Sobrecarga: Pesquisa busca solução para melhorar qualidade de vida de animais
Comunidade acadêmica da Ufal desenvolveu fórmula que calcula peso ideal que cada bicho de carga pode carregar
A pesquisa é capaz de tudo. Ela transforma materiais e pode promover uma verdadeira mudança na vida das pessoas e também dos animais. Em Alagoas, um estudo focado no bem-estar dos bichos tem chamado a atenção da comunidade internacional. Professores e alunos da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) desenvolveram uma fórmula que calcula o peso ideal que os cavalos, éguas e burros utilizados para o transporte de cargas podem levar.
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Parece algo simples, mas o trabalho envolve muito mais que um cálculo. Mexe com o cotidiano dos mais de 3 mil carroceiros que atuam em Maceió e também com as milhares de pessoas que usam esses animais em suas atividades laborais e cotidianas no interior do estado. Em sua grande parte, os bichos refletem a situação de vulnerabilidade vivida pelos donos e apresentam uma subnutrição que os deixam ainda mais frágeis para carregar peso dia e noite, em um local de clima quente, que castiga.
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Muitos dos donos desses animais de carga não têm outra fonte de renda a não ser o transporte de entulhos, metralhas, recicláveis e outros materiais. Vivem em regiões vulneráveis, onde a violência e a falta de oportunidades e de educação são o carro-chefe. Utilizam-se dos bichos para sobreviver. Diante disso, como se comportar com um animal irracional e indefeso? Em muitos casos, os maus-tratos roubam a cena e ganham as páginas dos jornais. Mas o que está por trás disso tudo são famílias inteiras dependendo da atividade que tem como 'matéria-prima' primordial a força animal.

É preciso haver o equilíbrio entre essa necessidade e as condições dos bichos. E é justamente isso que a pesquisa'Desenvolvimento e validação in vivo de fórmula de capacidade de carga para equinos de tração', desenvolvida pela comunidade acadêmica da Ufal, visa buscar. O professor do curso de Medicina Veterinária do campus Viçosa, no interior de Alagoas, Pierre Escodro, que está à frente dos trabalhos, conta que quando chegou a Maceió, vindo de São Paulo, a quantidade de carroceiros nas ruas chamou a atenção. Eram muitos espalhados por toda a cidade, em meio ao trânsito muitas vezes caótico nas grandes avenidas da capital.


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Ele diz que, em outros estados, a preocupação dos políticos e também da própria população é a de acabar com esse tipo de transporte de carga - que faz uso de animal -, sem pensar na questão da sustentabilidade humana e econômica que a atividade gera. Por isso, pensou em desenvolver algo que pudesse ajudar no trabalho dos carroceiros, sem que, para isso, os animais fossem ainda mais sacrificados.

O projeto, inicialmente pequeno, nasceu em 2009, foi ganhando forma e hoje conta com a participação de seis bolsistas de mestrado, um de doutorado, cinco de iniciação científica e três de extensão, além de mais doze voluntários. A ideia, desde então, tem sido concluir o cálculo, testá-lo e, por fim, transformá-lo em lei. Falando assim, até parece fácil, não fossem as barreiras financeiras encontradas pelo caminho.
SEM RECURSOS
Sem financiamento, o projeto caminha devagar, mesmo com o longo tempo em que foi iniciado. Apesar disso, o cálculo inicial foi concluído, com a participação de alunos e professores dos cursos de Medicina Veterinária, do campus Viçosa, e de Física e Zootecnia, ambos do campus Arapiraca, e já ganhou destaque na revista internacionalJournal of Equine Veterinary Science, Elsevier, uma das mais conceituadas do mundo na área de equinos. Agora, a espera é por recursos que possam fazer a pesquisa avançar.

"Fizemos uma fórmula simples, pois a ideia é legislar. Para calculá-la, consideramos um terreno reto, tomando como base o peso do animal. A fórmula tem dois índices interessantes: um para jumento e um para equino, e indica que o animal pode carregar mais ou menos duas vezes o seu peso na carroça. Hoje o nosso maior entrave é fazer a comprovação da fisiologia do exercício dessa fórmula, ou seja, colocá-la em prática com alguns animais e estudar as respostas que vamos obter. Ela foi publicada internacionalmente, todo mundo adorou, mas não temos verbas para comprar animais de carroça e adequá-los para essa realidade que estamos estudando. Precisamos fazer a fisiologia do exercício e a emogasometria, e hoje não temos condições", destaca Pierre Escodro, ressaltando a importante contribuição do professor Tobyas Mariz, do curso de Zootecnia da Ufal para o estudo.
O professor Pierre lembra que, desde os primórdios da história da humanidade, os animais eram utilizados para o transporte. Atualmente, mesmo com o desenvolvimento de veículos mais modernos, os bichos continuam tendo esse papel não só no Brasil, mas até mesmo em outros países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos. Lá, é comum cruzar com o transporte de pessoas em charretes. Aliás, esse é um passeio bastante conhecido em Nova Iorque. A diferença entre os animais de lá e os de Alagoas, por exemplo, está apenas na questão da nutrição e dos cuidados, tendo em vista o meio em que vivem.

