‘TEMOS FOME’: Venezuelanos buscam ajuda em sinais de trânsito de Maceió

Em depoimento, refugiados fazem retrato da Venezuela e do que os motivou a fugir

"A vida está muito difícil na Venezuela. Primeiramente acabou medicamento, o alimento, o atendimento médico, não tinha trabalho, acabou tudo e por isso buscamos ajuda no Brasil”. Esse é o atual retrato da Venezuela relatado pelo refugiado Argenis Jesús Mendonza Marcano, que está sendo acolhido em Maceió, com a família. Pelas ruas da capital alagoana, principalmente em semáforos, é possível encontrar histórias de venezuelanos como o Argenis, que pedem ajuda para ter o mínimo de sobrevivência para si e para a família.

O cenário retratado por Argenis e vivenciado pelos venezuelanos é comprovado por dados da Pesquisa Nacional de Condições de Vida (Encovi) 2019-2020, realizada pelo Instituto de Investigações Econômicas e Sociais da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Católica Andrés Bello (IIES-UCAB), que revelam que a população daquele país tem vivido em duas situações: 96,2% vivendo na pobreza e 79,3% em situação extrema pobreza. O que significa dizer que, segundo o Banco Mundial, pessoas de extrema pobreza vivem com menos de US$ 1,90 por dia.

Argenis Jesús conta que, ao chegar à capital alagoana, dormiu na rua por 5 dias com seus filhos, de 5, 3 anos e 1 ano de vida. "Não tínhamos onde morar e não tínhamos como pagar aluguel, ficamos na rua. Às vezes, as pessoas ajudavam e outras vezes não. Depois, morei por quase cinco dias em frente à rodoviária. Era uma pensão, pagava 50 reais o dia, com a ajuda que recebia na rua. Depois saí e fui morar em um abrigo, ali nas proximidades do Hospital da Mulher”.

Atualmente, Argenis e as crianças, Argello, Aldanael e Meurelis, dividem uma casa com mais duas famílias, que são formadas por quatro pessoas, sendo duas crianças, e a outra formada por sete crianças e dois adultos, totalizando nove. A casa, no total, tem 17 pessoas. O aluguel dividido por eles é de R$ 450.

"Muitos familiares ficaram na Venezuela por não terem dinheiro para pagar o transporte. Deixei avós, primos, tios, tias, irmãos por lá por não terem condições", relata.

Venezuelanos buscam ajuda para comer e pedem em sinais da capital - Foto: Clariza Santos

Argenis diz que chega aos semáforos instalados nas proximidades de um grande mercado atacadista, localizado no bairro do Tabuleiro do Martins, para pedir ajuda, por volta das 7 horas e retorna para casa às 14 horas ou 15 horas, a depender do dia, faça chuva ou sol. "Precisamos de alimentos, principalmente peixe e frango, além de fraldas, para que tenhamos como sobreviver. É muito difícil, mas precisamos de doações". 

Maceió foi escolhida para ser o novo lar da família de Argenis, segundo o relato, "por causa do mar, que é muito bonito, e do acolhimento".

Já na parte baixa da capital alagoana, às margens do Riacho Salgadinho, de frente para o mar tranquilo da Praia da Avenida, no bairro do Poço, encontra-se a família de Rafael e Serena Perez, com os cinco filhos, indígenas da etnia Warao, da Venezuela.

Em busca de melhores condições para sobreviver, Rafael, Serena e as crianças, sendo a menor prestes a fazer um ano de idade, relatam que pagaram R $140 por pessoa para sair da Venezuela em busca de “esperança em dias melhores”.

Rafael conta que, ao chegar na capital alagoana, dormiu na rodoviária, para não ficar na rua com as crianças. “Tem 2 meses que estamos morando em Maceió. Não tínhamos mais oportunidade na Venezuela, buscamos apoio no Brasil por acreditar que teríamos, ao menos, o que comer. Lá já não tinha emprego e nem o que comer, eu fazia alguns bicos antes de tudo acontecer, mas, na crise, sem estudo fica ainda mais difícil”.

Serena, que estava amamentando a filha que está prestes a fazer um ano, diz que deixou para trás uma história de tristeza e, agora, tenta se reconstruir de forma digna, através da "solidariedad [solidariedade]".

. - Foto: Clariza Santos

AUXÍLIO

Conforme informações repassadas pela Cáritas em Alagoas, organização não governamental da Igreja Católica e organismo da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que tem auxiliado pessoas em vulnerabilidade, principalmente na pandemia, têm acolhido venezuelanos.

"Em 2018, recebemos a primeira família de venezuelanos integrantes do primeiro tipo, o urbano. Desde então começaram a chegar muitas famílias, hoje são 8 ou mais famílias, que já se encontram inseridas na sociedade maceioense, trabalhando, estudando e empreendendo", conta o voluntário da Cáritas, James Nogueira.

A partir de março deste ano, ainda de acordo com James, começaram a chegar os imigrantes do segundo tipo, que são os indígenas da etnia Warao, da Venezuela. "Estes são os que ocupam os semáforos da capital em busca de sustento. Tem sido a principal fonte de renda deles pois, são pescadores e artesãs, com baixa escolaridade".

As famílias de Argenis e de Serena e Rafael fazem parte desse segundo tipo de refugiados vindos da Venezuela. Hoje em dia vivem dez famílias desta etnia em Maceió. Totalizando, 46 pessoas.

"Todos sabemos da grave crise social e política que passa a Venezuela. Em busca de um lugar melhor para viver, muitas famílias deixaram a Venezuela rumo aos países vizinhos. O Brasil tem sido um destino muito procurado e a fronteira com Roraima é a porta de entrada. Ao cruzar a fronteira a PF [Polícia Federal] fornece um protocolo de refúgio e o imigrante escolhe para onde quer ir para fixar residência no Brasil. Geralmente após a PF eles procuram as organizações religiosas e muitos chegam até a Cáritas, que é um organismo da igreja católica, vinculado à CNBB e que atua há mais de 60 anos no Brasil em defesa das causas das pessoas em situação de vulnerabilidade social", diz James Nogueira. 

Os refugiados que transformaram Maceió em lar saíram da cidade de Mariusa, estado de Delta Amacuro, na Venezuela há mais ou menos 2 anos. Passaram por Pacaraima e Boa Vista, em Roraima, Santarém-PA, São Luiz-MA, Campina Grande e João Pessoa-PB, Recife-PE e finalmente Maceió.

"A Cáritas Arquidiocesana de Maceió busca provocar o poder público e a sociedade civil a olhar para esta situação que vem ocorrendo na América Latina. Reunimos um grupo de trabalho onde estão a OAB/AL, DPU, DPE, MPF, FUNAI, SEMED, SEMUDH, entre outros para discutir um protocolo de conduta a ser adotado para acolher estes imigrantes. Estamos recebendo doações de roupas, cestas básicas e calçados, porém falta a proteína. Não pode ser em grande quantidade porque eles só têm uma geladeira. Eles preferem frango e peixe. Levei eles ao Pontal da Barra e eles gostaram muito. Querem pegar caranguejo no mangue", conclui James. 

ABRIGOS

Sobre as condições de outros venezuelanos, a Secretaria de Assistência Social de Maceió informou, por meio de nota, que 47  estão sendo assistidos, atualmente, com os serviços de alimentação, banho e auxílio moradia. Eles são atendidos em suas unidades de acolhimento institucional, Casa de Passagem Manoel Coelho Neto e Casa de Passagem Familiar, que são preparadas para atender pessoas em situação de migração ou em trânsito.