Relatório preliminar do Cenipa revela possíveis causas da queda do helicóptero que matou o cantor Rick e mais quatro pessoas em SC
Reporte preliminar do Cenipa detalha os últimos minutos do helicóptero antes da queda no Parque Nacional de São Joaquim, na Serra de Santa Catarina

O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) divulgou um relatório preliminar da investigação da queda do helicóptero que matou o cantor Rick e mais quatro pessoas, em Urubici, na Serra de Santa Catarina.
Tudo em um só lugar.
Receba notícias da GazetaWeb no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo!

De acordo com o documento, divulgado nesta quinta-feira (22), a aeronave colidiu a mais de 1.600 metros de altitude e caiu no Morro Convento dos Padres, no Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici.
Leia também
Fatores meteorológicos adversos e falhas históricas nos geradores e piloto automático são algumas das possibilidades da queda da aeronave.
Documento revela que caixa-preta não gravou áudio


Presidente do PT em Alagoas crê na virada de Lula na reta final da Eleição

Proposta que estabelece emendas impositivas de bancada avança na ALE

Soldado que fugiu do quartel com fuzil e munições se entrega sem armamento

Advogada de toalha tenta derrubar porta de vizinha no chute; veja o vídeo
Apesar da legislação não exigir gravadores de voo para essa categoria de operação privada, o Bell 430 estava equipado com um CVR (Cockpit Voice Recorder – Gravador de Voz da Cabine) modelo Honeywell.
No entanto, ao extrair os dados no laboratório do Cenipa, os investigadores constataram que o equipamento não registrou o áudio do voo do acidente. As gravações encontradas eram antigas e continham apenas conversas referentes a um serviço de manutenção realizado em data indeterminada.
O Cenipa identificou que o teste diário de funcionamento do CVR no painel não constava na lista de checagem de rotina utilizada pelos pilotos.
O roteiro da viagem e a mudança de planos
A aeronave, pertencente à empresa JTA Empreendimentos e Urbanismo Ltda., decolou às 10h49 (horário de Brasília) do Aeródromo Costa Esmeralda (SDEN), em Porto Belo, no Litoral Norte de Santa Catarina.
O plano inicial da viagem previa um trajeto dinâmico de negócios e lazer pelo Estado:
Decolagem de Porto Belo com destino a Criciúma (pouso em campo de futebol ao lado de uma fábrica de tintas);
Deslocamento para São Joaquim para buscar mais um passageiro;
Sobrevoo de um empreendimento e almoço em uma vinícola ao norte de São Joaquim;
Voo final até Rancho Queimado para pernoite na propriedade de um dos ocupantes.
Contudo, o mau tempo no Sul de Santa Catarina alterou os planos. Devido à chuva em Criciúma, a tripulação adiou a decolagem, reabasteceu o helicóptero em Porto Belo (acrescentando 60 litros de querosene no tanque auxiliar, garantindo autonomia de 2h20) e decidiu cancelar a parada no Sul, partindo diretamente para a Serra Catarinense.
Momentos antes da queda do helicóptero que matou Rick
Por volta das 11h05, os pilotos fizeram o primeiro contato com o Controle de Aproximação de Florianópolis e informaram estar sobre a posição Salseiro (região de Camboriú/Itapema) e solicitaram voar a 1.000 pés do solo. Dados de radar do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (SISCEAB) registraram que o helicóptero subiu ao longo da rota, atingindo até 5.400 pés de altitude.
Às 11h32, um morador de Urubici, a cerca de 2,5 km do local do impacto, gravou um vídeo de 18 segundos. As imagens mostram o Bell 430 voando em direção à Serra da Boa Vista antes de ingressar completamente em uma espessa camada de nuvens.
Câmeras de segurança de outra residência registraram o som dos motores aumentando de intensidade e cessando abruptamente às 11h32min37s.
O helicóptero colidiu contra as árvores na encosta norte do Morro Convento dos Padres, a 1.686 metros de altitude — bem próximo ao cume da montanha, que possui 1.790 metros.
O tipo de ocorrência foi classificado como CFIT (Controlled Flight Into Terrain — Voo Controlado Contra o Terreno), quando uma aeronave sob controle dos pilotos é conduzida não intencionalmente contra o solo ou relevo devido à perda de visual das referências terrestres.
Condições meteorológicas afetaram o voo
A investigação revelou que a região Serrana enfrentava tempo extremamente adverso no momento do acidente:
uma frente fria avançava pelo Sul do Brasil com pancadas de chuva, nuvens baixas e trovoadas.
avisos meteorológicos alertavam para obscurecimento de montanhas na Serra Geral e teto de nuvens muito baixo.
Imagens do DTCEA-MDI (Destacamento de Controle do Espaço Aéreo do Morro da Igreja), a 8 km do local, confirmaram visibilidade severamente reduzida e nevoeiro denso nas cristas da serra.
Histórico de panes na aeronave
O relatório detalha depoimentos e registros mecânicos que apontam falhas recorrentes em sistemas importantes do helicóptero nos meses anteriores ao acidente:
Geradores elétricos: mecânicos e relatos confirmaram que a aeronave apresentava falhas intermitentes nos geradores, especialmente durante exposição à umidade (voos dentro de nuvens ou sob chuva). Após trocas de posições das peças em maio de 2026, as falhas passaram a ocorrer alternadamente nos dois geradores. O mecânico responsável havia recomendado um novo retorno da aeronave à oficina, o que ainda não havia ocorrido.Piloto Automático: houve relatos de desconexões involuntárias do sistema de piloto automático em voo. Em março de 2026, um servo atuador precisou ser substituído após falha na linha de comando de arfagem (pitch).Vibração no Rotor: em março de 2026, o helicóptero realizou um pouso não programado em Ibiaçá, no Rio Grande do Sul, devido a uma forte vibração. O problema foi sanado nos amortecedores de vibração e reavaliado com sucesso em agosto de 2026.
Perfil dos pilotos
O piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo tinha licença de Piloto de Linha Aérea de Helicóptero, com habilitação para Voo por Instrumentos e exame médico válidos. Acumulava mais de 11.300 horas de voo em helicópteros ao longo da carreira. Trabalhava para o operador desde agosto de 2026, sem vínculo empregatício formal registrado.
Já o copiloto Leopoldo Barros Teixeira tinha licença de Piloto Comercial e CMA válidos, mas não possuía habilitação para Voo por Instrumentos. Tinha 137 horas totais de voo e foi contratado como freelancer exclusivamente para aquele dia, pois o co-piloto titular do operador estava indisponível.
Próximos passos
Os destroços do helicóptero se espalharam por uma área íngreme e de densa vegetação. As pás do rotor cortaram o topo das árvores antes do impacto final, e os tanques de combustível romperam, gerando forte odor de querosene no local.
O Cenipa recolheu computadores de bordo, painéis eletrônicos, GPS e unidades de controle dos motores para tentar recuperar dados de memória interna. Telefones celulares e tablets das vítimas estão sob custódia da Polícia Científica de Santa Catarina.
O Relatório Final com as conclusões definitivas será publicado no site do Cenipa após o encerramento das análises técnicas e laboratoriais.
