Treinamento militar em Alagoas exige força, disciplina e foco; confira vídeos
Considerado satisfatório por parte do comando e de associações militares, curso ainda é questionado
Quarta-feira, 22 de junho. Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), Trapiche da Barra, Maceió. 6h45. O som da corneta quebra o silêncio e, em poucos minutos, centenas de militares estão alinhados para dar início a mais um dia de trabalho. As nuvens carregadas e o indicativo de chuva não impedem a "formatura" - a simulação de um evento real, que acontece com a presença do chefe de Estado.
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A cena se repete religiosamente às quartas-feiras, com uma formalidade impecável, que inclui execução do hino nacional, "revista à tropa", desfile e inúmeras continências e gritos de guerra. Finalizado o primeiro treinamento do dia, é hora de seguir para as salas de aula, onde haverá "instrução", ou para as áreas externas, onde haverá aula prática. A rotina se repetirá ao longo dos próximos oito meses.
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Ingressar no militarismo não é tarefa fácil. Bem mais do que ser aprovado em um concurso público, é necessário passar pela formação. Disciplina é o segredo. Mas, um pouco de foco, perseverança e uma pitada de coragem ajudam bastante. Durante este período, os alunos se submeterão a testes intelectuais, físicos e terão que sair com, no mínimo, uma noção dos perigos que deverão se deparar pelas ruas.
"Às 6h30, eles [alunos] devem se apresentar e, às 7h, devem estar em aula. As aulas internas vão segunda à sexta. Durante os fins de semana, acontecem aulas práticas nas ruas. Mas, para que eles possam ir às ruas, é necessário que antes tenham passado pelas disciplinas teóricas", ressalta o tenente-coronel Wellington Bittencourt, comandante do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP).


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Conforme Bittencourt, o Curso de Formação é composto por 1.500 horas/aula, entre disciplinas teóricas e práticas. Neste período, os futuros policiais são submetidos a disciplinas relacionadas diretamente ao trabalho que vão exercer, como Direito e Administração, e a disciplinas práticas, como Patrulhamento Geral Ostensivo, Defesa Pessoal, Noções de Primeiros Socorros e Uso Diferenciado da Força.

O CURSO DE FORMAÇÃO
O CFAP conta, atualmente, com 400 novos alunos, distribuídos em pelotões em Maceió e Arapiraca. São integrantes da reserva técnica, convocados pelo governador Renan Filho para reforçar a segurança pública em alagoas. Do total de alunos, cerca de 75% são homens e 25% mulheres. Além dos novos soldados, também passam por treinamento futuros oficiais. Há duas turmas na Academia Senador Arnon de Mello.
Mas, a rigidez e disciplina dos cursos são revertidas em qualidade nas ruas? O comandante do CFAP, tenente-coronel Wellington Bittencourt, garante que sim. Segundo ele, os policiais que saem das formações estão aptos a ocupar espaço nos batalhões e irem às ruas.
"É importante ressaltar, no entanto, que o policial é como qualquer outro profissional. A atividade permite a cada dia uma surpresa. Obviamente, durante o curso, nós incidimos muito no que nós registramos, no que acontece no dia a dia, no que sai na mídia. O policial sai preparado para trabalhar nas ruas tão logo tenha concluído o curso e seja lotado em um batalhão", explica o militar à reportagem daGazetaweb.

