Onde Alagoas se vê: TV Gazeta, um patrimônio de todos os alagoanos
Há cinco décadas, Arnon de Mello desatava o nó que mantinha o estado como o único do Brasil sem uma emissora

Thiago Gomes e Maylson Honorato
27/09/2025 às 0:00 • Atualizada em 27/09/2025 às 16:32 - há XX semanas
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Uma emissora não é feita apenas de antenas. Televisão de verdade se faz com gente. Há 50 anos, o que vai ao ar na TV Gazeta de Alagoas não são somente os equipamentos de última geração, mas o nosso jeito de falar, a nossa história. A TV Gazeta de Alagoas, afinal, é nossa.
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Em um sábado como este, 27 de setembro de 1975, o fundador Arnon de Mello colocava um ponto final na humilhante condição de Alagoas ser o único estado do Brasil a não ter uma emissora de televisão própria. No primeiro dia de funcionamento, o visionário alagoano declarou: “A TV Gazeta de Alagoas existe para servir”. Meio século depois, sabemos, orgulhosos, que foi exatamente isso que fizemos em cada um desses 18.262 dias no ar.
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Neste sábado (27), abrimos as portas para uma visita guiada: o gesto visionário de Arnon de Mello, os rostos inesquecíveis, as histórias que carregam a audiência recorde, a inovação que não espera o amanhã, os desafios da reportagem e as centenas de colaboradores por trás da relevância e da notícia.
Entre fotos, arquivos e depoimentos, o leitor vai perceber que não estamos contando apenas a história da TV, mas a sua própria história. Alagoas nunca precisou mudar de canal. Afinal, a TV Gazeta é um patrimônio de todos os alagoanos.


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Arnon de Mello, o homem que colocou Alagoas nas telas e no caminho do futuro
No final da tarde de 27 de setembro de 1975, a história de Alagoas ganhou um novo e brilhante rumo. Às 17h20 daquele sábado, em uma cerimônia concorrida, o senador Arnon de Mello inaugurava a TV Gazeta, canal 7. Pela primeira vez, imagens e sons de uma emissora local eram transmitidos a partir do solo alagoano. O gesto, fruto de uma persistência de décadas, ia além de um empreendimento empresarial: era o símbolo de um projeto de futuro.
A edição seguinte da Gazeta registrou o momento com a frase que se tornaria um marco: “Arnon de Mello desatou o nó que prendia Alagoas à humilhante condição de único Estado sem uma emissora de televisão”. Essa imagem do “nó desatado” sintetizava o que estava em jogo. Desde 1960, Arnon falava publicamente sobre a necessidade de instalar uma emissora no Estado. Criara o diário Gazeta de Alagoas e a Rádio Gazeta, duplicando sua potência antes de se arriscar na televisão. Por mais de uma década, resistiu a apelos, até ter condições técnicas e financeiras de oferecer, como dizia, “uma emissora do mais alto padrão”.
No discurso inaugural, Arnon deixou claro que não se tratava de um capricho. “Cumpre dizer que não implantamos esta emissora por vaidade, ambição ou interesse pessoal”, afirmou. “O Canal 7, que hoje inauguramos, é uma prova da nossa disposição de servir a Alagoas”, concluiu, sendo aplaudido pela multidão presente.
A TV Gazeta nascia como “instrumento de bem-estar e progresso”, oferecendo uma hora diária de programação educativa gratuita e espaço para missas dominicais, refletindo a vida cultural e religiosa local. “Nesta casa não existe a preocupação absorvente do lucro, mas o idealismo de ser útil”, frisou Arnon. Esse traço altruísta, realçado por testemunhas da época, se somava ao seu faro de comunicador. Ele não via a televisão apenas como entretenimento, mas como parte da formação cívica e cultural.
ERGUIDA EM 11 MESES
Diziam que era impossível, mas a emissora foi construída em apenas 11 meses, com 2 mil metros quadrados de área, arquitetura moderna e investimento de 20 milhões de cruzeiros — uma cifra ousada para a época. “Esse não é um empreendimento de empresário, mas de um homem que ama Alagoas”, resumiu o diretor da TV Globo em Recife, Paulo César Ferreira. “Alagoas vive um grande dia. Um sonho que só a coragem do senador Arnon de Mello poderia torná-lo realidade”, proclamou o governador da época, Divaldo Suruagy.
