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Desiludido com 'sujeira no futebol', ex-Palmeiras trocou bola por estudos

João Arthur, que provocou expulsão de Roberto Carlos em Dérbi, hoje cursa administração. Ele diz ter presenciado esquemas irregulares no Palmeiras

Chegar à equipe principal de um grande clube exige sacrifício e muitos anos de dedicação. A seleção é rígida e apenas pouquíssimos privilegiados conseguem atingir o nível. O jovem João Arthur foi um desses privilegiados. Só que ele jogou tudo para o alto pelos estudos, família e por se desiludir com o que considera injustiças do futebol.

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Ex-Palmeiras, João Arthur, hoje aos 25 anos, desistiu da carreira de jogador em 2013. Cansou da rotina, de ficar longe da família e de ter de engolir coisas erradas que via nos bastidores. Decidiu trocar a bola pelos cadernos. Atualmente, é aluno do curso de administração de empresas de uma faculdade da Zona Sul de São Paulo.

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- A vida que levo hoje é muito diferente da vida de jogador. No começo foi bem difícil. Passei oito anos fazendo uma coisa e mudou de uma hora para outra. Quando cheguei à faculdade, muita gente veio falar comigo para saber como era jogar em time grande. As pessoas não conhecem o futebol a fundo. É muito legal, mas é muito sujo também - conta.

João Arthur chegou ao Palmeiras B em 2009, após se destacar pelo Noroeste. de Bauru, no Campeonato Paulista daquele ano. Torcedor do Verdão, ele tinha propostas de Internacional e Corinthians, mas escolheu o time de coração. A primeira chance no time principal do Verdão veio no início de 2010, quando foi promovido por Muricy Ramalho aos profissionais.

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Em sua passagem pelo Palmeiras que, entre idas e vindas, durou quatro anos, João Arthur disputou doze jogos como profissional. O mais especial foi o duelo contra o Corinthians, pela 5ª rodada do Paulistão de 2010, quando foi o responsável pela expulsão de Roberto Carlos (veja abaixo). O jovem tomou uma forte entrada do lateral multicampeão, que acabou levando o cartão vermelho em seu primeiro Dérbi pela equipe alvinegra.

- Foi muito rápido. Vi uma brecha na zaga e saí correndo. A bola veio nas minhas costas e eu senti alguma coisa batendo em mim. Caí desgovernado. Levantei e percebi que ele tinha sido expulso. Pensei: "Vou ficar famoso, vou ganhar dinheiro". Na maca, eu pensava que queria ter jogado um pouco mais contra ele - recorda João, que não teve contato com o rival após o jogo.

Contra o Corinthians, João Arthur fazia apenas sua segunda partida como titular no Palmeiras. Ele e o zagueiro Gualberto, hoje no Paysandu, suaram frio quando Muricy Ramalho avisou, na véspera, que eles iniciariam o jogo no Pacaembu.

- Quando o Muricy falou que a gente iria jogar, pensei: "Ferrou". Fiquei nervoso. Eu e o Gualberto começamos a ligar para as pessoas. O Edinho (hoje volante do Grêmio) chegou ao nosso quarto fingindo que estava nervoso. Acreditamos e perguntamos o porquê. Ele disse: "Professor Muricy falou que eu vou ser titular, fiquei muito nervoso". Ele estava tirando sarro da nossa cara. Rimos e o mandamos tomar naquele lugar.


				Desiludido com 'sujeira no futebol', ex-Palmeiras trocou bola por estudos
FOTO: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians

Em meados de 2010, João Arthur voltou à equipe B do Palmeiras, onde permaneceu até 2011, quando foi emprestado ao XV de Piracicaba. Em 2012, retornou ao Verdão, não teve sequência e foi transferido em 2013 para o Atlético Sorocaba, onde decidiu se aposentar aos 22 anos.

- O principal motivo para ter parado foi ficar longe de casa. Não tinha contato com a família, ficava morando em hotéis. Não estava conseguindo mais evoluir, ia treinar sem vontade. Decidi que não queria ser jogador mediano para jogar só em time pequeno. Eu estagnei. Não estava mais feliz. O futebol não é mil maravilhas, tem o lado ruim também. Perdia aniversário de parentes e amigos. Desanimei total - lembra o estudante, que hoje trabalha numa administradora de cartões de crédito.

"Esquemas na base"

João conta que os esquemas irregulares que acontecem nos bastidores do futebol também o fizeram desanimar. Ele cita episódios que presenciou principalmente no  Palmeiras.

- Tem muita gente que manipula. Vi vários amigos muito bons, mas que não tinham chance porque não tinham bons empresários. Conheci jogadores que ganhavam 10 mil reais e pagavam 2 mil a diretores para seguirem no clube, sempre renovando contrato. Eles me contavam. Já chegaram a oferecer para mim, mas não aceitei. É muita sujeira.

Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras entre 2009 e 2010, corrobora a afirmação do ex-meia.

- Isso é uma coisa normal no futebol. Ocorria no Palmeiras com grande frequência. É um negócio terrível na base. Diretor e empresário sempre se metendo. É uma teia de relações complicadas. Os meninos deveriam vir até nós para denunciar, mas não falavam - diz o economista.

Por outro lado, Luis dos Reis, treinador da equipe B alviverde naquela época, diz nunca ter ouvido falar sobre esquema entre diretores e jogadores.

O futebol, porém, não saiu da vida de João Arthur. Nos tempos livres, joga futebol de salão na ESPM, faculdade na qual estuda - mas não consegue atuar tão bem quanto nos tempos em que tinha o pique de jogador.

- No começo, era muito mais fácil. Os moleques não tinham tanta experiência, eu me destaquei muito. Ganhei mais de seis títulos pela faculdade. Hoje estou trabalhando, não tenho tempo de correr. A cabeça tenta uma coisa, mas o corpo não responde. Posso estar fora do peso. Hoje estou bem mais relaxado - completa o futuro administrador.

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