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Gregório Duvivier fala sobre poesia, IA e política antes de apresentar 'O Céu da Língua'

Em entrevista, Gregório Duvivier reflete sobre poesia, oralidade, inteligência artificial e o papel da língua portuguesa


				Gregório Duvivier fala sobre poesia, IA e política antes de apresentar 'O Céu da Língua'
Annelize Tozetto

Pra que serve a poesia?
Furar a noite mais funda?
Clarear a alma nublada?
Suavizar o existir?
Quase tocar o impossível?
Para odiar? Para amar?
Caber onde nunca coube?
Saber o que nunca soube?
Sentir? Ou só (de)sentir?
Inventar novas palavras?
Ou unir todo um país?

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Dizem que a poesia não serve para nada. O fazem para atacá-la e para defendê-la. O fato é que ninguém nunca pergunta em um avião se tem algum poeta a bordo. É uma pena.

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Para Gregório Duvivier, na origem de todas as palavras havia um poeta. É isso que ele defende no palco de "O Céu da Língua", espetáculo teatral que chega a Maceió nesta segunda e terça-feira, 3 e 4 de agosto, no Teatro Gustavo Leite, às 19h. Ainda há ingressos à venda.

O monólogo cômico sobre a língua portuguesa tornou-se um fenômeno, com mais de 300 mil espectadores em passagens por dez países e mais de 50 cidades.

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O reconhecimento também veio de prêmios importantes, como o Bibi Ferreira, e da crítica especializada. No Brasil e no exterior, o texto de Gregório Duvivier e Luciana Paes é frequentemente apontado como um marco da dramaturgia contemporânea, sustentado por uma ideia que atravessa cada cena.


				Gregório Duvivier fala sobre poesia, IA e política antes de apresentar 'O Céu da Língua'
Annelize Tozetto

"Dengo", "xodó". Mas também "maracutaia", "trambique". A linguagem revela o povo que a instrumentaliza, e é essa potência criadora que está por trás dos números. Na terra de Jorge de Lima, com seus poetas e cantadores, Duvivier reconhece que o espetáculo ganha uma outra dimensão.

A mesma força aparece em "o coração disparou" ou "bateu uma preguiça", frases repetidas todo dia, sem que ninguém pare para notar que são, de alguma maneira, poéticas. Boa parte da língua nasceu assim, de gente comum inventando imagem para dar conta do que sentia, e séculos depois seguimos repetindo metáforas sem lembrar quem inventou. Essa é outra ideia que sustenta "O Céu da Língua": a de que o poeta mora escondido em qualquer boca, não só na do escritor consagrado.

Essa lógica moldou também a escrita do texto, num processo que Gregório Duvivier descreve mais como fala transcrita do que como escrita no sentido tradicional. O ator afirma que boa parte do que hoje chamamos de norma culta nasceu do erro de alguém, um deslize que, com o tempo, virou regra, e que essa mesma criação segue acontecendo toda vez que alguém abre a boca para falar de qualquer coisa. Ele ressalta ainda que há muita paixão nesta última flor do Lácio, como dizia Olavo Bilac, ao comparar a língua portuguesa a um broto tardio do latim.

A oralidade caiu na estrada. Duvivier chega a Maceió como parte de uma nova turnê que passa pelas capitais do Nordeste. O trajeto vem sendo cumprido em um ônibus plotado, o que o ator definiu como a realização de um sonho. "Me sentindo uma dupla sertaneja", brincou.


				Gregório Duvivier fala sobre poesia, IA e política antes de apresentar 'O Céu da Língua'
PRISCILA PRADE

E na estrada, ele sempre volta a esta pergunta: para que serve a poesia? Ninguém sabe dizer ao certo, e talvez seja melhor o mistério. Mas num ano de eleição, quando quase tudo parece motivo de racha, resta perguntar também se essa mesma poesia escondida no cotidiano pode reaproximar quem já não se fala, restabelecer um diálogo. É sobre isso, a oralidade e a construção de um país a partir da língua, que segue a conversa logo abaixo, concedida com exclusividade à Gazeta de Alagoas.

GAZETA DE ALAGOAS. Hoje a inteligência artificial e o corretor automático tentam “consertar” a língua no cotidiano. Faz sentido comemorar o erro e a invenção como poesia justamente agora? Se fosse escrever a peça hoje, o ChatGPT entraria como um personagem invisível?

GREGÓRIO DUVIVIER. Eu acho que vale, mais do que nunca, comemorar o erro e a invenção atualmente. O erro é o que torna a gente humano. Por isso, escrever é humano, como diz o nosso querido Sérgio Rodrigues. O ChatGPT não sabe escrever uma peça e nem acho que seria ou deveria ser personagem de nada. Porque ele não é humano. É preciso ser humano para ser arte.

A peça chega a Alagoas, terra de Jorge de Lima e de uma forte tradição oral. Já parou para pensar que o Nordeste já pratica na rua aquilo que a peça, creio eu, traz como “tese”?

Sim, de fato. O Nordeste é um lugar onde a poesia já está viva. É oral e popular. Por isso é tão especial trazer essa peça para cá, porque aqui as pessoas respiram poesia, uma poesia falada. O verso está muito mais presente na poesia daqui e na fala também. É uma coisa muito bonita. Então, de fato, aqui a peça toma outra dimensão.

Como foi o processo de escrita ao lado de Luciana Paes? Há uma diferença entre o texto de um comediante e esse outro tipo de dramaturgia?