Essa coragem era marca de toda sua trajetória. Arnon de Mello nasceu em Rio Largo e construiu uma carreira que atravessou o jornalismo, a literatura, o empreendedorismo e a política. Modernizou a imprensa alagoana, fundou veículos, ousou onde ninguém ousava. Foi um dos primeiros no Nordeste a falar publicamente em ciência e tecnologia como chaves para o desenvolvimento.
Para o historiador Douglas Apratto, Arnon foi “um jornalista de renome, um demiurgo empresarial, um intelectual importante que transitou entre os maiores nomes da cultura brasileira”. Essa pluralidade o tornava capaz de imaginar uma televisão não só como negócio, mas como serviço público.
O jornalista e historiador Edberto Ticianeli lembra que Arnon falava em TV havia quase duas décadas antes de conseguir a concessão, em 1974. “A TV Gazeta de Alagoas foi o elo que estava faltando para a integração total do Nordeste”, disse na época Yves Alves, diretor-executivo da Rede Globo. E, de fato, a emissora nasceu já integrada a uma rede nacional, transmitindo o sinal da Globo e, ao mesmo tempo, produzindo conteúdo local. Era, para muitos, um passo de inserção de Alagoas no mapa midiático do país.
Arnon fez questão de dividir o crédito. No discurso inaugural, citou a esposa, Leda Collor de Mello, “companheira pelos mesmos ásperos caminhos”, atribuindo a ela a inspiração para o empreendimento. Falou dos filhos, que participaram ativamente do projeto: Leopoldo orientava do Rio; Fernando, “modelo de administrador”, comandava a superintendência; e Pedro, de apenas 22 anos, largou São Paulo e ajudou a construir o prédio e implantar a emissora.
Arnon não era só gestor: era um comunicador nato. Sua campanha de 1950 inovou ao usar material gráfico colorido — raridade no Brasil da época. Ensinava aos filhos que a mão do político deve “abanar como quem afaga” e que é preciso falar “sempre pelo coração”. Esse senso de comunicação direta se refletiu na TV Gazeta, pensada não apenas para retransmitir o sinal da Rede Globo, mas para ser um espelho da vida alagoana. “Nossa força está em exprimir os sentimentos e as aspirações coletivas”, dizia sobre seus veículos.
50 anos depois, a TV Gazeta continua no ar, testemunho da aposta ousada de Arnon de Mello. A emissora colocou Alagoas nas telas e ajudou a formar gerações de telespectadores, jornalistas, técnicos e artistas. Arnon de Mello abriu caminhos, projetou o Estado para fora e ofereceu à sua gente um instrumento de informação, cultura e autoestima. Sua história é a de um homem que acreditou no poder da comunicação para transformar a sociedade e que, ao fazê-lo, deixou um legado que permanece vivo — na tela e na memória coletiva dos alagoanos.
A HISTÓRIA DE UMA AMIZADE
Mas nem toda ousadia se faz sozinho. Ao longo do caminho, Arnon cultivou alianças raras, e uma das mais decisivas foi com Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo. Além de parceiros de negócios, eram amigos de confiança mútua e visão compartilhada. Em 1961, tornaram-se sócios na São Marcos S.A., responsável pela incorporação do primeiro shopping center do Rio de Janeiro — um investimento arrojado para a época, que revelava o apetite de ambos por inovação.
A relação transcendia a pauta empresarial. Roberto Marinho enxergava em Arnon um político e um homem de ideias firmes, convicções modernas e espírito civilizador. A admiração era mútua. Foi essa afinidade que abriu caminhos para que a TV Gazeta, ainda em seu início, nascesse já afiliada à Rede Globo, com direito a um feito inédito: ser a única emissora do Nordeste a receber o sinal diretamente da matriz no Rio, e não por retransmissão do Recife.