Influencer que sofreu danos com cirurgia plástica revela como foi vítima da técnica
Letícia Mello enfrentou diversas complicações após realização de 12 intervenções cirúrgicas de uma só vez

Letícia Mello considera que tem duas datas de nascimento: a primeira, há 41 anos, e a segunda, há oito meses - quando passou pela cirurgia que deveria servir para ela realizar um sonho, mas quase a matou.
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No dia 29 de fevereiro deste ano, a psicopedagoga realizou uma intervenção cirúrgica para trocar as próteses de silicone e outra para para fazer uma lipoaspiração, mas ela acabou sendo vítima do que é popularmente chamado de cirurgia "x-tudo", sofreu complicações e passou 75 dias internada.
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"Digo que renasci, porque não era para eu estar viva. São poucas as pessoas que passam por situações como a minha e voltam para contar história. Hoje, sou uma voz: vivo para pedir justiça e para alertar outras mulheres que passaram ou podem vir a passar por isso. É o que me move", diz.
Cirurgia 'X-Tudo'


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O desejo pela cirurgia plástica surgiu quando Letícia decidiu trocar as próteses de silicone que já tinha nos seios, o que a levou a procurar um cirurgião por meio das redes sociais. Foi quando ela se deparou com o perfil de Marcelo Evandro dos Santos, que se descreve como "referência em mamas, abdômen e Lipo Ugraft" (procedimento que utiliza a ultrassom para inserir gordura nos músculos abdominais para defini-los) e conta com 37 mil seguidores.
A primeira consulta de Letícia foi em janeiro deste ano, na clínica localizada em Itajaí, Santa Catarina, e ela relata que a experiência no espaço contribuiu para que ela fosse convencida a realizar mais procedimentos do que a princípio havia cogitado.
"Caí na lábia dele. Era uma clínica muito bonita, com diversas certificações espalhadas pelas paredes, fui recebida com taça de champanhe e toda aquela atmosfera de sofisticação. Na sala dele, ele me botou à frente do espelho e apontou 'defeitos' que eu nem sabia que existiam, nunca havia reparado 'gordurinhas', na perna, na barriga, e ele me disse que poderia resolver tudo de uma vez, com o mesmo equipamento da lipo", conta Letícia.
Pouco mais de um mês depois, a catarinense foi para o centro cirúrgico com o acordo de realizar a troca de próteses mamárias e a lipo HD - técnica de lipoaspiração que produz "gominhos" na barriga e traz um aspecto de corpo musculoso - , mas, após dez horas de cirurgia, acordou com 12 procedimentos realizados de uma só vez, o chamado "X-Tudo".
Onze dias na UTI
"Assim que acordei, já senti muita dor, mas imaginei ser normal. Estava fraca, com o lado direito do corpo paralisado, e descobri que ele havia retirado 7 kg de gordura do meu corpo. Além de ter precisado de transfusão, recebi três bolsas de sangue".
A situação de Letícia se agravou e ela precisou passar 11 dias em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e mais de dois meses internada.
"Num período de 20 dias, vivi os piores momentos da minha vida. Sentia meu corpo todo queimar, surgiram bolhas pela barriga, pernas, braços e seios e a pele começou a necrosar. O cirurgião dizia que também era especializado em tratamento de feridas e só permitia que ele e a mulher dele, que é enfermeira, mexessem nos meus curativos, mas eu não melhorava, só tive avanços quando minha família chamou outro médico", lembra.
Foi só durante a internação que descobriu o termo "cirurgia x-tudo" - nome popular à técnica arriscada que combina diversos procedimentos de uma só vez e que não é recomendada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC) -, foi aplicada nela. De acordo com a entidade, até é possível fazer mais de um procedimento, desde que sejam respeitados o tempo cirúrgico e a extensão da cirurgia.
"Ele me passou segurança, em momento algum senti que era uma técnica perigosa. Só ouvi sobre isso quando cheguei na UTI e um enfermeiro sinalizou 'ela é paciente de x-tudo'", relembra.
Médico foi indiciado
Marcelo Evandro dos Santos foi indiciado por lesão corporal gravíssima no caso de Letícia, e é investigado em outros oito inquéritos policiais abertos por outras mulheres que se dizem vítimas de suas cirurgias, segundo o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel.
Além do indiciamento, em que responderá por crime, o cirurgião já foi condenado na área civil, anteriormente, ao menos quatro vezes. No caso mais grave, indenizou familiares de uma paciente que morreu após lipoaspiração, em 2021.
A volta por cima
Letícia teve alta no início de maio e revela que precisou imediatamente de acompanhamento psicológico. Em 13 de outubro deste ano, ela compartilhou o relato viral em suas redes sociais e gerou grande comoção. Confira na íntegra:
Coragem! Coragem para viver, coragem para lutar, coragem para não me calar e coragem para me transformar. Tudo isso foi necessário ao longo destes 229 dias. Ao longo deste tempo precisei ser forte, corajosa, destemida e acreditar que esse dia chegaria. O dia de hoje é um marco na minha vida, dia que me encontro despida de toda dor, todo sofrimento e de toda vergonha que tive, ao me olhar no espelho pela primeira vez e ver como estava o meu corpo. Sim, pensei em tirar minha vida, lutei contra uma depressão profunda, precisei e ainda preciso de suporte psicológico e médico, para estar aqui compartilhando minha história com vocês. Medo? Hoje nenhum… Vergonha? Hoje nenhuma… Vontade de tirar a própria vida? Que bom que não o fiz, pois se Deus me permitiu viver, quem seria eu para fazer isso, não é mesmo? O que eu quero? JUSTIÇA! Justiça por mim e por todas as mulheres, que também sofreram algo parecido, ou até mesmo vieram a óbito. Decido compartilhar a minha história para ser voz, e encorajar todas as mulheres que se calaram e um dia passaram por algo parecido. Sejamos fortes, corajosas e DETERMINADAS!"
Letícia é fundadora da clínica multidisciplinar Transformar, especialista em autismo e desenvolvimento infantil e localizada em sua cidade natal, Palhoça (SC). Seu trabalho consiste em consultorias e palestras que preparam profissionais da educação para lidar com deficiências intelectuais em sala da aula, além de suporte para famílias.
Após o incidente cirúrgico, ela também lançará um podcast, em que entrevistará mulheres que viveram situações variadas de violência. "Recebi muitos relatos e depoimentos de mulheres com histórias muito difíceis. Minha missão a partir daqui é trazer visibilidade e voz para elas", explica.
