
A melhor parte do futebol dos sábados com os oficiais da PMAL começa quando a bola para. Na resenha, os gols perdidos entram, os passes encontram o destino e sempre aparece uma decisão que teria mudado tudo.
Se tivesse tocado. Se chutasse antes. Se aquela bola entrasse…
Gosto de ouvir. Também tenho os meus “ses”. Mas uma coisa me intriga: por que quase sempre imaginamos que a outra escolha daria certo?
Quem garante?
O passe poderia ser interceptado. O chute, defendido. O gol poderia sair e, ainda assim, a vitória escapar. Curiosamente, na partida que cada um reconstrói, o adversário perde o direito de surpreender.
Escolhemos o lance que gostaríamos de mudar e deixamos o restante do jogo obedecer à nossa vontade.
Talvez por isso seja tão confortável escalar quem ficou no banco. Ele termina a partida sem errar um passe. O titular precisa enfrentar a marcação; o ausente tem a vantagem de enfrentar apenas a nossa imaginação.
E quem comenta futebol, como eu, precisa tomar cuidado com esse conforto. O resultado pode fazer uma escolha parecer absurda quando, minutos antes, ela parecia razoável. Saber como terminou não significa que fosse possível saber como terminaria.
É preciso discutir o erro, claro. Mas há uma diferença entre entender uma decisão e julgá-la com uma informação que só chegou depois.
Fora do campo, fazemos parecido.
A profissão que não seguimos teria dado certo. A oportunidade recusada teria mudado a vida. O caminho abandonado parece livre dos problemas que encontramos naquele que escolhemos.
Talvez tivesse sido melhor. Talvez não.
A vida que não aconteceu tem uma vantagem desleal sobre a vida vivida: nunca precisou enfrentar a realidade.
No próximo sábado, haverá mais futebol e mais “se”. Ainda bem. A resenha perderia muito sem ele.
Mas, entre uma risada e outra, vale reconhecer: às vezes, mudar o passado na conversa é só uma maneira de evitar admitir que falhamos.
O “se” pode até devolver a vitória na resenha. O perigo é devolver também a razão a quem precisava aprender com a derrota.