
Ronaldo Lessa chegou a 2026 como vice-governador de Alagoas, com estrutura, cargos, influência no governo e mais de uma alternativa para continuar na vida pública. Dificilmente terminará o ano com a mesma força.
No dia 23 de abril, uma virada de casaca inesperada. De vice de Paulo Dantas, ele seria vice de JHC. Seria. Poucos meses depois, Lessa está fora das eleições, insatisfeito com o candidato a governador do PSDB e tentando reconstruir a relação com o governador.
“Lessa tem ligado para o Paulo todos os dias”, disse ao blog uma fonte próxima ao governador.
A informação aparece no momento em que o PDT começa a discutir o futuro da aliança com JHC. As executivas estadual e de Maceió se reuniram ontem (16/09) e autorizaram a retomada de conversas com Paulo Dantas. Nos bastidores do partido, a insatisfação de Lessa domina as conversas.
Um interlocutor que participou das discussões resumiu o ambiente: acredita que o vice-governador pode deixar o grupo de JHC nos próximos dias. "Até a próxima terça ele vai romper", avisa.
A história começou com uma promessa. Lessa deixou o governo acreditando que seria o candidato a vice de JHC. Era uma mudança importante para quem é o vice-governador de Paulo, adversário do candidato do PSDB, e mantinha influência sobre espaços como a Seprev, a Seades e uma estrutura de mais de uma centena de cargos.
O vice também deixou para trás alternativas eleitorais. Tinha recebido sinalização para disputar o Senado no grupo de Paulo Dantas e Renan Filho e havia ainda a possibilidade de concorrer a deputado federal pelo MDB, com apoio da estrutura política governista.
Lessa preferiu apostar em JHC, de quem tinha sido vice-prefeito e com quem rompeu por insatisfação.
O vice foi deixado paera trás, escanteado. Literalmente. A vaga de vice acabou entregue a Célia Rocha. Como compensação, Lessa foi colocado na segunda suplência de Marina Candia ao Senado. Era pouco para um ex-governador de dois mandatos, ex-prefeito de Maceió e atual vice-governador, mas ainda haveria uma nova tentativa de acomodação.
Segundo relatos publicados à época, ficou acertado que Lessa renunciaria à segunda suplência para assumir a primeira, hoje ocupada por Eudócia Caldas. Ele renunciou. Eudócia ficou. JHC alegou insegurança jurídica para não realizar a mudança e Lessa terminou definitivamente fora da disputa, substituído por Jurandir Boia.
É difícil imaginar uma sequência mais desfavorável para alguém que começou o ano numa posição tão confortável. O problema de Lessa agora não é apenas sair de JHC. É descobrir para onde ir.
Paulo Dantas não fechou as portas. Ao contrário, já disse que Lessa foi “enganado” por JHC, numa declaração que pode ser interpretada como gesto político ao antigo aliado. Mas uma coisa é permitir a reaproximação. Outra, bem diferente, é devolver a estrutura que Lessa tinha antes de romper.
Nesse intervalo, cargos foram ocupados, espaços foram reorganizados e a campanha entrou na reta decisiva. Paulo tem candidato, alianças montadas e problemas mais urgentes do que reconstruir a posição política de quem decidiu deixar o governo.
Esse talvez seja o maior drama de Lessa. Ele pode romper com JHC e começar a reconstruir a relação com Paulo. Pode até reencontrar abrigo político no grupo do qual saiu. Mas dificilmente voltará, pelo menos agora, à mesma condição que abandonou.
Lessa trocou uma posição concreta por uma promessa. A promessa não foi cumprida. Depois aceitou uma segunda composição, que também não se realizou. Para quem já governou Alagoas duas vezes, foi deputado estadual, vereador, prefeito, vice-prefeito, secretário e ministro é uma política da amargura e tanto.