Após êxodo de moradores, abandono de animais sobe consideravelmente no Pinheiro
Segundo órgãos competentes, situação já é questão de saúde pública. Entidades veterinárias reforçam campanhas de conscientização e de denúncias
Deixados em caixas de papelão ou de transporte, e enrolados em lençóis velhos, a maioria dos animais abandonados em uma clínica veterinária localizada no bairro do Pinheiro é vítima de maus-tratos, problemas de saúde e até de atropelamento.
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O relato, feito pelo proprietário do consultório, Diogo Barros, ilustra uma situação que se tornou recorrente após a região do bairro do Pinheiro entrar em estado de calamidade pública, com o aviso emitido oficialmente no mês de março deste ano. A situação emergencial obrigou a retirada em massa de diversos moradores das áreas afetadas.
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Além do isolamento e desvalorização imobiliária, o abandono frequente dos animais levou à mobilização de ONGs, órgãos públicos, instituições veterinárias, e já pode ser considerada uma questão de saúde pública.
De acordo com Diogo, a estimativa é de que o abandono nas áreas consideradas de risco tenha aumentado em 60% desde janeiro. Para tentar conter parte da situação, a clínica realiza um trabalho de acolhimento e cuidado aos animais deixados no consultório.


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"Providenciamos os primeiros atendimentos, alimentamos e cuidamos até conseguirmos um lar para eles. Mas, com o número elevado de abandonos, infelizmente, não obtivemos sucesso das adoções na proporção necessária", diz.
Na tentativa de recorrer o problema, Diogo tenta orientar aos clientes, amigos e moradores, que, ao tomar conhecimento dos casos, levem aos órgãos competentes ou por meio de relatos nas redes sociais da clínica.
Além das instituições preocupadas com o bem-estar dos animais, a população do bairro também percebeu a gravidade da situação e se reuniu para contribuir. Residente do Pinheiro desde criança, a estudante Soraya Rocha conta que, frequentemente, a vizinhança os alimenta com ração e água.
"Nós também tentamos entrar em contato com outras ONGs, mas todas alegavam que estavam cheias e que não tinham condições de arcar com os custos", relata.
Entidades

O aumento das denúncias de abandono levou o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV/AL) a buscar parcerias com os órgãos públicos, encaminhar constantemente os casos à Defesa Civil de Maceió e contatar os parceiros para atuarem nos resgates.
Apesar da intensificação das campanhas de conscientização e do número frequente de denúncias, a presidente do CRMV, Carla Loureiro, explica que a instituição só tem poder de providenciar o atendimento médico desses animais.
"Cabe ao veterinário fazer os laudos de maus-tratos, se existem problemas de saúde, desnutrição, entre outros. Nossa função é salvar a vida do bicho e as outras atribuições, como resgate e denúncia, repassamos aos órgãos. Infelizmente, não podemos invadir as residências e resgatar o animal sem recorrer à polícia", esclarece.
Segundo a veterinária, o conselho formulou um plano de contingência - totalmente voluntário - e participou das simulações no bairro para orientar os donos desde o salvamento dos animais até como proceder após um possível desastre na região. Nos pontos de encontro definidos pela Defesa Civil nos treinamentos de evacuação, haverá a presença de veterinários, zootecnistas e integrantes de ONGs parceiras.
"Trabalhamos com prevenção, caso ocorra, de procurar um local seguro. Se acontecer uma catástrofe, além da pessoa ter que sair com o pet, deve manter perto os instrumentos necessários. No ponto, ficamos responsáveis pelo animal que chega, para prestar um serviço veterinário, estabilizar e encaminhá-lo", salienta Carla.
Saúde pública
Além da preocupação com o bem-estar, a falta do controle populacional dos animais desamparados nas áreas de risco pode levar à manifestação de doenças como leptospirose, toxoplasmose e raiva. Chamadas de zoonoses, essas infecções são transmitidas por animais domésticos, silvestres, e pragas.
Presidente da Comissão dos Direitos dos Animais da OAB/AL, Rosana Jambo defende a criação de políticas públicas para evitar a contaminação. "O abandono, a contínua procriação de bichos em situação de rua, já é um assunto de saúde pública. Ao deixar de investir em políticas de castração, o município deixa animais crescerem doentes, vítimas de zoonose que afeta diretamente a saúde humana".
Em conjunto com as campanhas de conscientização da comissão, a Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ) é um dos órgãos responsáveis por atuar no resgate e tratamento dos animais errantes. De acordo com Samy Barros, coordenador-geral da UVZ, a castração pública não é uma ideia recente.
"Estamos tentando abraçar a castração como controle populacional, mas o debate ainda está em aberto. Nós não temos condições, por enquanto, de providenciar um lugar para o cuidado do bicho após a cirurgia, como a retirada dos pontos. Esse tipo de trabalho precisa de assistência e amparo tanto antes quanto depois do procedimento", enfatiza.
Conscientização e denúncia

Apesar das campanhas de conscientização e o reforço da lei 9.605/98, que prevê os crimes de maus-tratos e abandono dos animais, a luta das entidades veterinárias demandou ajuda de diversos parceiros comprometidos com a causa.
Além do tratamento clínico por parte da CRMV, e do trabalho de resgate da UVZ, a Comissão de Direitos do Animais se responsabiliza por acatar as denúncias. Mesmo sem um projeto específico para a questão do Pinheiro, a instituição tenta providenciar uma atenção especial aos casos relatados nas áreas de risco.
Ao receber a denúncia, a comissão procura investigar provas da ocorrência, e, na maioria das vezes, se dirige até o local para averiguar e notificar o agressor. Rosana Jambo explica que é o crime é previsto por lei com pena de multa e detenção de três meses a um ano.
"Nos casos de falecimento do animal, se comprovado, a punição aumenta de 1/6 a 1/3 . Por isso, em casos de denúncias, deve-se ligar para o número 3023-7200, juntar provas como áudio, fotos, vídeos, e o endereço do local dos maus-tratos", orienta a Presidente.
Aos donos dos animais domésticos, a veterinária Carla afirma que é possível adaptar o pet, seja qual for o tamanho e idade, ao novo lar. Passeios e brinquedos interativos estão entre algumas das soluções, já que o abandono, salienta a veterinária, leva o comprometimento da saúde física e mental do animal.
"O importante é não deixá-los para trás. O tutor deve buscar ajuda em ongs para a alimentação adequada, amigos e parentes. Há como resolver, basta procurar. Se o animal é de grande porte, o jeito de evitar a ansiedade é levá-lo para passear mais vezes ao dia e oferecer brinquedos. Com gatos, é interessante colocar cercas para ele não tentar voltar", auxilia.
A atuação do resgate não se limita apenas aos órgãos competentes. Carla também atesta que o cidadão comum deve contribuir nas denúncias e orienta no procedimento.
"Se existe outro animal em casa, não se deve levar o bicho abandonado diretamente para lá. O interessante é se dirigir, primeiramente, ao veterinário. No resgate, deve se ter cautela na hora, como colocar uma toalha na hora de transportá-lo, e recursos como ração e água. No resto, é tudo questão de solidariedade da população", reitera.
