Alagoas tem a maior desigualdade de renda do País, apontam dados da FGV
Estado ainda concentra muita renda entre os 20% mais ricos - o que revela um desequilíbrio entre os 20% mais pobres
Levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domcílios (Pnad) Contínua revela que Alagoas tem a maior desigualdade de renda do País entre os trabalhadores de 15 a 59 anos de idade. De acordo com a pesquisa - coordenada pelo professor Marcelo Neri -, o Índice de Gini de rendimento domicilar per capita do trabalhador alagoano nessa faixa etária foi de 0,711 no segundo trimestre deste ano - o mais alto do País entre as 27 unidades da federação.
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Criado pelo matemático italiano Conrado Gini, o índice é um instrumento que mede o grau de concentração de renda em determinado grupo.O coordenador da pesquisa esclarece que o índice aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. Numericamente, varia de zero a um, sendo o valor zero a situação de igualdade, ou seja, todos têm a mesma renda. O valor um está no extremo oposto, isto é, uma só pessoa detém toda a riqueza.
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Em linhas gerais, segundo o coordenador da pesquisa, significa que Alagoas ainda concentra muita renda entre os 20% mais ricos - o que revela um desequilíbrio entre os 20% mais pobres. De acordo com o levantamento da FGV, o Nordeste segue com os piores números de distribuição de renda entre ricos e pobres. Os sete piores índice de Gini do país estão na região, além de Alagoas, o Piauí (0,692), Paraíba (0,692), Ceará (0,686), Bahia (0,683), Maranhão (0,682), Pernambuco (0,679), Sergipe (0,674) e Rio Grande do Norte (0,670).
Em nível nacional, o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita do trabalho foi de 0,629 no segundo trimestre deste ano, resultado ligeiramente pior do que o registrado no segundo trimestre do ano passado (0,628).Segundo a FGV, a desigualdade de renda segue crescendo entre os trabalhadores ocupados porque a melhora salarial está concentrada em quem tem maior rendimento. "O desemprego até melhora, mas os ganhos ainda não são proporcionalmente maiores entre os mais pobres", ressalta Marcelo Neri.


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Uma abertura mais detalhada do levantamento mostra que a desigualdade da renda do trabalho piorou em 16 unidades da federação no segundo trimestre deste ano, considerado a comparação interanual. Seis unidades da federação estão com nível recorde de desigualdade: Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins.
Em matéria publicada no fim do ano passado, a Gazeta de Alagoas mostrou que Alagoas continua como um estado pobre e desigual por razões históricas que ainda não puderam ser superadas. Para o economista Cícero Péricles, faltam polos dinâmicos capazes de gerar uma produção competitiva que reduza as importações e promova o crescimento econômico. Falta também, segundo ele, um mercado interno amplo, que aumente e distribua renda, incorpore a maioria da população ao processo produtivo e de consumo. "Nos falta um setor público, tanto o estado como prefeituras, com capacidade autônoma de investimento. E o resultado dessa carência é que nosso mercado interno é estreito, nossa renda é menor que a da média nordestina e muito concentrada. Neste caso, o enfrentamento da pobreza depende muito da intervenção estatal, seja federal ou local".
De acordo com a pesquisa da FGV, o desemprego foi o principal responsável pela queda do poder de compra das famílias alagoanas. "Desemprego é sinal de desajuste do mercado de trabalho e de frustração", aponta Neri. "A maioria dos ocupadados passa a temer cair no desemprego, e por precaução reprime a sua demanda por bens e serviços. A crise fiscal crônica confere credibilidade à ideia de que o Estado não vai poder socorrer aos cidadãos em apuros, reforçando outros comportamentos precaucionais na demanda", explica.
Como a Gazeta mostrou recentemente, Alagoas fechou 119.618 postos de trabalho com carteira assinada entre o primeiro trimestre de 2015 - quando o número de trabalhadores ocupados era de 1,112 milhão - e o primeiro trimestre deste ano, quando a ocupação atingiu 993,2 mil vagas formais. Os números, que representam uma retração de 10,7% no período, fazem parte de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) feito a pedido da Gazeta de Alagoas.

Baseado nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o levantamento do Ipea revela também que a fila do desemprego engrossou com a saída de mais 50.486 trabalhadores do mercado de trabalho entre o primeiro trimestre de 2015 e o primeiro trimestre deste ano - os quatro anos do governo de Renan Filho (MDB). Atualmente, 188.970 trabalhadores alagoanos estão sem emprego no Estado.Em quatro anos, de acordo com o levantamento do Ipea, Alagoas viu a taxa de desemprego aumentar de 11,07% para 15,98% - um avanço de 4,91 pontos percentuais.
Em apenas um ano - do primeiro trimestre do ano passado para o primeiro trimestre deste ano - Alagoas viu o número de trabalhadores sem carteira assinada subir de 126 mil para 151 mil apenas no setor privado - sem levar em conta, por exemplo, o emprego doméstico. Em termos absolutos, significa 25 mil trabalhadores a mais sem carteira - um avanço de 19,8% em relação ao ano passado.
"O efeito 'desemprego' foi um grande propulsor da queda de renda e do aumento da desigualdade, entretanto o impacto do valor da educação foi ainda maior e a jornada de trabalho foi o terceiro fator de impacto", aponta o pesquisador Marcelo Neri. "A participação no mercado de trabalho atuou no sentido de expandir a renda mas mais no crescimento da renda média do que na desigualdade", completa.
Para Marcelo Neri, o maior perdedor da crise foi o jovem, com idade entre 20 e 24 anos, que teve uma queda de renda do trabalho de 17% (a queda média para toda a população foi de 3%). Outros grupos sociais tradicionalmente excluídos também foram bastante afetados pela crise: a população negra teve uma queda de renda de 8%; analfabetos, 15%; moradores do Norte e Nordeste do Brasil, 13% e 7%, respectivamente. Somente as mulheres tiveram um aumento de renda de 2%. Os últimos anos foram de melhora para quem estudou mais, e como as mulheres são mais escolarizadas, elas conseguiram ganhos.
Ele explica que o aumento do valor da educação foi junto com a do desemprego os grandes propulsores da desigualdade em geral. "No período crítico, seis milhões de brasileiros passaram a morar em domicílios com renda nula. O último período da série traz alguma perspectiva de melhora: menor aumento de desigualdade do período de escalada, sinal que pode-se ter atingindo o topo. Já há troca vantajosa de mais ocupação por menores rendimentos dos ocupados, a renda média geral está crescendo a 1,75% ao ano, taxa superior às projeções do PIB per capita que será divulgado em breve".
Segundo o economista, programas focados na base não só combatem a pobreza, mas também fazem a roda da economia girar. Neri acrescentou que a desigualdade joga areia nas engrenagens da economia e que, para entender a crise, não basta somente olhar para a média; o aumento da desigualdade também é um componente chave na perpetuação da crise.
"Não estamos voltando ao mesmo nível de pobreza que tínhamos antes de ela cair, felizmente. Mas a projeção é que, se não reduzirmos a desigualdade, principalmente, em relação a base da distribuição, mesmo crescendo 2,5% de forma balanceada ao ano até 2030, nós vamos apenas voltar aonde estávamos em 2014", finaliza.

