Conheça a servidora da rede estadual que integra filme brasileiro indicado ao Oscar
Atriz alagoana com mais de 30 anos de carreira, Ane Oliva concilia a rotina na escola com produções de cinema

Na secretaria da Escola Estadual Romeu de Avelar, em Maceió, o dia a dia costuma ser marcado por planilhas, carimbos, documentos e registros escolares. O que muitos não imaginam é que, por trás da mesa onde se organizam históricos e matrículas, está uma atriz com mais de três décadas de trajetória artística e que hoje faz parte de um filme brasileiro indicado ao Oscar.
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Servidora da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) e secretária escolar da unidade há 15 anos, Ane Oliva integra o elenco de “O Agente Secreto”, longa dirigido por Kléber Mendonça Filho que representa o Brasil na premiação e concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, com Wagner Moura, e Melhor Elenco.
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A presença de Ane na produção pode parecer surpreendente para quem a conhece apenas pela rotina na escola. Mas sua história no teatro e no audiovisual começou muito antes das câmeras do cinema.
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Ane Oliva se define, antes de tudo, como atriz. Sua trajetória começou há mais de 30 anos, quando ingressou no Curso de Formação de Atores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Foi ali que surgiram as primeiras experiências profissionais e o contato mais profundo com o teatro.

Durante muitos anos, seu principal espaço de atuação foi o palco — especialmente o teatro de rua. Integrante do tradicional grupo Joana Cajuru, um dos mais antigos de Alagoas, ela participou de espetáculos que transformavam praças e espaços públicos em cenários, aproximando o público da arte de forma direta e acessível.
Naquele período, o cinema ainda era uma realidade distante para muitos artistas locais, já que a produção audiovisual em Alagoas era limitada. Mesmo assim, Ane participou de curtas independentes, como “Desalmada e Atrevida”, dirigido por Pedro da Rocha.
Crescimento do cinema em Alagoas
Nos últimos anos, o cenário audiovisual no estado passou por mudanças importantes, com novos editais, políticas de incentivo e a chegada de produções de outras regiões do país.
Um dos projetos que marcaram esse novo momento foi o longa “Serial Kelly”, dirigido pelo cineasta alagoano René Guerra, em 2017. A produção contou com uma equipe majoritariamente formada por profissionais do estado.
Para Ane, a participação no filme representou um marco em sua carreira. “Foi um divisor de águas”, lembra.
A partir dali, novas oportunidades surgiram. A atriz participou de produções como “Propriedade”, dirigido por Daniel Bandeira e estrelado por Malu Galli, além do longa “Carro Rei”, de Renata Pinheiro, no qual contracenou com Matheus Nachtergaele. Ela também integrou o elenco da série “Cangaço Novo”, produção do Prime Video que ganhou projeção nacional.

A escola como outro palco
Paralelamente à carreira artística, Ane construiu também uma trajetória na educação pública. Servidora da rede estadual desde 2005, ela atua como secretária escolar na Escola Estadual Romeu de Avelar.
O trabalho envolve o funcionamento administrativo da unidade, com registros acadêmicos, documentos e acompanhamento da vida escolar dos estudantes.
Mesmo assim, ela nunca deixou de enxergar a escola como um espaço também de criação e cultura. “Minha alma é de artista”, resume.
Antes de assumir a função administrativa, Ane chegou a atuar como professora de teatro em projetos culturais. Para ela, cultura e educação caminham juntas.
“Não tem como dissociar Cultura e Educação. Um país não se desenvolve se essas áreas não estiverem conectadas”, afirma.
Cinema dentro da escola
Essa visão levou à criação do Cineclube Conexões Pedagógicas, projeto desenvolvido na escola que utiliza o cinema como ferramenta de aprendizagem.
A iniciativa propõe que professores relacionem filmes aos conteúdos trabalhados em sala de aula. Após as exibições, os estudantes participam de debates e reflexões sobre os temas abordados.

O projeto é realizado em parceria com o Instituto Mundaú, organização da qual Ane faz parte e que promove atividades artísticas e formativas. A parceria também possibilitou oficinas de teatro, fotografia e muralismo, além de visitas a espaços culturais da cidade.
A chegada ao “Agente Secreto”
A participação no longa “O Agente Secreto” começou de forma simples: Ane viu nas redes sociais a seleção de elenco e decidiu enviar seu material.
O teste foi feito no formato self-tape, em que o próprio ator grava a cena e envia para avaliação. Ane preparou a gravação em casa, durante a madrugada, interpretando uma sequência de forte carga emocional.
No dia seguinte, recebeu uma mensagem da equipe de produção dizendo que a gravação havia emocionado quem assistiu.
Para a atriz, trabalhar com o diretor Kléber Mendonça Filho era um sonho antigo. “Qual ator ou atriz não quer trabalhar com Kléber Mendonça?”, comenta.
O elenco do filme reúne diversos artistas nordestinos, incluindo os alagoanos Igor Araújo, Albert Tenório e Aline Marta.
Ane também participou da passagem do longa pelo Festival de Cannes, em 2025, onde o filme conquistou importantes prêmios internacionais, incluindo melhor diretor para Kléber Mendonça Filho e melhor ator para Wagner Moura.
Orgulho e torcida
Agora, com o filme indicado ao Oscar após destaque em premiações como o Critics Choice Awards e o Globo de Ouro, Ane acompanha o momento com entusiasmo — e com a torcida de colegas e estudantes da escola onde trabalha.
“Todos os dias parabenizamos Ane por essa conquista. Estamos muito felizes com as premiações do filme”, afirma a gestora-geral da escola, Sílvia Bueno.
Enquanto aguarda o resultado da premiação, Ane segue com a rotina dividida entre a escola, projetos culturais e novos trabalhos como atriz.
Para ela, independentemente do resultado, o cinema brasileiro já conquistou uma vitória importante.
“Só de estarmos lá, pelo segundo ano consecutivo, isso já é uma vitória”, afirma.
