Justiça revoga prisão de suspeito no caso da bebida com cocaína

Morador de rua Vinícius Salles Cardoso, de 31 anos, estava preso temporariamente desde o dia 19 de novembro

A Justiça revogou, nesta terça-feira (17), a prisão temporária do homem acusado de entregar uma bebida supostamente adulterada a moradores de rua em Barueri, na Grande São Paulo. O incidente levou à morte de 4 moradores de rua e a internação de vários outros.
Vinicius Salles Cardoso, de 31 anos, estava preso desde o dia 19 de novembro e foi internado em uma clínica de recuperação em Cotia, também na região metropolitana, a pedido da família.
A Polícia Civil indiciou ele pela morte dos quatro moradores de rua em 9 de dezembro, recomendando que ele "permaneça recolhido em cárcere privado, em manicômio judicial".
Vinicius, que também era morador de rua, passou por uma avaliação psiquiátrica após o incidente.
Nesta semana, a Justiça analisou uma série de pedidos de diferentes das partes do processo. O Ministério Público Estadual solicitou a prorrogação da prisão temporária por mais 30 dias. A Polícia Civil alegou que, para a investigação, mantê-lo detido não era mais necessário. A defesa do suspeito solicitou a revogação da prisão e indicou que ele seria internado logo após a libertação.
Além de ser indiciado por homicídio culposo (quando não a intenção de matar) de quatro vítimas, ele também vai responder por lesão corporal de outras quatro pessoas.
A Polícia Civil aguarda a conclusão de uma perícia para relatar o inquérito à Justiça, o que deve ocorrer nas próximas semanas, segundo o delegado Anderson Pires Giampaoli, que chefia a investigação do caso. Depois, o Ministério Público decidirá se denunciará ou não Cardoso. A Promotoria pode pedir novos esclarecimentos à polícia ou o arquivamento do caso.
Laudos necroscópicos
Os legistas analisaram o sangue e os órgãos de Denis da Silva Oliveira, de 33 anos, e encontraram a concentração de 1,9 gramas de álcool por litro de sangue, o equivalente a oito doses de cachaça, e mais do que 2 gramas de cocaína no organismo. Uma pessoa saudável pode sofrer overdose se consumir 1,2 gramas da droga.
Luis Pereira da Silva, de 49 anos, segundo o exame dos legistas, tinha 2,5 gramas de álcool por litro de sangue. É como se ele tivesse bebido 9 doses de pinga. No corpo de Luiz também foram encontrados mais de 2 gramas de cocaína.
Edson Sampaio da Silva, de 40 anos, tinha a maior concentração de álcool no sangue: 4,4 gramas, o mesmo que ter tomado mais de 17 doses de cachaça. No corpo dele, os legistas também encontraram mais de 2 gramas de cocaína.
Os peritos do Instituto de Criminalística encontraram muita cocaína misturada à bebida - 51 miligramas da droga por mililitro da bebida.
Suspeito preso
Vinícius Salles Cardoso também tomou a bebida e foi internado com outros moradores de rua, mas sobreviveu. A pedido da polícia, ele foi preso temporariamente na cadeia pública de Carapicuíba, cidade da Grande São Paulo.
Para Patrícia Carvalho, advogada de Vinícius, seu cliente é inocente e somente mais uma vítima da bebida. "Eu confio na inocência do meu cliente. Não sei o que aconteceu. Estou sendo bastante franca com vocês, muito sincera. Não sei o que aconteceu. Não sei se realmente essa história de que ele achou ou da primeira versão do carro, não sei o que é verdade", falou Patrícia à imprensa. "Mas isso está sendo apurado. A Polícia está trabalhando incansavelmente", disse.
Os testes psiquiátricos de Vinícius foram feitos no Hospital Municipal de Barueri e mostraram que ele pode "adotar comportamento cruel e colocar a sociedade em risco."
Ele disse ao médico: "se for preciso matar ou assaltar por droga, eu faço", "demonstrou irritabilidade e acessos de raiva" e "não demonstrou sentimentos afetuosos nem aos companheiros de rua." O diagnóstico do laudo foi: "transtorno mental e comportamental, devido a substâncias psicoativas e síndrome de dependência."
Diante disso, o psiquiatra recomendou que ele "permaneça recolhido em cárcere privado, em manicômio judicial por longa data, e com acompanhamento médico."
A advogada de Vinícius disse que vai tentar outras medidas assim que o inquérito for entregue a Justiça. "Eu pretendo pelos indícios que temos até hoje tentar uma desqualificação até do homicídio culposo porque o meu entendimento é de que ele também foi vítima."
A defesa de Vinícius informou que a família dele vai pagar os custos da internação. A polícia ainda investiga se outras pessoas participaram do crime.
Hipóteses investigadas
Segundo a investigação, ele confessou que foi o responsável por levar a garrafa com o líquido ao grupo e oferecer a bebida às pessoas, mas há deu três versões diferentes para o caso.
1. Vingança
Uma das hipóteses investigadas pela Polícia é a de que comerciantes poderiam ter dado uma garrafa com bebida envenenada para o grupo que mora nas ruas por vingança. Há relatos de que comerciantes e vítimas teriam discutido antes pelo fato de elas ocuparem a região, atrapalhando o comércio.
2. Barueri
Outra hipótese vem de uma testemunha. Ela contou à TV Globo que a bebida foi entregue ao grupo em Barueri por pessoas que estavam num carro. A investigação solicitou as gravações de câmeras de segurança para tentar identificar quem levou a garrafa com a bebida às pessoas que estavam na praça. Até esta segunda-feira a polícia não identificou nenhum suspeito nas imagens.
3. Fatalidade
Na hipótese de ter sido uma fatalidade, as vítimas teriam misturado medicamentos com entorpecentes e álcool e tido uma espécie de overdose. Não está descartada ainda a possibilidade de que o grupo tenha consumido álcool adulterado e se intoxicado.