
Um mesmo texto contra o jornalista Edivaldo Júnior, autor deste blog, circulou de forma sincronizada em pelo menos três sites de notícias de Alagoas nesta quarta-feira (09/09). T82, AL102 e Quarto Poder publicaram conteúdo idêntico, com o mesmo título, os mesmos números e a mesma construção narrativa.
No T82 e no AL102, a publicação entrou no ar exatamente às 13h24. O Quarto Poder reproduziu o material no mesmo dia. Nos três casos, o texto foi atribuído apenas à “Redação”, sem a identificação de um jornalista responsável.
O título também foi repetido integralmente: “Blogueiro Edvaldo Junior recebeu R$ 1,25 milhão dos Calheiros via gabinete”.
Trata-se de distorção da informação ou "fake news". O texto somou salários brutos de dez anos de trabalho, ferias, décimo terceiro e auxílio alimentação, criando a falsa sensação de benefícios ou recebimento de recursos ilícitos Uma distorção dirigida para atacar o jornalista ou tentar tirar a credibilidade do seu trabalho. Pior, os valores referem ao trabalho exercido em períodos anteriores, uma vez que o jornalista não mantém nenhum vínculo profissional com o Senado Federal na atualidade.
Não houve apenas coincidência de pauta ou aproveitamento das mesmas informações. Os três veículos publicaram a mesma redação, palavra por palavra.
A reprodução integral e o mesmo horário em dois portais demonstram que o material teve uma origem comum ou foi distribuído de maneira articulada. Os dados disponíveis, no entanto, ainda não identificam quem escreveu o texto ou quem comandou sua distribuição.
O padrão do T82
Um levantamento específico sobre o T82 mostra que o episódio não é isolado. O relatório analisou 85 publicações feitas entre 16 de julho e 10 de setembro de 2026, com leitura dos títulos e conteúdos.
Das 85 páginas examinadas, 64 apresentavam críticas ao Governo de Alagoas ou à estrutura estadual. O número corresponde a 75,3% da amostra. Em 12 casos, as críticas eram dirigidas diretamente a Paulo Dantas.
As categorias podem se sobrepor. Uma mesma publicação crítica a Paulo Dantas também pode estar incluída entre as 64 matérias negativas sobre o governo estadual. Por isso, esses números não devem ser somados.
No campo municipal, cinco publicações foram classificadas como favoráveis ou promocionais à Prefeitura, a JHC ou a Rodrigo Cunha. Apenas três continham críticas à Prefeitura ou às gestões de JHC e Rodrigo Cunha.
Nenhuma das 85 publicações foi identificada como elogiosa ou promocional ao Governo de Alagoas ou a Paulo Dantas.
Como o período começa em julho, o recorte não alcança a fase em que JHC ainda exercia o cargo de prefeito, antes de deixar a administração em abril. As referências positivas ao ex-prefeito aparecem principalmente no contexto eleitoral ou em balanços de ações de sua gestão, como Hospital da Cidade, UPAs e Previdência de Maceió.
Outro levantamento, com recorte mais amplo de 2026, contabilizou 139 publicações favoráveis a JHC e nenhuma crítica ao ex-prefeito. No mesmo período, foram registradas 47 matérias críticas a Paulo Dantas e nenhuma publicação promocional ao governador.
Os dois levantamentos têm períodos e critérios diferentes e, portanto, não podem ser somados. Ambos apontam, contudo, na mesma direção editorial: tratamento positivo para JHC e abordagem predominantemente negativa em relação ao grupo que governa o Estado.
JHC positivo, Renan Filho negativo
A página inicial do T82 consultada nesta quinta-feira (10/09) reforçava esse padrão. Cinco manchetes únicas apresentavam JHC de forma positiva, enquanto sete títulos davam tratamento negativo ou desfavorável a Renan Filho. Uma das matérias comparava diretamente os dois candidatos.
JHC aparecia associado a expressões como “vitória no primeiro turno”, “vantagem esmagadora”, “avanço” e “revolução”. Renan Filho era relacionado a chamadas como “não aponta nenhum caminho”, “fura-fila”, “não apresenta metas”, “deu ruim” e “contrariando a ciência”.
