Com cooperação da população, projeto pretende transformar espaços de Maceió
Primeiro local a receber intervenção é escadaria da Ladeira da Catedral; Fernandes Lima também deve virar canteiro de flores
A ideia é dar cara nova à cidade. Intervir para que ela possa melhorar cada vez mais, para que ganhe mais cor, mais música, mais arte. E tudo isso com a ajuda da própria população e ainda da iniciativa privada, convidadas a colocar a mão na massa. É essa a premissa do projeto Todos pela Cidade.
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Criada por Fábio Palmeira, Soraya Correia e Carolina Garibini, a iniciativa já começou a movimentar Maceió. A primeira ação, atualmente em execução, vai revitalizar escadarias transversais à Ladeira Eustáquio Gomes de Melo, a ladeira da Catedral. Cerca de 1600 mosaicos serão colocados no local.
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Para isso, a trupe conta com a ajuda da artista plástica Marta Arruda, que está ministrando oficinas de mosaico para que as artes sejam feitas. A atividade acontece às terças, quartas e quintas-feiras, em duas turmas, das 8h às 11h e das 11h30 às 15h, no ateliê montado no Estádio Rei Pelé.
Cada participante é livre para criar como quiser e a expectativa é que todos os painéis estejam colocados até o final de outubro. "Queríamos colocá-los em setembro, mas, como são muitos, o trabalho vai se estender", explica Fábio Palmeira. "Começamos a fazer as telas e precisamos de gente participando. Serão 1600, medindo de 15x15".


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Moradora do lugar, dona Duse Leite recorda que foram os bisavós dela quem pensaram na passagem. A família era dona de todo o quarteirão e, aos poucos, foi vendendo para a construção de estabelecimentos comerciais. Como era engenheiro de estradas de ferro, foi o próprio bisavó dela quem abriu o acesso.
"Estou achando ótimo isso que está acontecendo, porque essa área é muito esquecida. Temos uma vista lindíssima, mas ela é esquecida. Sempre foi descuidada, é palco de assaltos, virou mictório público", lamenta. "É maravilhoso essa área ser humanizada. Foi uma boa ideia, porque cria também um novo espaço em Maceió".
E Duse também comemora a arborização da vizinhança. "Estou enlouquecida com isso; vai ser muito bom. E também têm as plantas que vão colocar. Temos poucas áreas verdes, então é ótimo. Se der certo vou deixar de sair porque da minha janela posso ver tudo o que acontece", anima-se.
Ao todo, são revitalizados os 40 degraus, que ganharão os mosaicos na parte da "testa" - o espaço onde se pisa será pintado. E o projeto não para por aí: além de embelezar as escadarias, o Todos pela Cidade ainda pretende enchê-la de vida, como contações de história, saraus, práticas esportivas.
"São ações para a devida ocupação do espaço público, porque o resgate não está apenas na revitalização. O pessoal que faz tracking mesmo já entrou em contato conosco querendo colaborar, porque depois querem utilizar para exercícios físicos. Essa é a ideia de resgatar os espaços públicos", completa Fábio.

Soraya Correia explica que o objetivo é engajar pessoas para adotar esses lugares por onde o projeto passa, dando a eles um novo significado, seja com ações, intervenções ou melhorias. A máxima vale principalmente para os que estão abandonados. "Esperamos renovar a sinergia e a movimentação dos espaços urbanos que são nossos".
Cidade de orquídeas
Outra ação já traçada em paralelo às escadarias deve deixar a capital alagoana mais florida. O objetivo é espalhar orquídeas pelo canteiro central da Avenida Fernandes Lima, no bairro do Farol. A iniciativa conta com o apoio do supermercado Palato, que será ponto de coleta das flores.
"O cidadão compra orquídeas e muitas vezes não sabe que ela flore a cada ano ou não sabe cuidar. A ideia é criar um ponto de coleta a partir do final de setembro. Nossa ideia é iniciar em frente ao Palato, na Fernandes Lima, com a colocação dessas flores, que serão doados ao município pelas pessoas", afirma Fábio.
Com isso, o corredor será colorido. "Queremos incentivar o cidadão a também fazer o mesmo, assim como o comércio. Imagina daqui a um ano e meio aquele canteiro todo florido, com as orquídeas nos troncos das árvores. Isso acontece em muitas cidades, porque não pode acontecer aqui?", questiona.
Também idealizadora do Todos pela Cidade, a fisioterapeuta Carolina Garabini concorda. "No Rio e em São Paulo existe muito isso. Será feito um vídeo viral para que todo mundo faça na frente do seu prédio, nos bairros, nos condomínios. Maceió precisa ter mais árvore e mais flor, mais lugares que você tenha vontade de ir, sentar, conversar".
Carolina, aliás, foi uma das inspirações para que o projeto acontecesse. Uma criação dela, o Conversando na Praça, mostrou que era possível materializar uma realidade diferente. No "Conversando..." ela vai a logradouros do município para bater um papo com quem passa por ali. Saber seus sonhos.
"A gente vai para as ruas e ouve as pessoas falarem sobre seus sonhos, meio que tentando entender e resgatar essa empatia pelos espaços públicos. Ele começou sem a menor pretensão, depois começamos a fazer um documentário e agora vai para um congresso na França no ano que vem", explica ela.
A atividade começou no último mês de abril, mas precisou dar uma parada devido às chuvas. O recomeço deve acontecer ainda em setembro. "A Soraya [Correia] conheceu isso que eu fazia e achou bacana. Ela me apresentou o Fábio e em menos de um mês tivemos a ideia do Todos pela Cidade", lembra Carolina.
Projeto apartidário

