‘É 44 vida’, o número que mudou a história do rap brasileiro
Mc Luanna chega à Maceió pela primeira vez em show no Festival Delas. A artista conversou com o Caderno B sobre música e caminhos para a cena.

06/08/2026 às 15:02 • Atualizada em 06/08/2026 às 15:37 - há XX semanas
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Se você acompanha os nomes do rap brasileiro, provavelmente reconheceu a frase que abre esta entrevista. Marca registrada de MC Luanna, o número deixou de ser apenas o endereço da casa da cantora para se transformar em uma assinatura — um símbolo facilmente reconhecido por quem acompanha o rap feito por mulheres no país.
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E não por acaso. Nos últimos anos, essas vozes passaram a ocupar um espaço cada vez maior na cena. Segundo dados do Spotify, o número de ouvintes de artistas mulheres cresceu mais de 200% desde 2019. Embora a disputa por espaço ainda faça parte da realidade do gênero, essa expansão já pode ser percebida para além das plataformas de streaming: ela também chega aos palcos.
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Maceió acompanha esse movimento. Só no segundo semestre deste ano, a capital recebe nomes como Ebony, Tasha & Tracie e MC Luanna, que desembarcou na cidade no último fim de semana para se apresentar no Festival Delas, ao lado da rapper alagoana Huná e da DJ Clariar.
Baiana criada em São Paulo, Luanna nunca imaginou que faria do rap sua profissão. Hoje, transformou a própria trajetória em matéria-prima para uma obra que transita entre as referências do hip-hop dos anos 1990 e 2000, o desejo, a autoestima e a liberdade de existir. Assim como seu número oficial, que, na numerologia significa força, capacidade de transformar sonhos em realidade e trabalho árduo, essas também são características da cantora.


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Em conversa com o Caderno B, ela falou sobre a chegada a Maceió, o crescimento do rap feito por mulheres e os caminhos que a cena ainda precisa percorrer para se tornar mais diversa e coletiva.
CADERNO B - Em Irrefreável, você olha para o hip-hop dos anos 1990 e 2000 sem abrir mão de uma sonoridade muito atual. O que você encontrou nesse passado que ainda conversa com a artista que você é hoje?
MC LUANNA - Encontrei a Luana pessoa física, que não sabia de nada antes de entrar nesse mundo, uma inocência e sem tanta pressão pra fazer acontecer. Isso fez com o que o processo fosse mais leve, mais divertido - como eu costumava ser antes.
Você chega a Maceió em um momento onde a cidade começa a receber também outros nomes da cena. O que muda no rap feito por mulheres quando cidades fora do eixo Rio-São Paulo passam a ocupar esse circuito?
Eu acho mágico, porque finalmente conseguimos acessar uma totalidade maior das pessoas que nos consomem, e também conseguimos consumir e trocar com artistas locais que geralmente não conseguimos acessar só virtualmente.
Em "Esconde Sua Namorada", você transforma desejo e afeto entre mulheres em tema central da música. Cantar sobre prazer também pode ser entendido como um ato político?
Com certeza, o rap é um dos canais principais de comunicação e educação com a nova geração. A força e coragem de sermos nós mesmas em uma sociedade que reprime tem a base de enxergar pessoas iguais à nos, com as nossas características, nossa forma de se apresentar pro mundo.
Historicamente, o rap brasileiro foi muito associado à denúncia social. Você acha que ainda existe uma expectativa de que mulheres negras só possam falar de dor para serem levadas a sério?
Sim e não. Acredito que chegamos em uma época com uma liberdade de expressão maior, pra falarmos o que quisermos. Porém nos deparamos com pessoas se odiando, presas em relacionamentos tóxicos e temos como dever cultural trazer essa narrativa e tornar isso coletivo. Algumas pessoas não entendem que as coisas mudaram, as linguagens são outras e o público também, mas não é o nosso dever nem a nossa vontade falar sério sempre pra ser validada.
Existe um discurso recorrente de que o rap feminino vive um "boom". Você concorda com essa leitura ou acha que ela acaba apagando décadas de mulheres que abriram caminho antes dessa geração?
Concordo com a leitura, mas discordo que ela apaga. Se estamos aqui hoje é porque existiram e existem mulheres que vieram antes de nós, porém acredito que a repressão que existia antes era muito maior. E hoje encontramos mais liberdade para abordar assuntos que seriam repudiados no passado, e talvez seja por isso que também sofremos tanta crítica. Algumas pessoas não aceitam que falar de auto estima e ter a liberdade de expressão tal qual um homem é considerado rap.
No dia 6 de agosto é celebrado o Dia do Rap. Quando você olha para a cena brasileira hoje, qual conversa acha que o rap ainda precisa ter para continuar sendo uma ferramenta de transformação?
O rap precisa voltar a pensar coletivo. Precisam se questionar porque não existe equidade. Da produção, dos valores de cachês, o público sobre o que escuta e quem escuta.