Eu e Luciana escrevemos juntos, mas, na verdade, foi algo que a gente foi falando e transcrevendo, muito mais do que escrevendo. Luciana é atriz também, então a gente foi quase levantando a peça enquanto íamos falando. E, sim, o texto tem como base a oralidade e é muito diferente dos outros textos, do tradicional. A peça é uma mistura de muitos gêneros: tem um pouco do stand-up, do monólogo, do musical, é uma miscelânea de gêneros. E isso é algo que me faz gostar ainda mais desse texto.


				Gregório Duvivier fala sobre poesia, IA e política antes de apresentar 'O Céu da Língua'
PRISCILA PRADE

O que é a poesia para você? E por qual razão é importante defendê-la nos dias atuais?

Ah, a poesia... eu poderia ficar aqui falando dez anos sobre isso. Nunca se chegou a um consenso sobre o que é a poesia. E acho que ela é justamente aquilo que escapa às definições. É voar fora da asa, como dizia Manoel de Barros. E defender a poesia é defender o supérfluo, tudo aquilo que faz a vida valer a pena e não cabe em números, planilhas. Isso é poesia. É importante defendê-la. É importante lembrar que a vida não é útil.

A língua molda o sujeito. Consequentemente, um país. Como a nossa língua moldou e vem moldando o Brasil na sua visão?

A língua molda o sujeito e o sujeito molda a língua. Uma coisa vai moldando a outra. E a língua que se fala no Brasil é especialmente a nossa cara, uma língua cheia de carinho, de afeto, de diminutivos. Mas, claro, tem todo um léxico da mamata, da maracutaia, do trambique também. Isso diz muito sobre os nossos desvios, mas o léxico do carinho diz muito sobre nossos carinhos, como dengo e xodó. É um retrato da gente e acaba definindo a gente. É um espelho. Então, pensar sobre ela é pensar sobre a gente. O que é fundamental.

Vi que você cita Pessoa e Galindo falando de mátria e frátria — a língua como fraternidade sem fronteira. Depois de rodar tantos países lusófonos, essa fraternidade resiste de fato às diferenças políticas entre eles hoje ou é mais desejo do que realidade?

A fraternidade existe, sim. Além de falar português, eu vejo que a gente tem muito mais em comum. É uma maneira de estar no mundo. A gente viu isso recentemente com Cabo Verde na Copa do Mundo, a gente torcendo por eles, por Angola, Moçambique, Portugal. Tem sim uma fraternidade, o que é um desejo, mas ela existe de fato. A gente imediatamente se sente irmanado — eu, pelo menos, me sinto irmanado com quem divide a mesma língua.


				Gregório Duvivier fala sobre poesia, IA e política antes de apresentar 'O Céu da Língua'
PRISCILA PRADE

Depois de tantas plateias diferentes, o que ainda te surpreende nessa peça?

O que está me surpreendendo na peça é a longevidade, que tem a ver com o fato de as pessoas quererem vê-la mais de uma vez. É muito legal, mas eu estou assustado, pensando que vou fazer isso para sempre. É um concurso público essa peça para mim, praticamente. E eu estou adorando porque é um pouco de estabilidade na vida do artista, que é normalmente muito conturbada.

A peça celebra o que todo brasileiro tem em comum, seja qual for o voto. Num ano de eleição, encontrar poesia na fala de todo mundo é, também, um gesto político?

Sim, isso é outra coisa que eu gosto muito na peça, o fato de ela unir pessoas que pensam diferente. Ela não é uma peça só para um público nichado do teatro, de esquerda, progressista e tal. Ela é uma peça que está construindo pontes com pessoas que estão em outros lugares do espectro político. E nesse ano, isso é especialmente importante. A gente lembrar que tem muito mais o que nos une do que o que nos separa. E a poesia é uma dessas coisas que nos une. A palavra é algo que nos une. A gente é um país que, mesmo estando em lados opostos, segue falando a mesma língua. E lembrar disso, eu acho que é muito importante.

E eu acho também que a poesia, às vezes, mais do que o humor, é capaz de fazer pontes. Porque o humor bate necessariamente, né? Todo humorista precisa bater em alguém. O humor é pugilismo. Não existe humor inofensivo — humor sem arestas, sem pontas, não tem graça nenhuma. E eu acho que por isso ele, necessariamente, separa um pouco. Porque no humor você não ri de quem está batendo em você, sabe? Ele é mais agressivo, por isso eu acho que ele constrói menos pontes, pelo menos na minha experiência.

A poesia une. Se você se emociona, se gosta de uma palavra, você se une. Estou vendo com essa peça que é perfeitamente possível uma pessoa de direita, por exemplo, se emocionar com um poema de João Cabral de Melo Neto, se revoltar com o Acordo Ortográfico. Eu acho que são coisas que nos unem. No fundo, a língua e a poesia estão além das diferenças. Então, estou gostando muito disso também, de sentir que a peça cria pontes.

Perdão pelo anglicismo, mas tem um retorno que eu recebo muito. O pessoal diz: “Ah, levei meu pai, com quem eu não falava há muito tempo por causa de política, ele adorou a peça, e olha que ele te odeia”. Isso é comum, a pessoa fala: “Eu não gosto de você, não, mas eu amei sua peça.” Isso é o que me deixa mais feliz, saber que a peça é maior do que eu.

SERVIÇO

  • O quê: Espetáculo “O Céu da Língua”, com Gregório Duvivier
  • Onde: Teatro Gustavo Leite, Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá, Maceió
  • Quando: 3 e 4 de agosto (segunda e terça), às 19h
  • Duração: 85 minutos
  • Classificação: 12 anos
  • Ingressos: Plateia A, R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia); Plateia B, R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia); Mezanino, R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia)
  • Onde comprar: Viva Alagoas (Maceió Shopping) e Sympla

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