Onde está a tal autenticidade de que tanto se fala nas redes sociais?
Principalmente no Instagram, até a espontaneidade agora tem roteiro. O ângulo da câmera, o cenário, a pausa, a fala meticulosamente pensada, o texto editado pela inteligência artificial, tudo meticulosamente calculado para produzir a impressão de que nada foi calculado. O problema é que isso é vendido como “ser você mesmo”.

Evidentemente, preparar uma fala ou um discurso não torna alguém falso, mas existe uma diferença entre organizar o que você tem a dizer e fabricar uma identidade para convencer os outros de que você é aquilo que ainda não consegue ser em sua vida.
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Durante anos, muitos gurus do mercado digital ensinaram: “Finja até conseguir”. Mas até onde fingir para ser é um caminho? E a partir de que ponto esse fingimento se torna, inclusive, um ato criminoso?
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Recentemente, um desses grandes gurus teve seu discurso de faturamento exposto em reels e na sua Bio, como estratégia de conversão de clientes confrontado pela Receita Federal. Os números que usava para atrair pessoas para sua estrutura de mastermind não correspondiam à realidade apurada. Isso acrescentou outra dimensão aos problemas que já enfrentava com a Polícia Civil, diante de denúncias sobre sua atuação: um indiciamento por estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal.
O caso ainda precisa ser julgado. Mas a pergunta que ele provoca já merece ser feita: quando um faturamento inventado é apresentado como prova de competência para levar alguém a pagar, até onde estamos falando de construção de imagem e a partir de onde estamos falando do ato deliberado e calculado de enganar? Quem compra paga com dinheiro real. Quem vende precisa responder pela realidade do que apresenta. Desde quando fingir resultados é ser autêntico?


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Uma frase atribuída a Goethe diz: “Nem todo caminho é para todo caminhante.” Essa frase deveria anteceder muitas das promessas do mercado digital. Como alguém pretende construir uma narrativa externa coerente se não faz o trabalho mínimo de compreender a própria narrativa interna? Se não reconhece onde está, não valoriza aquilo pelo que passou e não sabe aonde deseja chegar? Antes de decidir como quer ser visto, você precisa compreender o que sustenta aquilo que pretende mostrar.
Assim como a vida acadêmica exige determinadas disposições e o empreendedorismo exige outras, a exposição constante nas redes também pede afinidade, dedicação e vontade. Capacidades podem ser desenvolvidas. Mas por que todos deveriam desejar o mesmo caminho? Nem todo mundo quer estar diante de uma câmera. Nem todo mundo deseja transformar a rotina em conteúdo. Nem todo mundo precisa fazer do digital o centro da própria atividade profissional.
Às vezes, uma página bem estruturada, que apresente com clareza seu trabalho, sua trajetória e sua reputação, é muito mais viável do que se obrigar a representar uma personagem todos os dias. Talvez muita gente passe a odiar as redes sociais porque foi apresentada a elas dessa maneira: como uma obrigação de aparecer, reproduzir formatos e sustentar uma imagem. Antes de compreender o que gostaria de compartilhar, recebeu instruções sobre como deveria se comportar. E então passou a ficar obcecado por gancho, gesto, enquadramento e a promessa. Mas não perguntou: eu quero estar aqui? Para quê? O que faz sentido compartilhar a partir da vida que eu realmente tenho?
A rede social pode ser um espaço de expressão, troca e amadurecimento. Você pode compartilhar o que lhe interessa, desenvolver sua linguagem e permitir que sua presença acompanhe o seu processo de evolução. E o preparo certo pode ajudar nisso, bem como a estratégia. Mas ambos precisam encontrar uma história, uma vontade e uma realidade que lhes dêem sustentação.
Autenticidade exige que você responda pelo que apresenta, inclusive quando a câmera desliga. E o primeiro ato de autenticidade é justamente parar de fingir que deseja um caminho só porque alguém lhe disse que todo mundo deveria percorrê-lo. Parar de se enquadrar naquilo que parece a única opção. O digital não é o único caminho e nem precisa da completude dele, você pode sim escolher apenas uma parte, a positiva, e seguir sendo você.
Chris Kumakola é historiadora, com pesquisa no Museu Campo de Auschwitz sobre Narrativa. É autora de duas obras e ghostwriter de outros 42 livros.
Como gestora, foi a mulher mais jovem do Brasil a assumir e recuperar uma holding em recuperação judicial, reavendo aos cofres da companhia mais de 15 milhões de reais em um ano.
Foi fundadora de uma legaltech e uma edutech. Atualmente é CEO do ecossistema Efeito Narrativa, onde direciona senadores, deputados, grandes empresários, multinacionais frente a arquitetura narrativa que sustenta poder e blindagem reputacional no mercado.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
