O novo carrinho: como as canetas emagrecedoras mudaram o varejo no Brasil e em Alagoas
Medicamentos transformam o que vai às gôndolas e antecipam mudança de consumo que já chegou ao pequeno varejo alagoano

Maylson Honorato
11/06/2026 às 18:36 • Atualizada em 11/06/2026 às 18:47 - há XX semanas
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Dona Maria Cleide não esperava que uma “caneta” mudasse a forma como a família dela faz compras. A aposentada mora no bairro do Trapiche, em Maceió, e desde fevereiro convive com dois usuários de medicamentos injetáveis à base de GLP-1 dentro de casa. A filha foi a primeira, depois o marido aderiu. Além da saúde e dos hábitos, o carrinho de compras mudou.
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"A gente precisou aprender de novo a comer, porque precisa ser menos, precisa ter mais fruta, mais comida de verdade, mais proteína também. Então mudou tudo", diz ela. Perguntada se comprar em menor quantidade significa gastar menos, ela ri. "Oxe, gasta é mais".
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A experiência de Maria Cleide é individual, mas o que ela descreve já aparece nos dados de consumo de todo o Brasil. As chamadas canetas emagrecedoras – medicamentos como o Mounjaro, que provocam sensação de saciedade e reduzem o apetite – estão presentes em 4,6% dos lares brasileiros e devem chegar a 10% até o final de 2026, segundo projeção de Domenico Tremaroli Filho, diretor de Atendimento ao Varejo da NielsenIQ. Em dois anos, o percentual pode atingir 30%. O motor dessa expansão é o barateamento. A patente da semaglutida, substância ativa do Ozempic e do Wegovy, venceu em março, e a farmacêutica EMS já anunciou uma versão brasileira a partir de R$ 452, quase metade do preço praticado hoje.

Os dados foram apresentados durante a coletiva de imprensa que abriu a Convenção Nacional do Canal Indireto, promovida pela Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (ABAD) em Atibaia, São Paulo, nesta semana. Para Tremaroli, os medicamentos funcionam como acelerador de uma transformação de consumo que já estava em curso e que muda o que vai para o carrinho e, consequentemente, o orçamento doméstico inteiro.


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Entre os usuários, 63% gastam mais de R$ 800 por mês com o tratamento. Oitenta e quatro por cento relatam impacto moderado ou alto nas finanças. Sessenta e dois por cento reduziram saídas a bares, 54,9% diminuíram as idas a restaurantes e 16,4% cortaram os gastos no supermercado. Trocando em miúdos, o uso do medicamento não muda só o que se come, mas determina o que sobra para gastar com todo o resto.
O universitário Rodrigo Pereira, de 24 anos, não usa a caneta. Mas é ele quem vai ao mercadinho no bairro da Serraria, em Maceió, desde que passou a morar com o namorado, usuário do medicamento, no final do ano passado. A reorganização foi inevitável.
"A gente tem priorizado comer melhor. Entendemos que é um investimento no nosso futuro, em chegar à velhice com um corpo melhor, com mais saúde. Ele não sente fome, então a gente precisou pensar na comida como uma necessidade de manter energia mesmo, não só de saciar a fome."

