
No início da Copa, a principal discussão girava em torno do sistema. Era 4-2-4? Era 4-3-3?
O empate diante de Marrocos deixou claro que o problema do Brasil não seria resolvido apenas com um desenho diferente na prancheta.
Era preciso construir uma identidade. Os comportamentos seriam a consequência.
E foi exatamente isso que Carlo Ancelotti começou a fazer.
A evolução mais evidente apareceu sem a bola. Um dos maiores problemas da Seleção durante as Eliminatórias era a transição defensiva. O Brasil demorava para reagir após perder a posse, concedia espaços e sofria justamente nesse momento do jogo.
Hoje acontece o contrário.
A pressão passou a ser coordenada, as distâncias entre os setores diminuíram e a recuperação da bola acontece cada vez mais perto do gol adversário.
Não é uma pressão desorganizada. É uma armadilha.
Vini Jr e Rayan fecham as linhas de passe para os laterais, Matheus Cunha condiciona a saída pelo corredor central e o restante da equipe encurta os espaços. O adversário é conduzido ao erro.
Foi assim que nasceu o primeiro gol contra a Escócia.
Normalmente, nossos olhos acompanham quem está com a bola. Ancelotti faz olhar para quem está sem ela. E talvez seja justamente aí que a Seleção mais tenha evoluído.
Com a posse, a engrenagem também começa a funcionar de forma cada vez mais clara.

O tripé formado por Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá dá sustentação ao jogo, mas não se limita à proteção defensiva. Bruno, especialmente, veste a camisa 8, mas interpreta muitas vezes o papel de um camisa 10. Recebe entre linhas, explora as costas dos volantes adversários e passa sempre para frente. É o tipo de jogador que une visão de jogo e qualidade na execução.
À frente deles, Matheus Cunha exerce uma função silenciosa, mas decisiva. Deixa constantemente a referência entre os zagueiros para atuar como um falso 9 e formar, em muitos momentos, um losango pelo corredor central.

Mais importante do que o desenho é o efeito que ele produz.
Ao aproximar o jogo por dentro, arrastar marcadores e abrir linhas de passe, Matheus Cunha cria o cenário ideal para Vinicius Júnior receber a bola onde mais desequilibra.
Talvez a pergunta durante todos esses anos tenha sido equivocada.
Não era por que o Vinicius do Real Madrid não aparecia na Seleção. Era como fazer esse Vinicius aparecer.

Pela primeira vez, vemos na Amarelinha o mesmo jogador que encantou o mundo sob o comando de Ancelotti.
Mais livre, agressivo e decisivo.
Durante anos ouvimos que a Argentina construiu uma equipe para potencializar Messi.
Ancelotti parece seguir uma lógica semelhante.
Não significa jogar exclusivamente para Vinicius.
Significa construir mecanismos coletivos para que o principal talento da equipe receba a bola nas condições em que mais faz a diferença.
A escolha por Rayan também reforça essa ideia. Ancelotti parece menos preocupado em repetir escalações e mais interessado em repetir comportamentos. Cada adversário exige características diferentes, e a equipe é montada a partir dessa leitura.
Essa talvez seja a maior virtude do treinador italiano.
Ele não escolhe apenas um time.
Escolhe uma estratégia.
O time é consequência. Ainda é cedo para colocar o Brasil como favorito absoluto.
Mas quando uma equipe começa a repetir comportamentos, potencializa seu principal jogador e apresenta diferentes maneiras de atacar e defender, o sinal naturalmente se acende.