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A balança não conta toda a história

O que realmente determina a qualidade do emagrecimento


				A balança não conta toda a história

Quem emagreceu mais teve, necessariamente, o melhor resultado?

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Essa parece uma pergunta simples. Afinal, fomos ensinados a acreditar que, quando o assunto é emagrecimento, quanto menor o número na balança, maior o sucesso. No entanto, alguns dos processos mais importantes do organismo não aparecem nela.

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Imagine duas mulheres que iniciaram um processo de emagrecimento pesando exatamente 100 quilos. Alguns meses depois, a primeira perdeu 10 quilos. A segunda perdeu 24. À primeira vista, a resposta parece óbvia: a segunda teve um resultado melhor. Afinal, perdeu mais que o dobro do peso em menos tempo.

A resposta, porém, pode não ser tão simples. Basta olhar um pouco além da balança para perceber que ela mostra apenas parte da história.

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A primeira reorganizou sua alimentação, iniciou um programa de exercícios orientado e fez do emagrecimento um processo gradual. Ao longo desse caminho, reduziu gordura corporal, preservou sua musculatura e ganhou força, disposição e qualidade de vida. A segunda chegou a um número muito menor na balança. Entretanto, parte importante do peso perdido não veio apenas da gordura. Junto com ela, também foi embora uma parcela significativa da massa muscular.

As duas emagreceram. Mas apenas uma delas construiu um organismo mais preparado para os próximos anos. Talvez esteja justamente aí a diferença entre perder peso e emagrecer com qualidade.

A balança aceita qualquer perda. O organismo, não. Quando o número diminui, ela não distingue se você perdeu gordura, água, glicogênio ou massa muscular. Para o corpo, entretanto, essa diferença faz toda a diferença.

— Acássia Marina, no artigo

É por isso que perder peso não é exatamente o mesmo que perder gordura. Muito do que chamamos popularmente de "emagrecimento" pode acontecer às custas de tecidos que gostaríamos de preservar.

Preservar músculo é preservar movimento

Durante muito tempo, a musculatura foi associada quase exclusivamente à estética. Hoje sabemos que ela representa muito mais do que isso. É a musculatura que nos permite levantar da cama, subir escadas, carregar compras, brincar com os filhos, praticar esportes e manter nossa independência ao longo da vida. Preservar músculo é preservar movimento, autonomia e qualidade de vida.

Um organismo que consegue manter sua massa muscular durante o emagrecimento tende a permanecer mais forte, mais funcional e mais preparado para continuar ativo. Existe também uma vantagem metabólica. Embora o músculo não seja o tecido de maior consumo energético do organismo em repouso, ele demanda mais energia para ser mantido do que o tecido adiposo.

Isso significa que duas pessoas com o mesmo peso podem apresentar gastos energéticos basais diferentes quando possuem composições corporais distintas. De forma geral, aquela com maior proporção de massa muscular tende a gastar um pouco mais de energia em repouso do que outra com maior percentual de gordura.

Mas talvez o maior benefício seja outro. Um corpo mais forte tende a produzir um verdadeiro círculo virtuoso. Ele se movimenta mais, tolera melhor o exercício, consegue treinar com maior qualidade e permanece fisicamente ativo com mais facilidade. Como consequência, aumenta seu gasto energético diário não apenas pelo metabolismo basal, mas principalmente porque continua em movimento.

O oposto também pode acontecer. Quando uma parcela importante da massa muscular é perdida durante o emagrecimento, a pessoa pode se sentir mais fraca, reduzir espontaneamente seu nível de atividade física, treinar menos e, consequentemente, gastar menos energia ao longo do dia. Com isso, manter os resultados conquistados tende a se tornar mais difícil.

Emagrecer com qualidade

O objetivo deixa de ser apenas perder peso. O verdadeiro desafio é emagrecer com qualidade: reduzir gordura corporal enquanto preservamos aquilo que nos mantém fortes, ativos e independentes.

É justamente por isso que alimentação e exercício físico não competem entre si. Eles trabalham juntos. Uma alimentação bem planejada fornece os nutrientes necessários para a manutenção dos tecidos do organismo. Já o treinamento de força envia um estímulo fisiológico importante para que o corpo compreenda que aquela musculatura continua sendo necessária.

Em uma linguagem simples, é como se o exercício lembrasse constantemente ao organismo: "Eu ainda preciso desse músculo." Quando alimentação e exercício caminham juntos, aumentamos as chances de que a maior parte da perda de peso venha do tecido que realmente queremos reduzir: a gordura corporal.

Um cuidado ainda mais importante para as mulheres

Nas mulheres, essa discussão ganha ainda mais relevância. Com a chegada da menopausa, a redução da produção de estrogênio favorece alterações na composição corporal, aumentando a tendência à perda progressiva de massa muscular e ao acúmulo de gordura, especialmente na região abdominal.

Preservar musculatura, nesse contexto, deixa de ser apenas uma estratégia para emagrecer melhor. Passa a ser uma forma de proteger força, autonomia e qualidade de vida nas próximas décadas. Afinal, um organismo forte não é aquele que apenas pesa menos. É aquele que continua capaz de viver plenamente.

Talvez, então, a pergunta nunca devesse ser apenas: "Quantos quilos você perdeu?" Talvez a pergunta mais importante seja: "O que você conseguiu preservar enquanto emagrecia?" Cuidar da saúde é justamente isso: criar condições para que o corpo preserve aquilo que o tempo naturalmente tentará levar: força, movimento, autonomia e qualidade de vida. No fim, longevidade não deveria significar apenas viver mais anos, mas permanecer verdadeiramente vivo dentro deles.

SOBRE A AUTORA

Acássia Marina

Nutricionista Esportiva – CRN 34425 | Educadora Física – CREF 010330

Acadêmica do último ano de Medicina.

Especialista em Nutrição Esportiva, Alimentação Vegetariana e Vegana, Fitoterapia e Nutracêuticos. Atua com foco em composição corporal, metabolismo, emagrecimento, saúde da mulher, promoção da saúde e longevidade, por meio de uma abordagem integrada baseada em evidências científicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULL, Fiona C. et al. World Health Organization 2020 guidelines on physical activity and sedentary behaviour. British Journal of Sports Medicine, London, v. 54, n. 24, p. 1451-1462, 2020.

CAVA, Emanuele; YEAT, Nicole C.; MITTENDORFER, Bettina. Preserving healthy muscle during weight loss. Advances in Nutrition, Rockville, v. 8, n. 3, p. 511-519, 2017.

CHASTON, Tim B.; DIXON, John B.; O'BRIEN, Paul E. Changes in fat-free mass during significant weight loss: a systematic review. International Journal of Obesity, London, v. 31, n. 5, p. 743-750, 2007.

HEYMSFIELD, Steven B. et al. Weight loss composition is one-fourth fat-free mass: a critical review and critique of this widely cited rule. Obesity Reviews, Oxford, v. 15, n. 4, p. 310-321, 2014.

LONGLAND, Thomas M. et al. Higher compared with lower dietary protein during an energy deficit combined with intense exercise promotes greater lean mass gain and fat mass loss: a randomized trial. The American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda, v. 103, n. 3, p. 738-746, 2016.

MORTON, Robert W. et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, London, v. 52, n. 6, p. 376-384, 2018.

VILLAREAL, Dennis T. et al. Aerobic or resistance exercise, or both, in dieting obese older adults. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 376, n. 20, p. 1943-1955, 2017.

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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