O cardápio que os dois construíram juntos, ele relata, não tem absolutamente nada a ver com o de antes. "Mudou tudo. A gente escolhe com base nessas necessidades. Tem muitas comidas que a gente não costumava consumir, como frutas, verduras, grãos, mais comida de verdade. A gente mal compra enlatados e embutidos. A carne é mais magra, começamos a gostar mais de cozinhar, fomos aprender receitas, usamos azeite, alho, temperos", lista.
O preço, porém, pressiona. Rodrigo estuda, trabalha e ainda recebe ajuda financeira dos pais. Mesmo assim, o orçamento aperta. "Eu acho tudo caro. A gente faz lista, escolhe bastante, porque não consegue fechar as contas com o que a gente ganha exatamente. Estamos tentando aprender a economizar mais, a escolher melhor", conta o universitário.
Essa tensão entre querer consumir melhor e ter menos margem para gastar é o retrato mais preciso do consumidor brasileiro de 2026, segundo os dados da NielsenIQ. O setor atacadista distribuidor fechou 2025 com faturamento de R$ 616,6 bilhões e crescimento real de 11%, mas o volume vendido recuou, com 70% das categorias registrando queda no primeiro trimestre deste ano. O faturamento cresceu porque os preços subiram, e subiram para ficar: café acumulou alta de 248% entre 2019 e 2025, óleo e azeite subiram 118%, arroz chegou a 78%.
Além disso, cerca de 80% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida, e 30% da renda está comprometida com o pagamento dessas obrigações, o que influencia diretamente nas escolhas na hora das compras. "Os preços não voltarão a ser como antes da pandemia", afirma Tremaroli. “Estamos vivenciando diversos fenômenos simultaneamente. E esses fenômenos é que irão determinar como o mercado será daqui pra frente”.

O resultado é um consumidor que visita, em média, nove canais diferentes para fazer compras – contra três há seis anos – e que cada vez mais troca de marca para manter o carrinho cheio. É racional por necessidade, mas quando escolhe gastar mais, escolhe com critério.
É aí que a saudabilidade entra como uma oportunidade. O mercado global ligado ao tema movimenta US$ 6,3 trilhões e tem projeção de crescimento de 7,3% nos próximos quatro anos. No Brasil, 86% dos consumidores já adotam ao menos um hábito considerado mais saudável na rotina. Entre os classificados como extremamente saudáveis, o gasto médio em bens de consumo de giro rápido é 11% maior. As corridas de rua cresceram 85% em 2025 e chegaram a 15 milhões de praticantes. Uma das maiores redes de academias do país prevê abrir mais de 300 unidades em 2026.
Nas gôndolas, a transformação já é visível. Refrigerantes sem açúcar cresceram 33% em 2025, enquanto as versões tradicionais retraíram 3,4%. Chocolates, snacks e bebidas alcoólicas perdem espaço. Proteínas, suplementos e hortifruti ganham. Para Tremaroli, o movimento não é adverso ao varejo, mas uma mudança de margem.
"A gente começa a ter crescimento de categorias que geram maior margem para o setor varejista. Proteínas animais, vegetais, suplementos – são categorias que tendem a deixar o negócio do próprio varejista mais saudável financeiramente. No médio prazo, as famílias tendem a reduzir gastos com medicamentos para doenças crônicas, o que pode ser revertido em mais consumo no varejo", pondera.

Em Alagoas, a penetração das canetas ainda é baixa, se considerarmos os dados do Nordeste, que registra 2,2% dos lares usuários, contra 8,2% no Centro-Oeste, região de maior concentração. O uso segue concentrado nas classes de maior renda e na faixa etária entre 36 e 50 anos. Mas a curva de popularização, impulsionada pelo barateamento dos medicamentos, tende a alcançar progressivamente consumidores de menor renda, exatamente o perfil predominante no canal indireto que abastece o pequeno varejo nordestino. Para o especialista da NielsenIQ, no entanto, as mudanças provocadas pelo uso das canetas e da tendência da saudabilidade já são importantes em todas as prateleiras e negócios.
"Todo consumidor saudável compra papel higiênico. Se eu vendo papel higiênico, o consumidor saudável vai me procurar a partir do momento que eu me conecto com o que ele está buscando", diz Tremaroli. “O que eu quero dizer com isso é que estamos diante de oportunidades também. O nosso varejo, o canal indireto, deve buscar se comunicar com o que o público está buscando, não em produtos, mas em posicionamento da marca”, finaliza.
O repórter viajou a Atibaia (SP) a convite da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (ABAD) para acompanhar a 45ª Convenção Nacional e Anual do Canal Indireto – ABAD 2026.