O próprio portal utiliza marcadores editoriais diferentes. Conteúdos positivos sobre JHC e sua gestão receberam expressões como “avanço”. Matérias contra Renan Filho e o jornalista Edivaldo Júnior foram acompanhadas por chamadas como “vixe”, “é cada uma!”, “deu ruim” e “absurdo”.
Essas escolhas não demonstram, isoladamente, orientação externa ou ilegalidade. Revelam, entretanto, que os dois lados da disputa eleitoral recebem tratamentos editoriais distintos.
Publicidade em 87% das páginas
O levantamento também verificou a presença de publicidade institucional. Das 85 páginas analisadas do T82, 74 exibiam banners da Prefeitura de Maceió. Apenas 11 não apresentavam anúncio municipal.
A publicidade estava presente em 87,1% da amostra. O dado estabelece uma relação comercial recorrente entre as campanhas da administração municipal e o espaço mantido pelo portal.
Durante a circulação do texto contra Edivaldo Júnior, o T82 e o Quarto Poder também exibiam banners da campanha “Cidade de Todos Nós”. No T82, o anúncio aparecia acima de uma matéria eleitoral favorável a JHC. No Quarto Poder, a mesma campanha estava posicionada no alto da página principal.
A presença dos anúncios não significa, por si só, que a Prefeitura tenha financiado ou determinado o ataque. Comprova, porém, que veículos usados na distribuição do texto também mantêm publicidade da administração municipal.
Valores não aparecem por veículo
A publicidade de Maceió é executada por intermédio de agências contratadas. Os pagamentos feitos às agências aparecem no Portal da Transparência, mas os repasses individualizados aos sites, rádios e perfis digitais não são apresentados de forma direta.
Para saber quanto foi destinado ao T82, ao Quarto Poder e aos demais veículos, é necessário obter planos de mídia, autorizações de inserção, relatórios de veiculação, notas fiscais e comprovantes de repasse mantidos pelas agências.
Esses documentos também permitiriam verificar os critérios usados para selecionar os portais, a audiência considerada e o valor pago a cada empresa.
Empresa de ex-assessor responde pelo T82
No caso do T82, a responsabilidade empresarial está documentada. Uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas identifica expressamente o portal como “LBA Comunicação Ltda. (T82 Notícias)”. A empresa apresentou defesa no processo como responsável pelo veículo.
A LBA pertence a Lucas Garcia Soares da Silva, seu único sócio e administrador. Lucas foi secretário parlamentar no gabinete de JHC, exerceu cargo comissionado na Prefeitura de Maceió e mantém relação política pública com o grupo Caldas.
Na ação, relacionada a publicações contra o senador Renan Calheiros, o TRE entendeu que os conteúdos analisados ultrapassaram os limites da informação jornalística e aplicou multa de R$ 5 mil à LBA/T82 por propaganda eleitoral antecipada negativa. A decisão pode ser questionada por recurso.
O processo não trata do ataque contra Edivaldo Júnior. É relevante porque confirma qual empresa responde pelo T82 e registra outro episódio em que o conteúdo político do portal foi examinado e punido pela Justiça Eleitoral.
O que falta esclarecer
A publicação simultânea, o texto repetido integralmente, o tratamento editorial dado aos grupos políticos, os vínculos do responsável pelo T82 e a presença de publicidade municipal formam um conjunto objetivo de fatos.
O material justifica aprofundar a investigação sobre uma rede de comunicação usada para promover JHC e atingir críticos e adversários do grupo que administra Maceió.
Ainda falta demonstrar quem coordena a distribuição dos conteúdos e se existe orientação política ou comercial para as publicações. Também é necessário saber quanto esses sites recebem das campanhas municipais.
As respostas estão nos registros de comunicação entre os envolvidos e, principalmente, nos planos de mídia e comprovantes de repasse que não estão disponíveis de maneira individualizada no Portal da Transparência.