A fisioterapeuta conta que logo que eles sentaram para conversar surgiu o conceito e o nome. Em seguida começaram as movimentações e muita gente se engajou. A primeira foi Marta Arruda e surgiu, daí, a proposta da escadaria da Ladeira Eustáquio Gomes de Melo.
"É algo tao desafiador que comentamos que esse deveria ser nosso terceiro ou quarto projeto, já que é imenso. Essa movimentação é de um por um", diz Carolina, lembrando que, acima de tudo, o Todos pela Cidade é algo apartidário e apolítico. "Cada um tem as suas preferências e a gente tenta colocar a cidade acima disso".
Fábio Palmeira ratifica. "Não existe política envolvida. É um movimento idealizado por nós três. Como eu já vinha desenvolvendo um trabalho de intervenção no Parque Municipal, resolvemos pensar em algo para Maceió", aponta ele, que era coordenador do lugar e hoje é secretário adjunto de Desenvolvimento Sustentável.
E eles não pedem ajuda financeira. O apoio vem em forma de colaboração, seja de tempo, seja de material. Como envolve logradouros públicos, tudo é feito com o conhecimento da Prefeitura. No caso das escadarias, por exemplo, a Superintendência Municipal de Energia e Iluminação Pública (Sima) instalou luzes de LED.
"O movimento não pode se apropriar de um espaço público sem autorização de órgãos competentes. A Sima colocou iluminação de LED, a Cultura vai dar apoio no material do mosaico, a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável está buscando parceiros para adotar o lugar depois da intervenção", ressalta Fábio.
Mas, antes mesmo da iniciativa pronta, as empresas já vêm ajudando. "A Casa Jardim que vai dar as tintas, a Oiko Acabamentos vai dar os rejuntes, a Qualimax vai dar a argamassa. É um movimento que não tem interesse nenhum em angariar recursos. Pelo contrário, queremos o envolvimento de todos, colocando a mão na massa".

Tudo porque a ideia é mesmo fazer com que a população replique atitudes do tipo. É engajar a comunidade, o poder público, empresas, artistas, gerando, assim, mais carinho com o local em que se vive. É dar novo sentido, novo significado aos espaços que por vezes estão ociosos e precisam ser resgatados.
Fábio acredita que seja possível. "Por que no Sul do País as praças e canteiros, os logradouros públicos de forma geral, são tão bem cuidados? Será que é porque o governo desenvolve uma revitalização e fica sempre mantendo? Não, é porque a sociedade e a iniciativa privada abraçam a causa. Enxergam que aquilo é de todos".
Para Soraya, tudo isso ainda servirá de exemplo para as próximas gerações. "Acho importante para o futuro da cidade, manutenção e ocupação dos espaços urbanos que são nossos e não apenas do poder público. Também deixaríamos um legado pras próximas gerações que provavelmente não teriam essas mesmas experiências", opina.
"Nossa preocupação é entregar cada pequeno espaço para que as pessoas tenham uma empatia, possam cuidar, tenham vontade de ir", diz Carolina. "As pessoas precisam amar a cidade. Com isso, o processo de destruição do patrimônio diminui, assim como a vontade de buscar alternativas aumenta", completa a fisioterapeuta.
O projeto pode ser encontrado no perfil @todospelacidade no Instagram. Já o telefone para se inscrever nas oficinas de mosaico é o 99694-9146.
