Vítima de propina de militares do BPTran sugeriu pagar com alimento, mas PM rejeitou: “Deixe o que puder”
Na conversa, a vítima oferece acarajé com pagamento, mas o policial diz querer "papel'', uma referência a dinheiro
Nos documentos obtidos pela Gazetaweb referentes à Operação Pix está uma conversa entre o cabo que comandava a guarnição do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) - acusada de cobrar propina para liberar motoristas - e um homem que estava sendo vítima da extorsão. Na conversa, a vítima oferece acarajé com pagamento, mas o policial diz querer "papel'', uma referência a dinheiro.
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A conversa entre o cabo e a vítima aconteceu no dia 17 de agosto de 2021, às 18h17min. Uma terça-feira. O policial trata a vítima como “homem de bem” e pede para que ela deixe o dinheiro da propina com um parente, classificado pelo policial como também “homem de bem”.
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Na conversa, o policial sugere que o dinheiro da propina será usado para comprar comida. “Deixe o negócio com ele lá que eu vou pegar o negócio pra gente jantar”, diz o cabo que comanda a guarnição. O policial ainda diz para a vítima "não se aperrear", que "só faça o que puder", mas que "deixe lá que ele vai passar lá para pegar".
Nesse momento, a vítima diz que "o cara do acarajé" é colega dele e que vai deixar "uns quatro acarajés com uma coca lá e que ele passe lá pra pegar". Nesse momento, o cabo diz que não, que não deixe comida, "deixe o papel" para eles jantarem. A vítima concorda e o militar diz que passe e “deixe o que puder", aponta o documento


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A OPERAÇÃO PIX
Três policiais militares, sendo dois cabos e uma soldado, além de um outro homem, foram presos nessa segunda-feira (13), acusados de cobrarem propina para liberar motoristas autuados por infrações no trânsito.
A Gazetaweb teve acesso à farta representação do Ministério Público de Alagoas (MP/AL), que foi apresentada à Justiça. As prisões foram decretadas pelos juízes da 17ª Vara Criminal da Capital.
No começo dos trabalhos, os promotores investigaram duas guarnições do batalhão, a Rotran 1 e Rotran 2. De imediato, foi identificado que o titular da conta bancária para onde a propina era enviada não é Policial Militar, e que ele trabalha como corretor de planos de saúde e odontológicos.
Com o caminhar das investigações, a participação da Rotran 2 foi descartada, mas em relação à Rotran 1, “foi possível obter fortes indícios de autoria e materialidade, sobretudo dos delitos de concussão."
Conforme consta nos documentos que a Gazetaweb teve acesso, os dois cabos foram presos em Maceió, um no Conjunto Jardim Royal, no bairro Cidade Universitária, e outro em um apartamento no bairro Ponta Verde. Já a soldado foi presa no Conjunto Belo Jardins, no bairro Boa Vista, em Arapiraca. Por fim, o preso, que não é militar, foi detido na Ponta da Terra, em Maceió.
Os documentos mostram que as investigações começaram em julho deste ano e detalham a forma como os policiais agiam. “Abordavam aleatoriamente motoristas em via pública e, em caso de encontrar possível irregularidade, obrigavam o condutor a pagar propina com o intuito de não ter a multa aplicada, e até mesmo a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou o próprio veículo recolhido", informa trecho da representação.
Os promotores continuam narrando que o pix era a alternativa usada pelos militares para as pessoas que não tinham dinheiro em espécie para pagar o suborno. “Para aqueles motoristas que no momento da abordagem alegavam não possuir dinheiro para escapar da multa e consequentemente a apreensão de sua CNH e veículo, era oferecida a modalidade de 'pagamento da propina via PIX'".
“Assim, para deixar o cidadão sem alternativas, os suspeitos, de forma deliberada e cinicamente, obrigavam a serem feitas transferências bancárias, via PIX, só liberando o veículo e o motorista após a comprovação da operação bancária”, detalha o documento.
INTIMIDAÇÃO
Nos documentos que a Gazetaweb teve acesso, é narrado que o comandante da guarnição do BPTran intimidou uma das vítimas por meio de ligação telefônica. Na representação que o Ministério Público de Alagoas (MPAL) enviou aos juízes da 17ª Vara e que a reportagem teve acesso, é narrado ainda que o cabo que comanda a guarnição liga para a vítima e, “de forma intimidatória”, avisa que ela teve sorte por ter sido o primeiro veículo a ser parado e a câmera não estava ligada.
Logo em seguida, o cabo pergunta se a vítima poderia fazer um PIX. Diante do pedido do militar, a vítima pede para que o cabo ligue após trinta minutos e o militar, “novamente em tom de intimidação”, relata que está com os dados da vítima todos prontos e que precisa repassar (dependendo do pagamento).
O documento mostra que após trinta e sete minutos o policial retorna a ligação e diz que “não tem o interesse de explorar um pai de família e manda ele realizar um PIX e passa a chave”. A chave enviada é um e-mail. A vítima diz que vai colocar cem reais na conta que o militar enviou, mas o cabo intervém e diz que não e manda colocar cento e cinquenta reais para cada um membro da guarnição.
Foi após o cabo dizer a chave pix nesta conversa que os promotores descobriram que se tratava de uma conta também em nome de um homem citado anteriormente em cobranças de propinas. Segundo os promotores, com o avançar das investigações, foi possível vincular o homem titular da conta com a policial feminina da guarnição, tendo em vista que, com a quebra de sigilos de dados do Whatsapp, foi percebido que ambos o homem e a policial possuem os contatos registrados em suas agendas pessoais do celular.
