Empresário recebe primeiro transplante de pulmão bem-sucedido no país após Covid

Ele espera ter alta na mesma semana, após completar quase sete meses de internação hospitalar

O empresário alagoano José Hipólito Correia Costa, 61, comemorará três meses de um transplante de pulmão inédito no Brasil que lhe devolveu a vida, após ter tido o órgão destruído ao ser infectado pela Covid-19 com uma fibrose irreversível.

Ele espera ter alta na mesma semana, após completar quase sete meses de internação hospitalar em São Paulo. Desse total de tempo, passou 88 dias ligado à Ecmo (Membrana de Oxigenação Extracorpórea), uma espécie de pulmão artificial que oxigena o sangue fora do corpo, substituindo temporariamente o órgão comprometido de maneira severa.

O transplante foi realizado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e é o segundo realizado com paciente que teve Covid na instituição. O primeiro doente, porém, não sobreviveu ao procedimento. No mundo, foram documentados cerca de 50 procedimentos desde o início da pandemia.

"Se não tivesse ocorrido o transplante, certamente o paciente já teria morrido", diz o cirurgião torácico Marcos Samano, coordenador de transplante pulmonar do Einstein e professor da USP.

A cirurgia demorou dez horas e envolveu sete profissionais e a situação inusual de ter um paciente conectado a duas Ecmos simultâneas: aquela à qual ele já estava ligado antes e outra usada durante o transplante.

"Para a alegria geral, os dois equipamentos foram desconectados logo após o procedimento", afirma Samano.

O caso de Costa suscitou vários debates técnicos e éticos. Afinal, por que priorizar um paciente que acabou de entrar na lista de transplante, atingido por uma doença da qual ainda se sabe tão pouco?

Só no estado de São Paulo há pelo menos cem pacientes à espera de um pulmão. No Einstein, são 35.

A favor do empresário havia o fato de que ele era muito saudável antes da Covid (caminhava 15 km diariamente na orla de Maceió) e, mesmo com a doença, seus outros órgãos estavam preservados.

A situação foi discutida na Câmara Técnica de Transplante de Pulmão, ligada ao Ministério da Saúde, que autorizou a cirurgia.

"É um procedimento de alta complexidade, que exige que o paciente tenha condições mínimas de fazê-lo. Ao fazer um transplante sem grandes chances de dar certo, você não só mata o paciente como mata também aquele outro da lista que não teve a possibilidade de ser transplantado", explica o pneumologista José Eduardo Afonso Júnior, coordenador médico do programa de transplantes do Einstein.

Segundo o médico, antes da Covid-19, pacientes que ficavam gravemente doentes do pulmão por um evento agudo nunca eram candidatos a transplante. "É um paciente que está há muito tempo na UTI, muito enfraquecido, colonizado por bactérias.“