Para chegar ao cálculo, já reconhecido internacionalmente, os pesquisadores tomaram como base as Leis de Newton, focando em resistência de solo, grau de inclinação, força do eixo reta e capacidade de carga a partir do peso animal, utilizando um índice que já existia desde a década de 50. "Fizemos a validação da fórmula em cavalos de Arapiraca, mas é uma validação empírica. Precisamos avançar mais e, por isso, estamos buscando recursos por meio dos editais que estão sendo lançados", destaca o professor Pierre.
Ele diz ainda que, para ter resultados fidedignos, são necessários entre 18 e 24 meses de pesquisa depois da aquisição de todo o material que precisa ser utilizado no estudo. Os recursos necessários para a conclusão dos trabalhos giram em torno de R$ 110 mil. Quando tudo estiver concluído, a ideia é criar um aplicativo que possa ajudar as autoridades fiscalizadoras a fazerem o cálculo de forma rápida e fidedigna.
Atualmente, a pesquisa vem realizando trabalhos junto a carroceiros dos bairros do Vergel do Lago, do Trapiche da Barra e do Vale do Reginaldo, em Maceió. Mas é possível perceber uma grande incidência de animais de carga também nos bairros de Bebedouro e do Benedito Bentes.

Nessas comunidades, estão sendo realizadas atividades educativas que pretendem orientar os carroceiros a cuidar bem dos animais. A receptividade ao grupo de pesquisadores nem sempre é a adequada e muitas vezes eles se deparam com a má educação e com um comportamento repulsivo. Isso geralmente acontece quando as pessoas ainda não conhecem o objetivo principal do projeto: melhorar a qualidade de vida dos animais e, consequentemente, garantir um melhor desempenho da atividade dos carroceiros.
A DURA ROTINA

Quando o despertador toca às 4 da manhã, Severino Ferreira de Moraes, de 41 anos, sabe que é hora de levantar. O dia nem amanheceu por completo ainda, mas ele já se prepara para uma rotina de trabalho que só termina por volta das 16 horas. A profissão ele aprendeu com o pai, que fazia fretes pela cidade. Hoje ele é casado, pai de três filhos e avô de seis netos, vive da renda do material de reciclagem que encontra na cidade e revende para as cooperativas. Por mês, o valor arrecadado não passa de R$ 700,00.
Com esse dinheiro, ele mantém a família "do jeito que dá". Um dos filhos, Douglas Silas de Moraes, de 19 anos, já divide o ofício de catador de material reciclável com o pai. Da Vila Brejal, onde moram, eles saem por diversos bairros da capital à procura daquilo que vai se transformar em dinheiro horas depois. Papelão, garrafas, plásticos, papéis, tudo é colocado em cima de uma carroça e levado até o depósito, no bairro do Trapiche da Barra.
O trabalho exaustivo dos dois conta com a ajuda essencial de uma égua, responsável por puxar a carroça e acompanhá-los em todo o trajeto, debaixo do sol ou da chuva. O bicho está com Severino há um ano. Ele nunca o batizou. O motivo: "Ela não é minha de nascença. Já comprei velha, por isso não dei nome e chamo de égua mesmo. Agora ela está buchuda e quando o filhote nascer, aí sim, vou dar um nome", conta Ferreira.
Logo depois de acordar, Severino toma um café e segue para a cocheira onde estão dois animais que ele cria e que os ajudam na labuta diária. Ele diz que faz um rodízio - dia sim e dia não - com as éguas, justamente para que elas não sofram muito com a rotina do trabalho.

Quando chega ao local onde os animais passam a noite, ele conta que os alimenta e dá banho. "Elas precisam ser bem cuidadas. Sei que, se não cuidar, vai ser pior, porque como vou trabalhar se dependo delas? Pode olhar, ela é bem tratada. Não tem uma ferida e nenhum sinal de maus-tratos", garante.
Assim como Severino, milhares de homens e mulheres espalhados por Maceió e por muitas cidades do interior do estado garantem sua renda através do trabalho feito junto aos animais, por isso, ele afirma que tratá-los bem é uma obrigação. Mesmo sem conhecer o projeto de pesquisa desenvolvido pelo grupo de estudos da Ufal, o carroceiro aprova a iniciativa, que visa ao bem-estar animal.
"Eu mesmo tenho consciência. Não coloco mais de 300 quilos na carroça, que é mais ou menos o que ela pesa. Agora, o que mais vejo por aí é gente enchendo a carroça de peso. Isso é uma judiação muito grande. Não é porque é um bicho que a gente vai tratar de qualquer jeito. Muito pelo contrário. A gente sabe reclamar, mas eles não. Não ando correndo com ela, às vezes os motoristas até reclamam e buzinam no trânsito, mas eu nem ligo. E sempre que chego em algum local apropriado dou água e banho para amenizar esse calor", disse.
O entendimento de que tratar bem o animal é um benefício para o próprio carroceiro nem sempre é percebido sem o auxílio de pessoas que mostrem os riscos e problemas que o excesso de peso e os maus-tratos podem trazer para os equinos.
Por mais que algumas instituições que atuam em defesa dos animais promovam ações educativas, ter uma lei que faça o controle do peso que os animais podem carregar torna-se fundamental em locais onde a conscientização não chega.
Essa tem sido a luta dos pesquisadores da Ufal que estão engajados na pesquisa: conseguir os recursos, agilizar os trabalhos e fazer com que o cálculo passe a ser usado em todo o estado de Alagoas.
