até finalização perfeita de Jiménez. A dupla marcou cinco dos oito gols mexicanos na Copa até agora. Mas a capacidade artilheira de ambos não é novidade.

Raúl Jiménez: o homem que desafiou a morte
Raúl Jiménez personifica a superação da seleção mexicana. Aos 35 anos, o centroavante enfim é titular depois de três edições de Copa no banco de reservas (2014, 2018 e 2022). Na estreia, contra a África do Sul, aproveitou a oportunidade tão aguardada para também marcar o seu primeiro gol em Mundiais. Por trás, um roteiro cinematográfico: a mesma cabeça que exige utilização de um protetor há seis anos finalizou com precisão o cruzamento de Alvarado.
O atacante começou a carreira como promessa no América do México. Depois, teve passagem apagada pelo Atlético de Madrid e foi bicampeão português com o Benfica antes de chegar à badalada Premier League. Vestindo as camisas de Fulham e Wolverhampton, já marcou 68 gols em 233 jogos. Mas também foi na Inglaterra que viveu o maior susto da vida: em novembro de 2020, se chocou com o zagueiro brasileiro David Luiz, fraturou o crânio e sofreu uma hemorragia intracraniana, que, em muitos casos, leva a vítima à morte. Foram dez meses até o retorno aos gramados.
No entanto, a disputa da Copa do Mundo envolveu outra superação dolorosa para Jiménez. Três meses antes do torneio, o astro mexicano perdeu o pai. Ao celebrar o gol de cabeça na vitória sobre a África do Sul, o segundo do Mundial, ele apontou emocionado para o céu.
— Era algo que eu buscava, mais do que marcar meu primeiro gol na Copa do Mundo, poder dedicá-lo ao meu pai, que eu acho que seria o mais feliz de estar aqui no estádio, mas sei que lá do céu ele está me apoiando e me incentivando — revelou após o jogo.
Depois de passar em branco contra a Coreia do Sul e ser poupado diante da Tchéquia, o centroavante voltou a marcar em grande estilo no mata-mata. A pintura contra os equatorianos foi assistida por seu parceiro de ataque, o habilidoso Julián Quiñones.
Julián Quiñones: o arrependimento colombiano
Julián Quiñones, de 29 anos, nasceu em Magüi Payán, na Colômbia, e começou a carreira no país natal. Em 2015, porém, migrou para o futebol mexicano, onde permaneceu até 2024. O atacante integrou a seleção colombiana de base, mas foi ignorado na equipe principal. Isso até 2023, quando finalmente recebeu um convite. Tarde demais: insatisfeito com a falta de oportunidades, o jogador já havia decidido defender a nação que o abraçou.

A estreia pelo México aconteceu em novembro de 2023. Agora, na Copa do Mundo, o velocista fez questão de se apresentar aos que não o conheciam na Colômbia e no resto do mundo: marcou logo o primeiro gol do torneio. Desde então, já balançou as redes outras duas vezes e deu uma assistência. Além de artilheiro, é quem mais corre na equipe mexicana (39 km) no Mundial. Segundo o Power Ranking da Fifa, também é o 12º melhor jogador de ataque da competição.
Quiñones brilhou por onde passou. Ganhou títulos por Tigres, Atlas e América do México, onde encerrou sua passagem pelo país e conquistou os torneios Apertura e Clausura da Liga MX sob comando de André Jardine e Paulo Victor. Para o atual técnico das seleções brasileiras de base, o papel que exerce nesta Copa extrai o seu melhor.
— O Julián é um jogador muito acima da média, que nos ajudou muito. É um atleta especial, que consegue desempenhar qualquer função do ataque, seja pelo lado esquerdo ou direito, como segundo atacante ou camisa 9. Mas a sua melhor função é a que está executando agora na Copa do Mundo: um atacante pela esquerda, que se converte em segundo atacante, próximo ao centroavante, liberando o corredor para o lateral — analisou.
Em 2024, Quiñones trocou o América pelo Al-Qadsiah, do endinheirado futebol saudita, que pagou € 13,8 milhões por sua contratação. No clube árabe, acumula números impressionantes: 62 gols em 68 jogos. Paulo Victor conhece bem a veia artilheira do astro mexicano, mas admira ainda mais a forma como concilia a capacidade dentro da área com contribuição tática.
— Julián é um jogador muito conectado com o gol, mas com uma taxa de trabalho altíssima, que se dedica muito à equipe na fase defensiva, se sacrifica, tem percepção de defesa. É um jogador completo, que todo treinador e equipe gostariam de ter. É muito influente no ataque, com gols, assistências e movimentos para a profundidade, mas também na defesa — disse.
O Mundial é a maior vitrine para qualquer jogador. Aos 29 anos, em plena forma física, o artilheiro do México deve virar um dos mais desejados do mercado de transferências após o torneio. E quem diz entende do assunto: treinador da base do Palmeiras entre 2021 e 2023, Paulo Victor projetou craques como Endrick e Estêvão.
— Em teoria, Julián é um jogador que começou a se destacar mais tarde na carreira, construída desde a formação no México. Hoje é o artilheiro da sua liga, então vejo grande possibilidade de voos maiores. Também porque é um jogador privilegiado fisicamente, com vigor e saúde interessantes. Além disso, é uma pessoa e um profissional espetacular. Eu desejo muito sucesso para o Quiñones, porque realmente merece e fez por onde — acrescentou o técnico.
Do México para o mundo
O bom desempenho apresentado pelo México na Copa do Mundo é reflexo do futebol local. A liga mexicana recebe investimento pesado de grandes empresários, que financiam os principais clubes, e tem crescido ano após ano. Segundo o portal especializado em finanças do futebol "Capology", a Liga MX é a 12ª que mais gasta com salários no mundo.
Alguns veteranos estrangeiros, como o francês André-Pierre Gignac e o espanhol Sergio Ramos, passaram pelo Campeonato Mexicano recentemente. Nesta temporada, os brasileiros Lima e Raphael Veiga também migraram para lá. Mas grande parte dos investimentos são em atletas que já disputam a liga. O resultado: 12 dos 26 jogadores convocados atuam no país. Assim, a equipe que encanta o planeta nesta Copa do Mundo aproveita o que tem de melhor na essência do futebol mexicano.
— O que essa equipe tem de mais marcante são características relacionadas ao que é o futebol mexicano: a velocidade dos seus jogadores, o futebol ofensivo, leve, veloz. As equipes prezam muito pelo jogo ofensivo, de ataque. São equipes ousadas, destemidas, como a gente também está conseguindo ver dentro da seleção mexicana neste Mundial — concluiu Paulo Victor Gomes.