Como Bittencourt, as associações que representam policiais e bombeiros afirmam que os cursos apresentam sim resultados satisfatórios. Segundo as instituições, há alguns anos, as formações ganharam um perfil mais técnico e deixaram de lado possíveis excessos ou falhas que pudessem comprometer a qualidade do aprendizado.
"Nós observamos que, antigamente, existiam treinamentos que chegavam a ser desumanos, sobretudo na parte física. Mas, depois da constituição de 1988, os cursos passaram a ser mais técnicos, até porque o militar precisa de um treinamento aprimorado para enfrentar as situações que encontra na rua", ressalta o major Wellington Fragoso, presidente da Associação dos Militares Oficiais de Alagoas (Assomal).
Embora reconheça avanços, o presidente da Associação de Cabos e Soldados de Alagoas, cabo Wellington Silva, admite que ainda podem existir condutas consideradas inadequadas dentro dos cursos de formação, mas diz que se tratam de fatos isolados. "Esta não é a regra da Polícia Militar. A orientação que é passada é instruir. Se há excessos, esses excessos são decorrentes da mentalidade do instrutor", observa.
Para o presidente da Associação dos Bombeiros Militares de Alagoas, sargento Marcos André Ramalho, diversos fatores têm contribuído para que os cursos de formação se tornem cada vez mais técnicos e deixem de lado possíveis excessos.
"A sociedade mudou e, consequentemente, cobra uma postura mais técnica de quem está no comando dos cursos. Hoje vemos profissionais que não admitem se submeter a determinadas situações e que sabem onde buscar direitos, nos casos em que há desrespeito. Além disso, o próprio perfil dos instrutores muda com o passar do tempo, o que faz com que cada formação tenha uma característica diferente", explica Ramalho.
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APESAR DE AVANÇOS, HÁ DENÚNCIAS DE ABUSOS
No entanto, apesar dos avanços, ainda surgem denúncias de supostos abusos praticados em treinamentos. O caso mais recente é do cadete Artur Victor Lins da Silva, de 30 anos, que passou mal durante um treinamento e está hospitalizado.
A família do aluno do Curso de Formação de Oficiais formalizou, na segunda-feira passada, dia 20, denúncia na Promotoria de Justiça Coletiva e Direitos Humanos do Ministério Público Estadual. Para os familiares, o cadete passou mal e foi internado por causa do excesso de esforço físico durante os treinamentos na Academia Militar.

A Gazetaweb ouviu relatos de militares que preferem não se identificar, mas que relatam que já viram ou presenciaram algo considerado abusivo durante os treinamentos. "Os pelotões possuem comandantes e instrutores diferentes, alguns podem sim ser mais abusivos. Não existe uma linearidade na formação, ao menos no meu curso", explicou um aluno que pediu para não ser identificado pela reportagem.
Então, por que não denúncias não são formalizadas na Corregedoria da Polícia Militar? De acordo com os alunos e até com associações militares, o medo de represália impede que os futuros militares busquem punir quem pratica algum tipo de assédio.
"O aluno do curso está sempre em desvantagem nesse sentido, pois qualquer coisa pode ser motivo pra punições, como passar o fim de semana no quartel", explica um militar formado recentemente, que prefere não ser identificado.

POLÍCIA MILITAR NEGA EXCESSOS
Questionada sobre possíveis excessos, a Polícia Militar nega qualquer tipo de irregularidade. Segundo o comandante do CFAP, tenente-coronel Wellington Bittencourt, as aulas oferecidas nos cursos são ministradas por profissionais capacitados e que passam por um processo de seleção e tem que atender a requisitos específicos.
"Todo treinamento, principalmente o prático, exige um acompanhamento, uma preparação anterior. E os profissionais que ministram cursos são qualificados para isso. A instituição não corrobora com nenhum tipo de excesso. Claro que existem treinamentos especifícios que excedem a normalidade de tempo de um treinamento civil, mas essas situações são tecnicamente acompanhadas", destaca Bittencourt.

O comandante do CFAP faz questão de advertir que, apesar do acompanhamento técnico, cada corpo reage de uma forma e que, por este motivo, podem acontecer casos isolados de alunos que sentem mal. "Não há execesso. O policial militar, assim como qualquer outra pessoa, pode passar mal, porque o corpo humano pode apresentar surpresas. Se fosse assim, um atleta não teria nunca um infarte", pondera.
Bittencourt lembra que, para minimizar os riscos, a polícia realiza, além de prova intelectual, teste físico e exige que os candidatos apresentem exames médicos que comprovem que eles estão aptos a desempenhar a função.
"Durante a seleção, é realizado um teste físico bastante rigoroso. O teste é o mínimo exigido para qualquer cidadão que tenha uma atividade física corriqueira. Aqui dentro vão adquirindo condicionamento. Obviamente, que há alguns chegam com um condicionamento abaixo do que foi aprovado, até pelo tempo que levam para ser chamados", expõe.
No entanto, apesar de defender o treinamento, o comandante do CFAP ressalta que casos de abuso devem ser denunciados à Corregedoria da Polícia Militar para que providências sejam adotadas. "Volto a repetir, a PM não corrobora com nenhuma prática abusiva. Não é nossa orientação. Então, os excessos devem ser denunciados".
Além da Corregedoria, quem se sentir vítima de abuso pode procurar a Ordem dos Advogados do Brasil, o Ministério Público e associações militares.

