Mesmo com rachaduras cortando o Pinheiro, moradores não querem deixar o bairro
Relatório de geólogo deve apontar a real causa do fenômeno ocorrido há alguns dias, durante as fortes chuvas que caíram em Maceió
O mês de fevereiro vai ficar na história para os moradores de alguns conjuntos do bairro do Pinheiro, em Maceió. Quem vive em casa ou apartamento se deparou, da noite para o dia, com rachaduras no chão devido às fortes chuvas que caíram na capital. Mesmo partindo chão e paredes, os moradores insistem em continuar no bairro.
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A reportagem se deslocou até o bairro e conversou com a comunidade e comerciantes. Um dos prédios prejudicados foi o Edifício Gameleira, situado no Jardim Acácia, onde mora José Lima, que relatou ter se surpreendido com a rachadura no meio da rua, na manhã do dia 15 de fevereiro.
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"Às 5h30, quando acordei, vi que o chão tinha cedido. À noite, o asfalto estava normal, e, na manhã do outro dia, a rua toda rachada. Além disso, a parte superior da fossa do prédio desabou e a tubulação da rua estourou. Eu, realmente, nunca vi um acontecimento do tipo aqui na região", disse o morador, que mora há 20 anos na região. Ele afirmou que, mesmo tendo que passar por tudo isso, não pretende se mudar.
Morador da primeira residência a ser construída na Avenida Acre, Nasson Pinto chegou ao bairro, junto com a família, na década de 60, e relatou ter passado por várias situações adversas em decorrência do tempo. O médico aposentado expôs que os problemas de rachaduras na região não são novidade.


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Nasson contou que parte da área que abriga os prédios era uma lagoa e foi aterrada; porém, o serviço não teria sido realizado de maneira efetiva. "No começo, quando apareciam os problemas aqui em casa, pensávamos que eram infiltrações, perdi muita coisa, inclusive, e gastei muito com reformas. O problema foi tão grave que poderíamos ter morrido aqui dentro, com alagamentos, enchentes e outras situações derivadas do clima".

O proprietário citou que o imóvel, desta vez, sofreu muitas rachaduras na garagem, na sala e na cozinha. Entretanto, ele argumentou que não deixará o bairro, porque "uma história foi construída". "Criei meus filhos aqui, minha família toda aqui. Mesmo acontecendo isso e morando apenas com minha esposa em uma casa tão grande, não queremos nos mudar. Sempre aguentamos as intempéries do tempo e da vida, driblando e vencendo as barreiras. Apesar de tudo, tenho confiança na minha casa e aqui é meu paraíso".
Em outro prédio situado no conjunto Divaldo Suruagy, mora, no térreo, José Cícero da Silva. Segundo ele, o local tinha passado por uma reforma estrutural que não teve relação com as chuvas. Entretanto, o serviço ficou parado nos últimos dias com o aparecimento das rachaduras.
"Não sei como vai ficar daqui pra frente. Mas, de antemão, já afirmo que ninguém do prédio quer se mudar por causa disso. Informaram a nós que não há risco de desabamento", disse o morador, que está no prédio há 10 anos.
Outro morador da região, no entanto, pontuou que muitos não saem porque não têm noção do perigo. Marcos Tenório comentou que ainda não sentiu a necessidade de deixar o bairro, porque o seu prédio não foi atingido em nada.
"Esse problema de rachadura é antigo demais. Aqui era uma bacia e o piso nos apartamentos estava sempre baixando. Digo a você que posso sair em breve, mas, por enquanto, ainda dá para segurar", lamentou, chamando a atenção para a falta de diálogo do poder público com a comunidade. "Queríamos uma conversa apenas. Nada foi esclarecido sobre o que aconteceu até agora".
Um morador que não quis se identificar estava bastante revoltado com a falta de assistência. Ele alega já ter feito três reformas devido a rachaduras, o que daria para comprar outra casa. Há 47 anos, ele mora na mesma residência. "Ninguém aparece aqui para dizer nada nem ajudar em nada. Muitas casas já racharam e a minha, inclusive, já passou por inúmeras reformas", contou.
Também ouvido pela reportagem, o comerciante Gustavo Henrique - dono de uma panificação no bairro - relatou sobre o sentimento de temor que a população do bairro fica devido aos últimos acontecimentos. "Ficamos com medo, porque as pessoas não querem vir morar aqui nem passar próximo, o que ocasiona na perda de clientes. Até agora, não houve prejuízo, mas o temor é grande".

ENTENDA O CASO
As rachaduras no asfalto apareceram após as últimas chuvas registradas na capital. O coordenador da Defesa Civil Municipal, Dinário Lemos, informou, no último dia 19, que o problema - ocorrido em algumas ruas do bairro do Pinheiro - será solucionado pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminfra).
De acordo com Dinário Lemos, uma equipe de geólogos esteve no local para avaliar a situação em que se encontram algumas residências, já que as fissuras presentes em edifícios do Conjunto Divaldo Suruagy se alargaram.
O coordenador da Defesa Civil Municipal adiantou que a coleta de material do solo - realizada pelos especialistas contratados para tal finalidade - vai definir o que causou o fenômeno em questão. O resultado, no entanto, só deve ser divulgado em 90 dias. "Quanto a riscos de desabamento, só saberemos com a avaliação final do geólogo".
Tal levantamento é coordenado pelo geotécnico e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Abel Galindo. "Há a possibilidade de ser um problema de contração mineralógica, em decorrência da mistura de solos diferentes, o inerte e o ativo. É o chamado solo misto, algo comum nestas regiões onde houve fissura. Depois que molha e seca, o solo inerte permanece no lugar, enquanto o ativo se contrai e abre fendas. É um processo longo, visto que as casas foram construídas há mais de 40 anos, com o problema surgindo somente agora", explicou ele.
REPAROS
Paralelamente à ação dos geólogos, a Seminfra começou a fechar os buracos que se formaram nas ruas afetadas pela ação das fortes chuvas. A medida é uma ação paliativa até que o estudo de solo seja concluído.
A rua que foi cortada pela máquina retroescavadeira da Seminfra foi a Joaquim Gouveia de Albuquerque, em frente ao Edifício Gameleira, no Conjunto Jardim Acácia. A intervenção na via pública tem como finalidade fazer uma vistoria na galeria de água pluvial antes de iniciar o trabalho de substituição de material para fechar a rachadura em um dos pontos mais atingidos.
Com o trabalho realizado, já foi possível observar que, em um ponto específico, a fissura vai adentrando pelo solo em uma profundidade aproximada de 10 metros, conforme destacou a Coordenação dos Serviços de Drenagem.
